8.5.14

BCP a virar

É evidente que o aspeto técnico do BCP virou para o feiote, embora estejamos justamente sobre a Lta que assinalei no gráfico que ontem postamos. A conferir...

Entretanto, saiu a confirmação de algo que já se sabia e tem que ver com a saída do Barclays do retalho no nosso país. A notícia não apanhou ninguém de surpresa, porque, como disse já era conhecida, assim como é conhecida a intenção de o BBVA também ir embora. A novidade foi esta afirmação do presidente do Barclays (cito do site do Jornal de Negócios):

“Identificámos algumas áreas de negócio que deixaram de ser estrategicamente atractivas para nós neste novo ambiente operacional e que serão descontinuadas ou que vamos abandonar ao longo do tempo. Estas actividades serão agrupadas na divisão ‘Barclays Non-Core’”

Coloquei a vermelho a parte que me parece importante.

Estava-se à espera de alguma consolidação na banca portuguesa e, por isso, havia uma certa expetativa, pelo menos entre os mais leigos, sobre quem compraria as operações dos bancos que queriam sair. Mas agora o Barclays diz que nem vai tentar vender. Em vez disso, vai, pura e simplesmente, fechar a loja e abalar.

Eu nem sei os pormenores e sou capaz de estar a ver a coisa pela rama, mas a mim isto é tão má notícia quanto uma má notícia pode ser. Se o negócio fosse bom, havia de valer alguma coisa e algum comprador haveria de aparecer. Deitar fora, é porque não vale nenhum!

É evidente que a saída do Barclays pode dar para tirar uma outra conclusão: é menos um concorrente e mais clientes e recursos para os que ficam. Desta forma, a notícia já fica menos escura e ganha umas cores mais vistosas.

Seja como for, prefiro a análise técnica. Lá acabei, pois, por comprar o lote que queria desde a apresentação dos resultados, porque houve uma boa alma, que não tem por hábito vir a este nosso cantinho e, por certo, não viu o nosso gráfico de ontem, onde se assinalava uma Lta por volta dos 0,2120.

Vamos, portanto, ver calmamente se a coisa arrebita ou volta para baixo.

7.5.14

O que devo saber antes de Negociar em Bolsa.

Facto nº 19

Cuidado com as percentagens:
- Uma perda de 10% implica um ganho posterior de 11,1% para voltar ao valor inicial;
- Perdidos 50%, há que ganhar 100% para regressar ao ponto de partida;
- E se despencas 90%, vais ter de multiplicar por 10 (900%) para voltar ao patamar de que partiste.
Voltamos ao BCP, que hoje caiu mais de 3%, depois de anteontem ter apresentado uns resultados considerados por todos como muito vistosos.

Este comportamento é a Bolsa no seu melhor! 

Embora, como é evidente, ninguém goste de perder dinheiro e toda a gente esteja a negociar não por causa da beleza da coisa, mas para fazer os melhores negócios possíveis, é justo reconhecer que esta natureza tricky dos mercados é o condimento que fazem do trading uma atividade interessante. 

Claro que o interesse se acaba quando estamos a levar sistematicamente pancada, sem que tenhamos a percepção do que estamos a fazer de errado. O problema é que muitas vezes até nem estamos a fazer nada de verdadeiramente errado. Simplesmente, a dinâmica do mercado vai à nossa frente e nós só vemos o pau depois de termos levado com ele.

Anteontem, estávamos todos a achar os resultados magníficos e que a subida era quase certa. Entretanto, já todos interiorizamos que os resultados diziam respeito ao passado e arranjamos um sem número de argumentos que acabam por justificar todas as quedas do mundo! O tal sell the news. Se inverter, haveremos de arranjar uma estória de sucesso para ir a máximos; se continuar a cair...

Talvez os gráficos possam dar alguma pista.

Hoje parece que a ida a máximos vai ter de esperar (veremos amanhã!).

