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16.10.14

Explicações para o caos

Não há dúvida de que está toda a gente meio atordoada com a forma como tudo de repente se complicou tanto. Ainda ontem estava a ouvir a ministra das finanças a apresentar o OE do próximo ano e não pude deixar de pensar como tudo aquilo que estava a ser dito ficou desatualizado desde o dia da famosa reunião das 18 horas (quem ainda tem dúvidas é ver aqui). É evidente que todo o governo sabe disso, longe de nós de o pormos em dúvida, mas o nosso ponto é que este orçamento de estado é sintomático da forma como ninguém se apercebeu de que isto ia piorar tanto.

E por que motivo estão os números da economia a revelar uma fragilidade repentina tão grande que levaram os índices europeus e americanos de máximos históricos a um eminente bear market em poucos dias? O que aconteceu de tão catastrófico?

Eis a nossa tese.

Em primeiro lugar, as economias ocidentais, de forma muito especial, as europeias continuam incrivelmente fragilizadas porque, bem visto, nada de relevante foi feito desde que a crise rebentou em 2007. E esse estoiro de 2007 mais não é do que a consequência da acumulação de tensões resultantes de um sucesso pleno e excessivo que vem de há muito tempo. Uma das nossas últimas leituras, o livro Civilização, o ocidente e os outros, do historiador britânico Niall Ferguson, conta-nos de que forma o ocidente conquistou, desde o século XVI, uma posição de domínio global assente em 6 aplicações-chave:
  • Competição entre múltiplos estados que constituíam entidades corporativas concorrentes entre si;
  • Revolução científica com grandes descobertas na matemática, na astronomia, na física e na química;
  • Estado de direito e governo representativo;
  • Avanços na medicina, com controlo das principais doenças e epidemias;
  • Sociedade de consumo em conjunto com a revolução industrial;
  • Ética no trabalho e maiores taxas de poupança, com acumulação sustentada de capital.
Não custa nada perceber que todos estes aspetos em que o ocidente deu cartas e lhe permitiram ganhar vantagem ou foram postos em causa por culpa própria, ou foram copiados principalmente pelos asiáticos.

Hoje, pode-se dizer que estamos a ser vítimas do nosso próprio sucesso, como tem sido de resto norma em todas as civilizações da História que atingem um elevado patamar. E notem que não estamos a dizer isto por a bolsa estar a cair. A bolsa cai porque as pessoas têm medo, da mesma maneira que há de subir quando a ganância entrar em ação, independentemente de termos o nosso modo de viver posto em causa ou não. Aliás quem hoje vende na UE e nos EU pode até ser chinês e é muito duvidoso que esteja a vender por temer o fim da civilização ocidental. Portanto, não é esse o nosso ponto!

É verdade que se levaram a cabo uns planos de austeridade que conseguiram essencialmente desalavancar expetativas, mas do ponto de vista económico e financeiro nada de relevante mudou. As dívidas continuam elevadíssimas, os défices estão descontrolados e, acima de tudo, o desemprego mantém-se em níveis impossíveis. Mas também, valha a verdade, o problema não tem solução, porque a dinâmica das próprias sociedades tem tanta inércia que não há força que as consiga manobrar.

Quando olhamos para o OE 2015 e vemos que acabaram os cortes nas pensões entre os 1000 e os quatro mil e tal euros compreende-se por que motivo vamos mesmo ao fundo. Como é possível que se façam tantos ajustes e cortes e, ao mesmo tempo, se continue a pagar aquilo que sabemos ser impossível pagar. E não me venham com a treta dos descontos: os descontos que pagam reformas são os descontos de quem está atualmente no ativo. E também nos estamos verdadeiramente a marimbar para a mais do que estafada guerra geracional, que só serve para nos atirar areia para os olhos. Isto tem que ver com realismo. Como é que se mantém este estado de coisas quando uma percentagem tão grande da população está desempregada e a esmagadora maioria dos jovens ou não tem emprego, ou tem emprego escravo, ou emigra? Como é que se vão cortar 700 milhões em educação, e ao mesmo tempo se continuam a pagar milhares de pensões de reforma de 2000 euros para cima? Não há dúvida de que nós nos tornamos complacentes e perdemos por completo todos os trunfos que nos tornaram vencedores. E isto é uma corrente europeia, que se deu ao luxo de pensar que ao mesmo tempo que deixava falir as empresas que criaram a civilização ocidental, era possível manter privilégios que nem no paraíso celeste existiam. A ética no trabalho acabou porque não há trabalho (na melhor das hipóteses, temos biscates), e as maiores taxas de poupança que fizeram de nós investidores e empreendedores foram liquidadas pela geração que criou o sistema de pensões que agora contribui para rebentar connosco.

E é esta conjuntura de fragilidade e de bloqueio que é posta à prova pela crise ucraniana. Ainda hoje os jornais apontam o ressurgimento dos receios em relação à Grécia (seremos nós a seguir?) como a causa primeira para as quedas do dia. Mas erram o alvo. O regresso dos gregos (que decididamente continuam entretidos no pagode, a fazer na meia) resultam essencialmente da aflição alemã, que se estampou por causa das sanções à Rússia. Foi mal medido pelos políticos europeus, ou era inevitável que assim fosse? Enclino-me para a primeira hipótese, embora reconheça que não reagir às investidas do Putin seria mais perigoso do que uma crise económica.

É verdade que os russos também não estão melhor e, ao olhar para os preços do gás e do crude, fica-se com a ideia de que já perderam o às de trunfo. O problema para nós que estamos do lado de cá da barricada, é que, como assinalamos num post aqui colocado há algumas semanas, os russos estão sempre prontos para o combate (e se não estiverem, a vodca encarrega-se de impor tranquilidade), ao passo que nós temos demasiado a perder. Mesmo sem trunfos, Putin arrisca-se a sair vitorioso enquanto nós mantemos privilégios e bloqueamos quem quer e pode trabalhar. Se juntarmos a isso a guerra que vamos ter que travar contra o fanatismo medieval do estado islâmico e a guerra contra o medo de epidemias e de catástrofes naturais não vai ser preciso fazer muito esforço para perceber porque caem as bolsas.

30.9.14

O Brasil e o petróleo

De entre os BRICs talvez fosse o Brasil o mais dependente de expetativas futuras. No tempo da presidência de Lula da Silva a alta do preço dos metais e, de forma muito especial, a descoberta de enormes reservas de petróleo inundaram o país de liquidez injetada por investidores deslumbrados com as promessas de ganhos que supostamente não encontrariam em mais lado nenhum do mundo.

Excitados com a teoria do peak oil, a salivar ante os ganhos brutais que os países do Médio Oriente ou até a Venezuela de Chavez tiveram quando o barril chegou aos 150 dólares e ávidos por investir as enormíssimas reservas de capital que tinham sorrupiado ao Zé Manel, não faltaram artolas a canalizar recursos absurdos para a empreitada de extrair crude de jazidas que se encontram a mais de 5000 metros debaixo do oceano. A peta de que o petróleo iria esgotar lá para 2040, que enfiavam na cabeça das criancinhas desde o jardim de infância, entranhou-se de tal forma na grande massa cinzenta global que até uma empresa de 5ª categoria como é a GALP, vinda de um país endividado até ao tutano, se avalançou aos leilões dos poços brasileiros.

Mas o petróleo não vai acabar. E nem é preciso, nem faz qualquer sentido, ir buscar petróleo a reservas que estão lá no fundo do mar, da mesma forma que é absurdo capturar um asteróide para lhe sacar os metais! E nem sequer estou a falar do shell oil que é fruto de uma tecnologia recente. Estou mesmo a falar do crude normal que existe em reservas no subsolo.

O Mar Negro (Black Sea) tem uma área 5 vezes maior do que Portugal e uma profundidade média que ronda os 1200 metros (dados da Wikipédia). Mas não passa de um pequeno charco na grande área do planeta. Está a norte da Arábia Saudita que, como sabem, flutua precisamente sobre um mar de crude.


O Mar Negro tem 547000 quilómetros cúbicos de água. Por dia consomem-se em todo o mundo uma média de 90 milhões de barris de crude, sendo que cada barril contém 159 litros de matéria-prima. 

Se a água do Mar Negro fosse crude para quanto tempo teríamos reservas? 

Sigam-me nesta conta e dividam o volume total de água pelo consumo diário. Não se esqueçam de reduzir tudo à mesma unidade! Provavelmente deu um valor muito grande. Dividam por 365 para obter o resultado em anos! Está feito?! 

Se não falharam nada, obtiveram 104726 anos! 

Aí está, amigos, se toda a água do Mar Negro fosse crude, teríamos reservas para mais de 100000 anos, mantendo intacto o consumo diário atual.

As conclusões ficam por vossa conta!

30.7.14

Que diabo vem a ser o universo?

A esquerda intelectual vai-se mandar ao teto quando se aperceber da ligação direta entre capital e cultura que nos preparamos para fazer, mas a verdade é que se não lerem, não ouvirem música, não forem ao cinema, não frequentarem museus e/ou não viajarem não vão conseguir ganhar dinheiro na bolsa de forma consistente. Se andarem no mundo apenas porque vêem os outros andar têm uma probabilidade de 95% de se encaixarem nos 95% de traders que perdem dinheiro nos mercados, o que vos dá uma perspetiva de 90,25% de se transformarem em loooooooooooseeeeeeeeeeeersssssss! E isto, meus meninos e meninas, não é um facto! É ainda mais do que isso. Trata-se de uma teoria científica que está certa pura e simplesmente porque... nunca falha!

De maneira que nós aqui no NeB, que primamos por fornecer um serviço completo, providenciamos a nossa própria agenda cultural que mais não é do que um singelo contributo para que desempoeirem a alma e tomem fôlego para os desafios dos mercados.

O texto seguinte, que vem acompanhado de banda sonora do tempo em que a música nos deixava o cérebro em estado de contínua epifania, vem da nossa melhor cepa. Enjoy!