Se se confirmar o sentido descendente (o que, atendendo ao que se tem passado ultimamente, parece estar bastante relacionado com o fecho do dia mais logo nos EUA), diria que um primeiro amparo pode surgir na Lta por volta dos 0,212. Abaixo disso, há os 0,20, mais por ser um número redondo, e, com consistência, a zona dos 0,190-0,196. Daí para baixo... FUJAM!



Na Ucrânia continua o jogo de xadrez. Os russos já não têm dúvidas de que os ucranianos, se tal fosse possível, estariam vendedores de todo o leste do país. Mas tal ainda está longe de ser uma possibilidade, não só por um enorme conjunto de trâmites legais, mas também pelas tensões que iria criar nas populações (muitos, no leste, são verdadeiros ucranianos que ficariam sem pátria), mas, fundamentalmente, porque a comunidade internacional não pode autorizar um precedente tão clamoroso.

Para além disso, interessa aos russos prolongar o caos e aumentar a pilha de mortos. Quanto mais tempo a situação se prolongar e maior for o caos, mais baixo será o preço a pagar pela conquista de tanto território. E ninguém está interessado em pagar bem a um inimigo que depois pode usar esses recursos contra nós. Putin leu Maquiavel e aprendeu a lição! 



6.5.14

Nesta altura do campeonato, tenho a certeza de que aqueles que nos vão seguindo aqui no Negociarembolsa já devem ter tirado de mente a ideia de que vão ganhar uma pipa de massa nos mercados sem trabalho, canseiras ou chatices. Uma das três terão de certeza e o mais provável é que vos toque a dose por inteiro, como é costume acontecer.

Olhando para a subida estrondosa do BCP desde que "irrevogável" perdeu o significado que os nossos avós lhe deram, isto é, grossomodo desde meados de 2013, é natural que fiquemos a salivar e achemos que éramos super felizes se tivéssemos tirado as economias do escanzelado depósito a prazo onde estão enfiadas e as botássemos para correr naquele belo cavalinho. Triplicar o pilim que tanto custou a arrecadar é um tónico que alegra qualquer alma e deixa a mesa mais farta e apetitosa.

Claro que agora, olhando para trás, a coisa parecia evidente: afinal de contas, o BCP a 7 cêntimos era mesmo módico, olhando para os 22 a que hoje cota. Mas, na altura, a música era outra: afinal de contas, uma queda de 7 para 5 leva-nos a mesma percentagem da carteira que uma queda de 22 para 15 (não sei se me entendem!). E não era nada claro se o caminho não seria mesmo para baixo! No fundo, estamos sempre nessa decisão: é possível que daqui por um ano o BCP esteja nos 60 cêntimos (o triplo de hoje). Quem arrisca, baseado nessa expetativa?!

Mas eu nem queria falar especificamente no BCP. 

O caso do dia nos mercados internacionais é mais uma vez o Twitter. Ao contrário do que se passou com o Facebook que despencou mais de 50% no seu primeiro ano em Bolsa, vindo depois a recuperar para estar agora a lucrar outros 50%, o Twitter estreou na Bolsa americana a 26 dólares no início de novembro do ano passado, tendo atingido quase o triplo ($74,76) em dezembro. Desde ai é que a coisa já não correu tão bem, tendo a descida sido feita em marcha acelerada. Desde que apresentou os resultados do trimestre (que tivemos oportunidade de comentar em post anterior) tem sido uma autêntica chacina com sangue de touro a esparramar por todo o lado. Um terror. Hoje despenca uns chocantes 15%. 

Quem acha que as redes sociais vão ser o negócio do futuro vai ter que fazer as contas de novo. É que, mais uma vez, quando se acha que um negócio vai ser magnífico, vende-se caro logo à partida e esse é o problema. As ações do Twitter estão tão caras que, embora o negócio seja engraçado e desperte natural interesse, é necessário crescer muito e depressa para corresponder às expetativas. Se isso não acontecer, e o povo der conta, diacho, vai ser como com o gato do tweety que cai com tal bolina que... acaba por furar o chão!