Tindersticks, My sister, 1995

Falamos da morte porque ao Ernesto, o que é maquinista na CP, deu-lhe para nos descrever um vídeo que viu no Youtube. Um grupo de guerrilheiros sírios esconde-se num beco de uma avenida em ruínas de Alepo. À vez cada um deles deixa a segurança do beco e entra dois passos avenida adentro de onde descarrega o magazine da ak47 na direção do inimigo. De cada vez que o faz o nosso combatente enfrenta a morte a céu aberto, de cigarro a descair da boca, aparentemente com a mesma tranquilidade com que nós traçamos tremoços e bebemos bejecas. É então que um deles sai mas nem tempo lhe dão para fazer pontaria. O inimigo escavaca a esquina do beco à força de balázios com ele de permeio. A cambalear arrasta-se para a segurança do beco onde a vida o vai deixar confortado pelas vozes serenas dos camaradas que não param de lhe lembrar que Allahu Akbar como se houvesse o risco de ele se esquecer, desnorteado com os estertores da agonia, de quão grande Deus é, ou fosse apanhado de surpresa com a grandeza de Deus e vacilasse na hora de todas as decisões. O Ernesto explica-nos que o que mais o impressionou foi perceber que os guerrilheiros do beco não enfrentam a morte porque têm coragem, ou porque estão desesperados, nem tão pouco porque lutam por uma causa, mas sim porque têm a certeza de que morrendo dessa forma vão para um sítio melhor. Não se trata de fé, de crença, mas de certeza. Nós concordamos. Entretanto, o sol de verão lá longe no meio do sistema solar brilha no céu azul da nossa esplanada com vista para o mar e sentimo-lo descer em direção ao horizonte, mas já não nos apercebemos da rotação da Terra que nos vai trazer o escuro mais logo à noite. Ao Tavares, que como eu estudou física e tem uma natural predileção pela filosofia, dá-lhe agora para achar que os que perderam a fé, não porque não gostassem dos padres ou de ir à missa ou porque eram a favor do aborto ou por causa de qualquer outra norma canónica, mas porque se aperceberam de que a bota não batia com a perdigota e conceitos como Deus e big-bang se auto-excluíam, acabam sempre mais cedo ou mais tarde por readquirir um certo nível de espiritualidade que não põe de parte a ideia de que a morte não é o fim e pode inclusive manter Deus em aberto. Anselmo, que como todos sabem é anarquista, é de opinião de que sobre esses assuntos não se deve falar e o melhor é manter sempre uma sensata atitude agnóstica que nos preserve a sanidade, mas não nos coloque em maus lençóis se se confirmar que Deus é grande. Claro que sendo anarquista e agnóstico, o Anselmo foi obrigado a lutar com meia dúzia de tremoços pela minha atenção e a verdade é que a parte final do que disse voou com as gaivotas para longe e já não lhe consegui chegar. Estamos neste pé quando a pergunta fatal brota de bocarra do Rodrigues, o pasteleiro, como se fosse uma trombada que nos atinge a todos, de modo que ficamos sem ar e vemo-nos na contingência de fazer uma pausa e olhar para a praia à procura de um par de mamas onde possamos pousar os olhos e deixar a mente arrefecer. Que diabo vem a ser o universo? Pela parte que me toca, conformo-me com a explicação de que nós não compreendemos em que tipo de buraco estamos metidos pura e simplesmente porque existem mais estrelas no céu do que neurónios no nosso cérebro, mas acho uma bênção que tenhamos sido gizados com órgãos dos sentidos que sejam justamente adequados a que nos regalemos com as coisas boas da vida. Enquanto assim penso, o Tavares, que já deve estar com os copos, volta à carga. A dada altura do teu percurso formativo, diz, dás-te conta de quão fatelas são os nossos órgãos dos sentidos e como é escassa a porção do universo que nos chega ao cérebro, de maneira que começas a colocar-te questões sobre a realidade e coisas assim e quando acabas estás transformado numa espécie de religioso sem deus que crê que talvez na radiação cósmica de fundo ou no dualismo onda-corpúsculo esteja escondida a nuance que, contra todas as expetativas, nos transporte deste para um universo paralelo no dia em que a morte chegar. E nesse universo paralelo continuamos a viver? O Tavares acha que sim, mas os universos paralelos são uma espécie de paraíso e nunca há chatices nem coisas más. Pela parte que me toca, voto a favor.  

8.7.14

Há um ano foi assim

O anarquista Anselmo integrou-se no lote dos que andaram a apitar pelas ruas da cidade no dia em que o governo se suicidou. Rejubilou, rejubilou, rejubilou e o chuto de adrenalina foi de tal ordem que, no dia seguinte, apercebeu-se de que tinha ficado com o carro todo amassado. Pelos vistos, tinham-se posto aos saltos em cima do capô e do tejadilho como é costume fazer-se quando o FCP é campeão, de modo que a demissão do MNE saiu-lhe do bolso como se o nosso amigo investisse na bolsa. Natário, o agrimensor, não se deixa entusiasmar de forma tão espalhafatosa, mas está em crer que uma deserção desta monta só se justifica se o motivo for de força maior. O Gasparinho das finanças, por exemplo, foi cuspido no supermercado, coitado do homem, por certo bisca verde da de pior qualidade, e não admira que se tenha posto a bulir. Gosma lançada de mais de três metros que tenha o virtuosismo de acertar no alvo desmoraliza, em princípio de forma irrevogável, quem costuma falhar previsões. Já ao Portas (PP) não consta que tenham atirado caca ou tentado acertar o passo, e nem sequer a uma grandolada teve direito, pelo que a birra deve ter sido provocada por uns acepipes picantes que marcharam na visita de estado ao México, na semana anterior, e que lhe chegaram fogo ao rabo. Do Natário vou bater à porta do Tavares, cuja opinião consulto antes de me pronunciar em definitivo. É que eu próprio tenho o meu painel de comentadores privativos, que me ajudam a fazer uma leitura infalível dos acontecimentos, de modo que quando chego a consenso comigo mesmo já fiz a via-sacra da oscilação mental sem ter a trabalheira de passar horas a ouvir comentadores televisivos. É um sistema bem mais económico em termos de queima de neurónios, que não me importo nada de partilhar convosco. Do ponto de vista do Tavares, estamos em presença de uma daquelas jogadas geniais, apenas ao alcance dos politiqueiros que leram Maquiavel. E elabora: de uma só vez, o nosso irrevogável desertor verga Passos, ajoelha Cavaco e põe os da troika com os olhos fora de órbitas. De bónus ainda faz tremer os mercados mundiais, coloca em perigo as economias e o emprego de muito boa gente e estabelece um novo paradigma para a definição de loucura. No final, os índices que quantificam o grau de vaidade de um indivíduo devem ter atingido valores tão extravagantes que PP estará muito perto de ficar paralítico com os tiques. Orlando, o cético, chega-se à frente e começa a desfiar um rosário de queixas que Passos e Portas têm um do outro e que os fazem ter razão em se odiar mutuamente. Mas eu não estou para o ouvir e despeço-me dos trengos dos meus consultores com a minha ideia feita. Deprimido e com vontade de mandar a racionalidade às urtigas e pensar à moda antiga, puramente de forma emocional, selvagem e instintiva preparo o raspanete que se segue. O que se passou na semana passada foi exemplar da forma como nós somos governados há séculos e do pouquíssimo respeito que o povo português merece a esta gente que vamos pondo no poleiro. E não tenham dúvidas de que somos um povo pobre porque nascemos com o infinito azar de fabricarmos governantes que não têm sentido de estado absolutamente nenhum. Gente que se borra toda se alguém lhes vai um bocado à gamela, mas que é perfeitamente inconsciente do enorme rombo que têm causado na vida de cada um de nós. Ou talvez não seja azar. Na verdade, é altamente provável que o PP ou o PC sejam da mesma estirpe do anarquista Anselmo, que leva tudo no pagode e passa o tempo numa alucinação revolucionária que pulveriza a realidade, ou dos outros meus amigos que vivem da procura de explicações apaziguadoras quando o que está em causa é a mais límpida das traições, um caso flagrante de pena capital, pelotão de fuzilamento. No dia em que este texto chegar às bancas é bem provável que estes estafermos já nos tenham colocado em pleno processo de lavagem cerebral coletiva e andem a convencer-nos de que a garotada da semana passada mais não foi do que um deslize, um arrufo sem importância, natural e inconsequente. Que esta trupe ainda tenha cara de pau para nos vir exigir sacrifícios, e que alguém lhes ligue peva, é a prova definitiva do povo de brandos costumes que nós somos, mas é também o motivo porque continuaremos a ser desgraçadamente mal governados.  

27.6.14

Quatro dimensões (parte 2)

O Tavares foi indo às apalpadelas para o futuro e descobriu que o universo é matreiro como o diabo. Quando viajas para o futuro sais tipo do teu corpo e estás num universo paralelo ou numa cena marada do género, de maneira que podes ver tudo como se estivesses de fora, bem, podes interagir e assim, mas há dois tus, o tu que está lá e que envelhece até morrer e o tu que viaja. E o que acontece se os dois tus se encontrarem? É uma boa pergunta mas o Tavares não nos soube responder porque não se conseguiu encontrar com o Tavares original. Asseguro-vos que ficamos tão desiludidos quanto vocês por os Tavares não se terem encontrado, mas talvez algo na engrenagem universal impedisse situações com tal poder destrutivo. Enfim, um dia o Tavares chegou em lágrimas e todo fungoso e depois de muita luta acabou por se abrir connosco e contou-nos que tinha estado no seu próprio funeral, uma cerimónia singela, muitos ramos de flores, muito pranto, mas em duas horas tudo estava arrumado, adeus Tavares. O cómico da situação é que ao Tavares tinham feito o enterro sem cadáver, tipo, não havia nada dentro do caixão a não ser renda e pano barato porque parecia que um dia se tinha enfiado em casa e sumido. A notícia da estranha morte futura do Tavares contada por ele próprio abalou-nos a todos um par de horas ou coisa que o valha, mas os desejos de saber mais sobre o futuro eram tão grandes que rapidamente toda a gente passou uma esponja sobre o assunto e decidimos seguir em frente. Demais a mais, ao nosso amigo soltou-se-lhe o medo, quer dizer se te hão de fazer o funeral de qualquer das formas para que estás tu a matutar e hesitas? É aproveitar a vida enquanto podemos e eu e os outros não podíamos estar mais de acordo. Uns dias mais tarde, o nosso amigo veio ter connosco e lançou-nos a bomba que ninguém esperava, meus caros, disse ele solenemente, exorbitei e estive trinta milhões de anos no futuro, e não estive lá um dia ou dois mas muito tempo, e até vos passais se vos contar em que sentido tudo isto vai evoluir. É verdade que a Terra existe há cinco mil milhões de anos e os animais para aí há seiscentos milhões, pelo menos foi a conversa que, tanto quanto me lembro, nos quiseram impingir na aula de ciências e é certo que os dinossáurios nos deixaram para sempre há 65 milhões de anos porque o Tavares esteve lá e assistiu na primeira fila aos acontecimentos, mas os números são tão ões que ninguém está preparado para os pesar com um pouco de senso, de maneira que quando tu pensas em viajar para o futuro, bem, estás a contar com uma viagem de um ou dois séculos quando muito, se estiveres suficientemente passado dos carretos mil anos, mas ninguém se preparou para viajar para o futuro trinta milhões de primaveras. É simplesmente um número grande de mais para caber no nosso cérebro. É uma questão de pura exiguidade de espaço. Portanto, foi perfeitamente normal que durante algum tempo nenhum de nós se tenha atrevido a soltar uma palavra que fosse de tão aturdidos ficamos. O Tavares desfrutou com prazer de cada segundo que passou em que olhava para as nossas caras de palermas a quem tinham acabado de contar a coisa mais estrambólica que era possível imaginar e via-se que aquilo lhe dava, como é natural, um gozo formidável. Se leram esta história até aqui, dou por adquirido que estejam mesmo interessados nisto e que sejam suficientemente curiosos para saber como será o mundo daqui por trinta milhões de anos, pelo que não me vou fazer de rogado nem nada que se pareça e sirvo-vos esta informação em segunda mão, deixando registado desde já que é a melhor que irão ter no vosso tempo de vida. Pois bem, daqui por trinta milhões de anos os humanos são tão parte do passado quanto os dinossáurios são hoje. Na verdade, lamento muito mas extinguimo-nos no século XXI, diga-se que depois de eu morrer sem imaginação nem talento, no seguimento da guerra iniciada pela Coreia do Norte que lançará sem querer uma bomba avariada sobre Seul. É inglório acabar assim bem sei, mas vai ser aquela cambada de patuscos aduladores de líderes que nos vão fazer a folha. O que se segue é uma natural guerra nuclear em que toda a gente sem exceção passou das marcas. No final, tudo terminou quando um cometa do tamanho da Espanha se atravessou no nosso caminho e ninguém teve tempo de dizer ai. Aqui confesso que desconfiei que o Tavares nos estava a enfiar uma patranha ou que tinha sonhado ou coisa parecida porque a história é pobre e um pouco requentada, mas o que veio a seguir acabou por fazer tanto sentido que nos deixamos todos embalar e acreditamos como se fossemos anjinhos. Como sempre, há quem sobreviva ao armagedão. Não sei se já ouviram falar em tardígrados, também conhecidos como ursos d’agua? Não? Vão à net conhecê-los porque são eles que vão passar a mandar. Daqui por 30 milhões de anos só vai haver tardígrados nesta zona do universo e eles não têm nenhum dos nossos defeitos, são módicos na despesa, não são burros nem têm a mania das grandezas, têm dezenas de órgãos dos sentidos inovadores que lhes permitem receber muito mais informação do universo, não têm alma, não avariam, não pecam, não respiram, reproduzem-se com o pensamento, não vão ao facebook, são todos bonitos e elegantes (evoluíram bastante desde que se tornaram dominantes) e, pasme-se, não padecem desse inconveniente de morrer. Aqui benzi-me. Os tardígrados não morrem! Que coisa mais baril… não morrer! Podem esbarrar-se as vezes que quiserem ou levarem, tipo, com tijolos na cabeça, ou coisa que o valha que não há maneira de os liquidar e nem os vírus ou cenas desse género conseguem fazer farinha com eles. Numa palavra, os sacanas são indestrutíveis, o que, convenhamos, é uma vantagem do caraças. Claro que nós, os humanos, se não morrêssemos íamo-nos aborrecer pela certa e tínhamos que arranjar uma solução que nos desse cabo do canastro. Mas os tardígrados são feitos de outra cepa, o que os tornará bestialmente racionais. E como é que eles cabem todos na Terra, pergunta o povo ingénuo? Pois eu respondo com gosto ou, melhor ainda, respondo com as palavras sábias do meu saudoso amigo Tavares, que os viu em ação e com eles conviveu, os tardi são compactos e ocupam pouco espaço, não precisam de vivendas acasteladas como nós e podem facilmente residir num buraco no meio do deserto ou numa cova debaixo de um glaciar, havendo, inclusive, aqueles que se pelam por um nicho dentro de um vulcão, de maneira que um planeta que dê para sete mil milhões de pessoas alberga com facilidade uma mole desses adoráveis seres. Para além disso, como são bastante inteligentes, fizeram naves espaciais boas e puseram-se a viajar por tudo quanto é espaço interestelar, acabando por colonizar incontáveis planetas, como se cada um deles fosse, tipo, um Luke Skywalker ou assim, e quando se fartam de estar num determinado sistema solar, o que é difícil de acontecer uma vez que não são nada esquisitos, mudam de ares, de maneira que jamais se aborrecem. Trata-se de gente mesmo muito à frente, e o Tavares não foi nada meigo a pintar o nosso atraso de vida com as cores negras da tristeza e, pela parte que me toca, digo-vos que subscrevia de bom grado uma petição pública para liquidar os humanos já hoje e arrepiar caminho. O que se segue é que dois dias mais tarde o nosso amigo veio ter connosco com o projeto de se abalançar mil milhões de anos para o futuro e todos ficamos muito excitados com a envergadura da empreitada. Que seria feito dos nossos admiráveis heróis futuristas? Que maravilhas nos seriam reveladas? Despedi-me do meu amigo Tavares com o coração cheio de uma salutar expetativa e vi-o entrar em casa e passados cinco minutos houve o clássico clarão da engenhoca a operar que ainda pude ver através dos vidros das janelas. Nunca mais o vimos, ao Tavares. Hoje, três meses depois do seu desaparecimento, vamos enterrar o seu caixão sem corpo e prometo que estarei atento para ver se o topo no cemitério. Depois conto-vos. 