Buy the rumor, sell the news

Tal como previsto, o BCP abriu em alta a refletir os bons resultados apresentados ontem.

Entretanto, porém, tem vindo a esmorecer e a colocar dúvidas a muitos investidores acerca da sustentabilidade da subida. 

Como é evidente, ignoro como decorrerá a negociação até final da sessão, mas nada há de novo neste comportamento do título. 

É óbvio que os resultados foram bons (ainda que uma leitura mais fina possa por a nu uma ou outra insuficiência, que os analistas se encarregarão de apontar), e há uma clara melhoria em relação aos trimestres anteriores que parece apontar para um regresso da banca aos lucros e aos dividendos a médio prazo. 

Mas essa melhoria já tinha sido antecipada pelos mercados ao longo dos últimos meses, e teve por consequência a subida da cotação da ação para o triplo em menos de um ano. 

Neste momento o que interessa, portanto, é novamente o futuro. Será que os resultados vão continuar a melhorar de forma consistente ou haverá novas nuvens no horizonte. Hoje, por exemplo, saíram os números das vendas a retalho na UE e foi em Portugal que elas mais caíram (estará a recuperação económica a arrefecer?). Por outro lado, o BCP beneficiou de fortes ganhos com a dívida pública portuguesa, mas esses ganhos não se vão repetir no futuro! E assim por diante!

Como vêem há sempre dúvidas que vão surgindo, que acabam por temperar as expetativas geradas, e jamais existem certezas. É por esse motivo que sempre haverá vendedores e compradores, Bulls e Bears, e um preço de equilíbrio em que os dois lados chegam a acordo num dado instante.

Há uma velha máxima bolsista que explica o comportamento de  um título que reage de forma surpreendentemente frouxa quando as notícias são boas: buy the rumor, sell the news (compra o rumor, vende a notícia). 

No fundo, quando a boa notícia sai, deixa de haver expetativa de sair a boa notícia, e aqueles que compram com base na expetativa deixam de ter motivo para continua investidos e vendem!

Por isso, se estiverem à espera de boas notícias para entrar na Bolsa, é bastante provável que venham a ficar desiludidos, a não ser que comprem o rumor!

5.5.14


ANÁLISE

Já agora, deixamos o gráfico do BCP que, diga-se, continua com excelente aspeto.

O título corrigiu, mas nunca cotou abaixo da EMA50. Agora está acima das EMA principais (que consideramos ser indicadores muito simples, mas bastante fiáveis), o MACD deu sinal de compra e o RSI está em valores muito confortáveis. O volume é que tem estado anémico, mas amanhã chega um carregamento de vitaminas que vai embelezar ainda mais o gráfico.


Colocamos duas linhas a vermelho mais lá para cima: a primeira a 0,255 corresponde ao fecho de um gap que remonta a meados de 2011 e a segunda um pouco mais acima onde nos parece existir uma ligeira resistência na casa dos 0,265. 


Como vêem estamos otimistas em relação a uma subida engraçada. Só espero que não seja já amanhã para dar tempo de ver se arranjamos alguma alma caridosa que nos venda um lote a bom preço. É que o cagaço hoje tolheu-nos o juízo (exceto ao Fernando que se foi a elas e fez bem) e acabamos por ficar a ver a banda passar. Resultado, estamos de carteira vazia e à espera de abastecer. Má onda, diacho!




Não se preocupem que um dia destes fazemos um post nesta casa sobre noções básicas de análise técnica, em que vos explicaremos o que são EMA, MACD ou o RSI e vos vamos dar mais indicações com muita piada. Só para iniciados, como é evidente!