O genérico final lembra-nos coisas que nunca devemos esquecer, mas tem o inconveniente de só ser compreendido por aqueles que como eu passaram os anos 80 a ouvir boa música!



26.6.14

Quatro dimensões (parte 1)

Há uma história que se conta (ignoro se verdadeira) sobre uma fulana que, há muito tempo atrás, era proprietária de um bar próximo da bolsa em Wall Street chamado Dumbar. O nome era uma homenagem aos clientes que eram todos burros assumidos: eu é que sou burro, vendi; que burro, comprei, etc. De facto, o verdadeiro investidor passa tanto tempo a ser burro que a dada altura corre o risco de deixar de ser humano. Não deixem que isso aconteça!

Mas aparte auto-insultar-se de burro, trader que é trader passa a vida a sonhar com uma máquina do tempo: que máximo seria voltarmos ao início da manhã de ontem e enchermos o saco de ações do BCP!

O texto que se segue, dividido em duas partes, integra-se na agenda cultural desta casa, e relata acontecimentos que se passaram comigo há muito tempo atrás, quando eu era estudante. A verdade é que as máquinas do tempo (tal como a burrice) são perigosas!

Como não queremos que vos falte nada, no final deixamos uma cantiga para compor.


O meu amigo Tavares inventou um sistema e agora consegue viajar no tempo.