Para já, deixem que vos diga que a análise técnica de gráficos em Bolsa funciona principalmente porque muitos investidores analisam os gráficos e tomam decisões com base neles. E se os profissionais o fazem, quem somos nós, reles aprendizes, para por em causa a validade da coisa.  

COMENTÁRIO


O BCP acaba de apresentar os seus resultados do 1º trimestre do ano.

Em termos de resultado líquido tivemos um prejuízo de 41 milhões de euros (152 milhões de prejuízo há um ano), o que compara com as previsões dos analistas:


BPI -64 milhões (reviu no final de março o price target de 24 para 30 cêntimos);
Nomura -59 milhões;
CaixaBI -57,8 milhões.
Variação trimestral em cadeia: +71,3%

Variação homóloga: +73,0%


Quanto a outros indicadores, temos:


- Produto bancário a subir 23%
- Margem Financeira a crescer 32%;
- Crédito em Risco a descer de 13,8% para 11,7%;

- Custos Operacionais / produto Bancário a cair de 70,9% para 55,1% (excelente!);
- Venda de 544 imóveis no trimestre (menos 9% que no trimestre homólogo de 2013) por um valor 29,3% mais alto (53 milhões de euros);
- Racio Core Tier I da EBA da aumentar de 9,6% para 11%.


Por outro lado, o Banco propõe-se reembolsar o estado em 400 milhões de euros (dos 3000 com que foi ajudado) tão breve quanto possível, o que vai permitir reduzir os respetivos juros.

À primeira vista, não tenho dúvidas absolutamente nenhumas de que se trata de ótimos resultados e uma agradável surpresa! 

Creio mesmo que, mais do que toda a conversa sobre melhoria da economia que temos ouvido nos últimos tempos, são estes resultados de um banco de referência que melhor demonstram como estamos no bom caminho em termos de recuperação económica e, a prazo, financeira.

Onde já sou capaz de ter mais dúvidas é no comportamento da ação amanhã em bolsa. É que o banco já subiu para cima de 200 % (triplicou!) em menos de um ano. E desde a apresentação de resultados do ano 2013, quando Nuno Amado anunciou que iria apresentar lucros no exercício de 2014, a subida vai em quase 40%. Creio que estes resultados vêm explicar porque subiu tanto, de maneira que pode haver alguma hesitação amanhã por já estarem descontados na cotação.

Agora é olhar para o futuro. E aqui penso que a conferência de imprensa trouxe alguns dados adicionais relativamente ao pagamento dos cocos e houve alguma pressão para que o Governo conceda o deferimento fiscal. Por outro lado, tornou-se mais evidente que haverá lucros este ano (aliás, já os haveria neste momento se não tivessem existido impactos negativos extraordinários).


Somando tudo, e atendendo até ao aspeto técnico do título, e às revisões em alta dos price targets que se vão seguir, diria que teremos máximos do ano em breve! 

4.5.14

O que devo saber antes de Negociar em Bolsa.

Facto nº 1:

Na bolsa negoceiam-se, em tempo real, títulos que têm por base variadíssimos ativos, sendo o preço ditado exclusivamente pela Lei da Oferta e da Procura.

Facto nº 2:

Os títulos negociados podem ser participações em empresas (ações), cabazes de ações (fundos, ETF's, etc.), direitos sobre empréstimos (obrigações), mercadorias (metais, petróleo, gás, cereais, etc.), ou derivados, como warrants, opções, CFD's, etc.

Facto nº 3:

Os produtos que se compram na Bolsa não têm qualquer utilidade para o comprador (mesmo que se tratem de mercadorias). Em vez disso, quem compra espera que, no futuro, possa vender os produtos mais caros, realizando uma mais-valia. Daí tratar-se de investimento.

Facto nº 4:

Na Bolsa há permanentemente compradores e vendedores: quando alguém compra, alguém vende e vice-versa. Tal como acontece na Natureza com a matéria e a energia, nada se cria, nada se destrói, tudo se... troca. Quem compra acha que o preço vai subir e vai poder vender mais caro; quem vende, acredita que o preço descerá, e poderá vir a comprar mais barato.