Há dias na escola deixou-nos a todos varados com as aventuras estupendas que viveu com um dos seus 32 pentavôs que se dava tu cá tu lá com o Camilo Castelo Branco. Por jeitos, o avô oitocentista do Tavares era gozado à brava pelo Camilo por ter vindo do Brasil tão carregado de ouro, que lhe deu para inchar ao ponto de ninguém o merecer. Mas nunca deu por ela e, como mal sabia ler, tomava as graçolas por elogios e nem lhe passou pela cabeça que se tinha tornado modelo de romance. O Tavares contou-nos a história meia esfarrapada como se a tivesse sonhado, mas o mais baril foi quando nos explicou como fez de servente de mesa no casamento do vovô com uma das suas trinta e duas pentavós, uma mocinha muito pia e envergonhada quase quarenta anos mais nova. A boda foi um acontecimento de tal monta que até fogo-de-artifício meteu e o avô, que tinha subido ao importante posto de comendador, arregimentou as figuras mais importantes da região e empanturrou toda a gente com carne, morcela, vinhão e acepipes. Veio o clero em peso para que tudo fosse feito de maneira regulamentar e também não faltaram capitães da guarda e do exército e condes, viscondes, advogados e juízes. Também alguma ralé para compor. O Camilo era um dos que lá estava a cravar estórias com ar de cusca e, pasme-se, Almeida Garrett. Rimo-nos muito quando o Tavares nos contou como, enquanto passava com a bandeja dos rissóis, perguntou ao Almeida o que lhe tinha dado na cabeça para escrever um livro tão aborrecido como o Viagens na minha terra. E ele? Ele bebericou um tracinho de pinga muito nervinho em franja como se lhe fosse dar o chilique e chamou o meu avô que tratou de me pôr no olho da rua. E eu, ó vô, vô, vozinho sou o seu neto de finais do século XX e tal e ele nada, correu comigo e por pouco não me acertou o passo. Talvez tenha pensado que eu estava na reinação, coitado do avô, o que é certo é que tive de me pôr a bulir para a máquina do tempo, não fosse ele morrer ali mesmo e eu já não vir a nascer. Sim, porque estas coisas das viagens no tempo têm muito que se lhe diga, disso estamos todos perfeitamente conscientes e nem era necessário que o Tavares nos explicasse os riscos tremendos em que incorreu. Tudo somado, é evidente que compensa bastante e eu acho que o meu amigo nem se apercebeu verdadeiramente do enorme tesouro que possui, poder viajar assim, a seu bel-prazer, para a frente e para trás no tempo e verificar in loco tudo aquilo que lemos nos livros ou que vemos nos filmes. De certa forma, o que mais me agradava no dispositivo do Tavares era a total liberdade de nos podermos mover a quatro dimensões, como se esse pequeno extra fosse o tónico que incrementava a qualidade de vida a níveis celestiais. E eu punha-me a refletir sobre toda esta problemática enquanto ouvíamos o Tavares contar-nos como lhe vieram umas ganas enormes de ver o futuro. Repara, tu vais ao passado e, tipo, é deveras fixola constatar como as coisas eram e é sempre surpreendente ver como tudo é diferente do que tinhas imaginado, explica-nos ele, quer dizer estás a ver Jesus Cristo por exemplo, bem Jesus não tinha nada barba, de facto era careca e um bocado anão o que bem vistas as coisas é praticamente inacreditável tendo em linha de conta que se tratava de um judeu, mas tinha um carisma mesmo porreiro e, como não tínhamos mais que fazer, andávamos todos atrás dele e tudo, mas aquela cena com Lázaro, bem, tenho a certeza que vocês até se passavam se percebessem quão marada toda aquela cena tinha sido. E sabem que mais, vejam lá se engolem esta, estão a ver o D. Afonso Henriques em cima do cavalo armado até aos dentes e tão possante quanto um conquistador deve ser? O Tavares esteve em Guimarães no século XII e inteirou-se de toda a história: o nosso primeiro rei era afinal uma dona de casa muito feia e com bigode na venta, chamada Idalina, que enfardava todos os dias do bêbado do marido até que uma altura lhe chegou a mostarda ao nariz e levou tudo à frente. O que se seguiu também levou muita volta, mas está bom de ver que a história peca por falta de estilo e não há país nenhum no mundo que queira nascer dessa forma. Foi em boa hora, portanto, que apareceu toda aquela descendência da sor dona Mumadona Dias a compor o cenário. Mas a máquina do tempo, lá está, nisso não engana… Bem, o que eu quero dizer é que ir ao passado dá um gozo bestial, mas não há nada que se compare a uma boa rusga ao futuro. Em matéria de viagens no tempo, vão por mim, viajar para o futuro tem para aí o triplo do valor de viajar para o passado. E estou a avaliar por baixo! Viajar para o futuro é capaz de ser historicamente a coisa mais espetacular que se pode fazer e é considerada uma arte ao nível, sei lá, da pedra filosofal ou do elixir da eterna juventude ou uma coisa assim desse género de coisas maradas para caraças. O Tavares explicou-nos que ao princípio tinha muito medo de viajar para o futuro porque vamos supor que acabamos numa época em que já estamos mortos, ou coisa que o valha, será que não vamos dar dentro de um caixão ou, sei lá, acabar no interior de um cinerário e transformados em poeira? A verdade é que eu pessoalmente nunca tinha pensado nisso, mas aquilo fez-me cem por cento de sentido e, bem vistas as coisas, é algo que ninguém no seu perfeito juízo deseja. Imaginemos que te metes na máquina do tempo e acabas feito pó dentro de um vaso, como é que voltas atrás? Era cómico imaginar o pó, tipo, a meter-se na maquineta. Bem vistas as coisas, é algo sem pés nem cabeça. Claro que, pesados muito bem os prós e os contras, o Tavares seria um cagarola de todo o tamanho se não fosse experimentando lentamente ir indo para o futuro a ver no que dava e todos na turma, incluindo a professora de Português, o incentivamos a avançar e ele acabou por nos fazer a vontade. Ato contínuo, eu e os outros começamos a tirar quase vinte valores a todas as disciplinas porque o nosso amigo trazia-nos os enunciados do futuro e não havia nada que os professores pudessem fazer porque, afinal de contas, era tudo perfeitamente legal e seria até injusto se nos anulassem as provas só porque o Tavares era nosso amigo. Claro que o Tavares guardava o vinte apenas para ele e enganava-nos de propósito numa ou outra alínea para que não houvesse inflação de vintes. Nisso o nosso amigo sempre foi muito consciencioso e todos concordamos que a tática era boa e não nos convinha agora desatarmos todos a tirar a nota máxima e colocar a escola em sobressalto. A mim, pessoalmente, o que mais me interessava, nem eram as notas altas nem nada disso, o que me deixava verdadeiramente banzado era vislumbrar o futuro antes dele acontecer, tipo como se eu fosse o pentavô do Tavares e pudesse imaginar o tatataraneto quase duzentos anos depois, não só imaginar mas verdadeiramente visualizar e, sei lá, interagir ou assim. A questão era mais subtil ainda, vejam se me conseguem acompanhar, onde é que está armazenado o futuro?, de onde é que ele vem e será que podemos ter acesso a todo o futuro de uma só vez?, todo o futuro de uma só vez, que coisa mais marada! A verdade é que quando nos pomos a pensar nestes assuntos é extremamente fácil chegar a um ponto em que já não dizemos coisa com coisa, como se estivéssemos com os copos e achássemos que éramos super inteligentes ou coisa que o valha. 


4.6.14

Efeméride

Faz hoje 7 anos que me apercebi de que iríamos para Bear Market.

A data ficou para sempre marcada na minha mente porque coincidiu com um dos dias mais felizes da minha vida: o dia em que nasceu a minha filha Laura.

Recordo que, quando eu e a minha mulher demos entrada na maternidade, na manhã de 4 de junho de 2007, tinha em carteira apenas ações da antiga Teixeira Duarte (TDU). Todos os analistas recomendavam a compra da TDU porque, para além de ser uma sólida empresa de construção civil (e o mercado estava hot), tinha ótimas participações financeiras na banca com percentagens relevantes no BCP (que valia bastante mais do que 3 euros por ação) e no BBVA. 