Facto nº 5:

Quem estiver na Bolsa a jogar ou a fazer apostas está no sítio errado. Seria a mesma coisa que jogar com a compra de uma casa ou de barras de ouro. Compramos ou vendemos porque temos uma certa expetativa, mediante a informação de que dispomos e as condições do mercado.

Facto nº 6:

Na Bolsa confrontam-se em permanência dois dos sentimentos mais primitivos do ser-humano: o medo e a ganância. Por vezes, o medo torna-se extremo e irracional e ocorre um crash; noutras alturas, a ganância exorbita e surge uma bolha especulativa. Na maior parte do tempo, o sucesso depende de sabermos dosear na justa medida esses dois ingredientes do nosso comportamento.

Facto nº 7:

Para Negociar em Bolsa não é necessário nenhum conhecimento especial, não temos que tirar um curso superior, não faz falta ser genial, ser musculado, bonito, ou talentoso. Também não temos que ser ricos. Tudo o que precisamos é de uma conta bancária com saldo positivo e uma ligação à net.

Facto nº 8:

A Bolsa é um negócio: compras e vendes. Às vezes as coisas correm de feição e tudo se passa como previmos; outras vezes nem tanto e rapidamente percebemos que fizemos asneira. No primeiro caso é um regalo; no segundo fizemos um galo. Tudo normal. No dia seguinte a Bolsa volta a funcionar!

Facto nº 9:

Abstém-te de Negociar em Bolsa se não estiveres preparado para perder dinheiro. Mas se fores artolas ao ponto de te dares ao luxo de perder mais de 20% do capital de que dispões, opta antes pelo casino, pelas apostas desportivas ou por um esquema Ponzi. Sempre dá menos trabalho e ao menos escafedes de uma só vez.

Facto nº 10:

Estamos sempre à espera de só haver boas notícias para comprar, ou então que o caldo esteja entornado de todo para ser certo que devemos vender. Mas isso nunca acontece. Na Bolsa, como na vida, nunca tudo é bom e jamais tudo será mau. No final, haverá tantos motivos válidos para comprar como para vender. É por isso que nunca faltarão compradores nem vendedores.

Facto nº 11:

O mercado segue tendências. Há períodos de tempo em que a tendência predominante é de subida, a que se seguem outras épocas em que enfrentamos uma tendência clara de queda. E, assim, sucessivamente, antecipando sempre os ciclos económicos. Na maior parte das vezes, torna-se relativamente fácil ganhar dinheiro na Bolsa, seguindo apenas a tendência.

Facto nº 12:

Os americanos, que com estas coisas dos mercados não costumam brincar, batizaram as tendências com duas designações que todo o investidor conhece desde o berço: à tendência altista chamaram BULL market, enquanto que a tendência baixista corresponde a um BEAR market.


Facto nº 13:

O touro simboliza um mercado que sobe porque, como todo o forcado sabe, aparte de se tratar de um animal um tanto ou quanto vesgo e destituído de tino, tem o hábito de atacar de baixo para cima, levantando tudo pelo ar. Já do urso diz-se que adquiriu o insensato costume de levantar as patas dianteiras antes de as fazer desabar sobre as suas vítimas, nocauteando-as sem que tirem o pé do chão.

Facto nº 14:

Por isso, já sabem, se acreditarem que o mercado vai subir e, consequentemente, estiverem compradores então, na gíria bolsista, estarão BULLISH; se, por outro lado, o cagaço vos inquinou e acham que a coisa vai para baixo, então, diremos que estão a passar pela chamada fase BEARISH. No fundo, é como se a bolsa fosse um misto de praça de toiros e coliseu romano na época áurea. Ou uma selva. Sintam-se a vontade para escolher!