Nessa terça-feira, estava com uma confortável valorização de 10% nessa empresa, no culminar de um Bull Market verdadeiramente entusiasmante de mais de 4 anos. Como é evidente, durante esse dia e nos dias que se seguiram, toda a minha atenção voltou-se para valores muito mais altos e pus completamente de parte o envolvimento que tinha com o trabalho e a Bolsa. 

Recordo que, alguns dias mais tarde, quando voltei às lides, vendi TDU com 5% de desvalorização.

Depois percebi que, desde o início de junho, os investidores assustaram-se com problemas criado por uma inovação americana chamada subprime e havia fundos em dificuldades devido aos pedidos de liquidação em massa. 

Em Agosto, um fundo da Fidelity abriu falência e tudo começou a despencar precipitadamente.


13.5.14

Conversas exemplares 2

Dinheiro e Liberdade



O meu amigo Tavares defende que esta crise em que estamos atolados se deve exclusivamente ao facto de a maior parte de nós ter esquecido para que serve o dinheiro. Exclusivamente parece-me forte, mas o Tavares insiste. O raciocínio dele labora na ideia de que, ao contrário das outras mercadorias, que servem para satisfazer as nossas necessidades ou caprichos, a função mais importante do dinheiro é dar-nos liberdade. E eu, que pensava que o dinheiro servia para comprar as coisas de que necessitamos, dou por mim banzado enquanto o oiço, pois faz-me uma certa impressão essa associação entre numerário e liberdade como se o 25 de abril tivesse alguma coisa a ver com os escudos que cada um tinha na algibeira. 

Mas o meu amigo não desarma e estipula que durante trinta e tal anos perdemos mesmo a noção do que é o dinheiro. Oiço o Tavares e ponho-me a pensar no meu avô e nas histórias que ele me contava de uma época em que as poucas pessoas que iam conseguindo juntar dinheiro ou sabiam rigorosamente o que fazer com ele ou, então, o curso normal dos acontecimentos encarregava-se de que deixassem de o ter em três tempos. E a verdade é que tanto quanto me lembro dessas histórias, a diferença entre ter ou não ter dinheiro nunca esteve em ser feliz ou infeliz, mas em garantir que se era livre, não no sentido que se dá agora de se poder dizer ou fazer o que nos der na real gana, mas antes num contexto mais realista e racional de não depender de nada nem de ninguém. E à medida que vou recordando essas histórias do meu avô, que saudades, volta-me essa sensação de imaginar como é difícil a vida, cheia de riscos e de sacrifícios, por causa do dinheiro que devemos tratar com respeito e parcimónia (mas nunca com subserviência) para que chegue o dia em que, de certa forma, nos torne livres. De maneira que, a dada altura, dou de barato que foi, de facto, esse conhecimento que se perdeu em pouquíssimo tempo que nos minou a liberdade que julgáramos ter conquistado com uma revolução e cravos ao peito. 

Mas até aqui talvez já toda a gente tenha chegado e eu por último. 

O Tavares, que é meu amigo, encarrega-se de me instruir com exemplos concretos. Um supor que te põem no olho da rua e ficas sem salário, qual é o problema se tens dinheiro para suprir às tuas necessidades? E mesmo que tenhas pouco dinheiro, qual é o problema se souberes como o multiplicar e não tiveres medo de o fazer? 

Mas a mim, enfarinhado como estou numa lógica de consumo, volta-me uma certa impressão de que, afinal de contas, isto não pode ser ao mesmo tempo tão simples, tão complicado e tão fora de moda. Não foi à toa que toda essa arte da poupança e do investimento se desvaneceu e julgávamos esquecida para sempre, porque não é com ordenados mínimos que te vai valer a pena poupar para prevenir o que quer que seja, de maneira que a solução óbvia está em estourar o guito todo de uma vez e pelo menos contribuir para que alguém venda mais e possa haver mais emprego. Isto parece-me de uma racionalidade muito saudável e a toda a prova. Ainda por cima, ao encher a casa de trastes e ao atualizares ritmadamente a quota que te cabe de gadgets inúteis vais assegurando a tua dose diária de felicidade instantânea, ao mesmo tempo que evitas ter o dinheiro parado no banco, ao serviço de um punhado de indivíduos pouco recomendáveis que se serve dele para fazer investimentos super lucrativos. 

Vendo que vacilo, o bom do Tavares muda de tática e envereda por um percurso histórico. Com o fim da escassez, conta ele, depois da revolução industrial, houve necessidade de criar uma dinâmica de consumo que permitisse rentabilizar o excesso de produção, ao mesmo tempo que mantinha ocupada a massa trabalhadora que de outra forma se tornaria supérflua com o surto da maquinaria. Veio, assim, aquilo que designamos por consumismo: a arte de tornar indispensável o que nunca nos fez falta, mas que alguém se predispôs a produzir e é necessário escoar. Não foi uma coisa pensada, como é óbvio, embora há mais de duzentos anos já fosse evidente que a oferta cria a sua própria procura. Com o passar do tempo, que é o escultor das sociedades, viemos ter a esta época em que ou tu te tornas fugral e usas o dinheiro para investir e tentar ficar livre ou trocas o dinheiro por mercadoria que não falta mas que acabará por te acorrentar e dar cabo do canastro. O mal da primeira opção é que dá muito mais chatices e menos alegria instantânea, sendo totalmente desadequada a exibicionistas. 

Agora é fácil falar, mas houve gente que ao longo de mais de trinta anos andou a poupar e a investir as poupanças para nos financiar o consumo. Para fim de conversa com o Tavares, reconheço que, ao não saber lidar com o dinheiro, nos pusemos coletivamente do lado dos que não são livres.

2.5.14

Conversas exemplares


O meu amigo Américo é um ás da bolsa. Há tempos trazia em carteira cem barris de petróleo bruto, títulos de propriedades no extremo oriente, mil alqueires de trigo, um sortido de ações do PSI20 e ainda estava curto no par iene/dólar. Passado uns dias já se tinha virado para os metais, para a biotecnologia e para a dívida pública portuguesa. Para o Américo todos os movimentos de compra e venda obedecem sempre a uma ponderação racional/emocional que se enquadra em requisitos pré-estabelecidos. Há duas grandes forças que movem o ser humano, estipula ele entre duas goladas de cerveja, são elas o medo e a ganância. Nos mercados financeiros, tu não queres saber da utilidade dos produtos que compras, nem te interessa se eles estão caros ou baratos, nem dos afazeres dos produtores ou dos desejos dos consumidores. Também te estás a marimbar para as canseiras, para o suor, para os problemas e os conflitos dos indivíduos, embora te interessem, obviamente, todos os acontecimentos geradores de incerteza. No final, a única coisa que conta é se vendes mais caro do que compraste. Se não tens e o preço sobe ataca a ganância e ficas a salivar, se tens e o preço desce acagaças-te todo e começas a ficar com suores frios. Na maior parte das vezes olhas para o espelho e viras-te para ti próprio e dizes, bolas, meu caro, és um burro do caraças, não tens e devias ter comprado, ficaste com aquilo e devias ter entregue a outro mais burro que tu, compraste bem, mas devias ter comprado mais, vendeste, mas foi demasiado tarde e, assim por diante, até ao dia em que já não te importas com o teu ar de jerico. Mas a lição não se fica por aqui e o meu amigo, embalado como está, tem mais com que nos instruir. Nos mercados não é importante que acertes sempre, nem sequer que acertes a maior parte das vezes. No mercado, o mais importante é identificar o erro e eliminá-lo rapidamente. O erro deve-se, na maior parte das vezes, à tremenda inconstância do ser humano, mas também à imparável sucessão dos acontecimentos. E o mercado está tão inquinado de erros que o que agora é ótimo daqui por cinco minutos vira para péssimo. Na prática, nunca é tarde para comprar se a tendência for ascendente, mas, se vires o caso mal parado, põe-te a milhas e preserva o capital. E continuou neste estilo sentencial até que se nos acabaram os tremoços. Nisto, o Américo é muito diferente do meu outro amigo que joga na bolsa. O Aníbal está sempre certo, mesmo que à primeira vista não pareça. Nos mercados, a minha postura é a seguinte, diz-me ele, compro o que acho que vai subir e se a coisa der para torto e começar a descer aguento firme, pois tu só perdes dinheiro no dia em que vendes mais barato do que compraste. No limite, o que posso fazer é comprar mais para baixar o preço médio e, enquanto tiver dinheiro, vou comprando por aí abaixo. Esta solução tem o defeito de se tornar inevitável que acabes por te entalar e já sucedeu ficar com o graveto empatado uns bons pares de anos à espera que o mercado acabasse por reconhecer como eu tinha razão. A verdade, acaba por assumir o bom do Aníbal, é que neste momento tenho um lote de papéis do BCP que ou uso para forrar paredes ou deixo de herança aos bisnetos. E, bem vês, isto não mata, mas dá-nos um bocado cabo das noites. Na minha ideia, esta postura faz do Aníbal um verdadeiro investidor, ao passo que o outro será mais um especulador do estilo capitalista americano. Das diferentes táticas dos meus dois amigos, eu que de negócios nada percebo, e me enquadro com orgulho na imensa massa trabalhadora que goza com justeza o feriado do primeiro de maio, diria que ilustram uma parte do dilema que nos é colocado pelo funcionamento do nosso cérebro. E isto, pelo menos por hoje, é o que me interessa verdadeiramente. Nós estamos sempre a trabalhar para acertar a maior parte das vezes e sentimos uma grande desilusão quando falhamos. Fazem-nos crer que nunca devemos ter apenas opiniões, mas antes convicções sólidas como aço, inabaláveis e completamente à prova de influências externas e quem hoje diz uma coisa e amanhã muda de opinião ou é cata-vento ou vigarista. Formataram-nos a partir do interior para achar que sobre todos os assuntos há uma palavra justa a ser dita, em todos os trabalhos há uma forma certa de proceder e que, embora a perfeição seja inatingível, com suor e talento chegaremos ao ponto em que só falhamos por exceção. Nesse sentido, estamos sempre em crer que assumir erros é sinal de fraqueza e desfazer o que julgávamos bem feito resulta de desnorte. Mas o verdadeiro drama é que o meu amigo que não hesita em se considerar equivocado corre tanto risco de se enganar como o outro que nunca dá o braço a torcer. Claro que a realidade aumentada dos mercados de capitais, de que os meus amigos são especialistas, com o seu brutal sobe e desce e tremenda arbitrariedade, não se aplica linearmente à nossa vida do dia a dia. Felizmente, digo eu. Mas cada vez mais o nosso lado racional se confunde com o emocional num conjunto de micro decisões que acabam por afetar de forma muito notória a nossa qualidade de vida individual. E, usando linguagem de comentador, eu não tenho a certeza se isto é conjuntural ou estrutural. 

29.4.14

Uma espada de Dâmocles?

De acordo com a lenda, Dionísio de Siracusa cedeu temporariamente o seu lugar à frente dos destinos da sua cidade a Dâmocles, mas pendeu sobre o trono uma espada. Dâmocles já não disfrutou como pretendia a sensação de poder absoluto e de luxo sem limites à disposição. Mas devia, já que as espadas de Dâmocles raramente caem, como aconteceu a Luís XVI, arrancando-lhe a cabeça, ou ao nosso D. Carlos.
Sobre os mercados pairam também espadas de Dâmocles. Quando caem, e a última vez foi aquando da falência do Lehman Brothers, o resultado é catastrófico para os mercados. Nos últimos anos a Reserva Federal Americana e o BCE têm feito tudo para afastar para bem longe essas espadas, e o resultado dos seus esforços foram os astronómicos ganhos de 2013. A recuperação económica generalizada no Ocidente antevia um ano de 2014 igualmente luminoso, mas eis que chegou Putin e colocou tudo em causa.
Neste momento ninguém acredita que alguém seja o suficientemente estúpido para que, em pleno século XXI, dê o passo em falso que desencadeie uma crise tão grave no centro da Europa que faça cair mais uma vez uma espada de Dâmocles. Mas ela já lá está.

Há que estar atento e… bons negócios.