Facto nº 15:

O problema na Bolsa não é comprar! Comprar é fácil: entram no site do vosso banco, selecionam o produto da vossa eleição, dizem quanto querem investir, e são dois cliques (um para dizer que sim e outro para dizer que sim outra vez, para que não restem dúvidas). Em menos de 2 segundos, tornam-se nos orgulhosos proprietários de um lote de coisas que não servem para nada nem têm qualquer suporte físico. No fundo, compram uma dor de barriga e uma aceleradelas boas no músculo cardíaco. 

O verdadeiro problema é vender. Quando devo vender? Se subir e ganhar uns cobres vendo logo ou torno-me ganancioso? E se vender e elas continuarem a subir?! Se descer, aguento firme ou vendo a perder? E se aguentar o tranco e o meu lote continuar a desvalorizar, que faço? E se a coisa chegar ao ponto de estar a perder tipo o dinheiro das férias ou vários ordenados, quem vou eu culpar? E se começar a acordar ao meio da noite com suores frios e a delirar com notas de euro a arder numa pira fumegante? E se, finalmente, decidir assumir a perda e entregar o lote de cangalhos a outro que cuide dele... e, de repente, aquela m*r*a começar a subir,... e subir,... e subir, sem parar?!

Tramado, não é?!

É bom saber que é assim antes de nos mandarmos de cabeça. É que há quem, pura e simplesmente, não esteja para aturar este tipo de biscate. Afinal de contas, o dinheiro não paga tudo!

Facto nº 16:

A Bolsa é um jogo de soma positiva. 

Em jogos como o poker ou o blackjack, nas apostas desportivas ou em outros jogos de sorte ou azar, na maior parte dos casos não há criação de riqueza: o que um ganha resultou das perdas de outros subtraído da comissão da casa. Excetuam-se, por exemplo, os jogos de poker em que há transmissões televisivas que pagam direitos, mas, na maior parte dos casos, estamos em presença de jogos de soma nula.

Na Bolsa para que alguém ganhe não é necessário que outros percam, porque há efetiva criação de riqueza. Quando compramos ações de uma dada empresa, por exemplo, estamos a depositar confiança no trabalho dos funcionários dessa empresa: acreditamos que os produtos que vão produzir terão sucesso e vão ser vendidos de uma forma que gerará riqueza que será traduzida em lucros.

Embora possam existir ineficiência de curto/médio prazo (que geram ótimas oportunidades de investimento) no longo prazo as cotações das empresas sobem de uma forma que acompanha a geração de riqueza por parte da empresa (e, como é evidente, descem se a empresa estiver a destruir riqueza).

É por este motivo que a Bolsa, mais do que um jogo, se considera um investimento. No fundo, a tarefa do trader não é fazer uma aposta, mas antes identificar as empresas que poderão gerar mais riqueza no futuro.

Facto nº 17:

Mas, afinal de contas, por que motivo é que as pessoas compram ações e estas valorizam ou desvalorizam?

A resposta é muito simples: porque aos tornarmo-nos acionistas de uma empresa temos direito a uma percentagem do lucro dessa empresa sob a forma de dividendos.

Imaginem a empresa Negociarembolsa que tem um negócio que gera lucros de 1€ por cada ação. Se possuírem uma ação dessa empresa têm direito a receber esse dividendo todos os anos e, ainda por cima, podem vender a ação quando quiserem, transformando esse bem em liquidez (dinheiro vivo). Quanto valeria para vós essa ação? Cinco euros? Dez euros? Pois bem, o valor da ação em Bolsa é aquilo que o mercado, constituído por todas as pessoas e entidades que, por um motivo ou outro têm interesse na empresa, acha que a ação efetivamente vale.

No fundo, investir na Bolsa é como comprar um apartamento para alugar e receber uma renda (claro que as semelhanças se esgotam na ligação dividendo/renda; tudo o resto são diferença de que falaremos mais tarde).

Agora imaginem que o negócio da Negociarembolsa vai de vento em popa e existe a expetativa de que os dividendos possam subir para 2€ no próximo ano. O que acham que vai acontecer à cotação das ações. É isso, adivinharam: vai subir!

Facto nº 18

Buy high, sell higher.

Ao contrário do que se passa nas situações do dia-a-dia, em que o ideal é sempre comprar barato e vender caro, na Bolsa essa perceção pode ser alterada.

Devido à persistência das tendências de valorização ou desvalorização das ações, nem sempre comprar ações mais baratas é mais seguro do que comprar ações mais caras.


Tomemos por exemplo o caso do banco BCP na bolsa portuguesa. Há pouco mais de dois anos atrás cotava a 12 cêntimos por ação, mas vinha numa tendência descendente que tinha tirado 70% ao valor das ações em cerca de um ano. Num ano, o banco tornara-se 70% mais barato o que parecia indiciar que seria uma pechincha. Mas, em Bolsa, há sempre motivos para tamanha tendência descendente que tornam um trade desse tipo bastante arriscado. Entretanto, o BCP viria a cair outros tristonhos 60% até aos 5 cêntimos! Até que, no final de novembro de 2013 deu finalmente sinal de compra, ao quebrar para cima os 12 cêntimos, colocando-se no caminho ascendente. Entre os 5 e os doze cêntimos subiu 140% (o que é uma valorização magnífica), mas o risco de um trade negativo era substancialmente superior a uma compra a um valor acima dos 0,12€. E, afinal de contas, com o banco atualmente nos 0,22€, uma valorização de 83% em 5 meses, não se pode dizer que tivesse sido mau!   
Os gráficos e as tomadas de decisão em Bolsa


No post anterior, vimos como a análise do gráfico do comportamento de uma ação numa sequência recente de dias, no caso concreto do Banco Espírito Santo (BES), podia fazer despoletar aquilo que designaríamos por um sinal de compra para um trade (pelo menos) de curto prazo na referida ação.

Sobre análise técnica de gráficos falaremos com mais desenvolvimento lá mais para a frente, mas, de momento, diríamos apenas que, desde a década de oitenta do século passado, a maior parte dos traders passou a considerar a análise técnica como uma ferramenta privilegiada na tomada de decisões em detrimento, por exemplo, da análise fundamental em que se avalia o real valor contabilístico das empresas em função de diversos parâmetros como os resultados que apresenta, a dívida que tem ou as perspetivas de crescimento do negócio. 

Claro que os mercados não param e, embora estejam  fechados ao fim-de-semana, evidentemente continuam a passar-se coisas no mundo que influenciam permanentemente as cotações dos mais diversos títulos e mercadorias. Desde o fecho de sexta-feira, por exemplo, a Ucrânia ficou mais perto da guerra civil, Portugal deve anunciar uma saída limpa do programa de ajustamento (ficaremos a saber daqui a pouco se haverá surpresas), os juros da dívida pública desceram um pouco mais e os mercados americanos acabaram a semana em queda. Entretanto, teremos a negociação no Japão e nas restantes bolsas do oriente durante a nossa madrugada de segunda-feira e a saída de números económicos importantes na China (como o índice de compras da empresas). Estas e outras notícias são incorporadas pelos mais diversos atores dos mercados e quando a Europa abrir amanhã todo o sentimento pode estar de pernas para o ar. 

No limite, podemos ter o sinal de compra no gráfico do BES transformado imediatamente num sinal de venda.

Ao Negociar em Bolsa temos que, acima de tudo, ter a mente aberta e identificar quando erramos. E, se tal acontecer, agir em conformidade e fechar a posição. Esta é a verdadeira dificuldade do trading: por defeito, nós não estamos nada formatados para assumir erros e muito menos conseguimos fazê-lo com a rapidez e lucidez necessária. Na Bolsa há uma máxima que devemos ter sempre presente: na dúvida, preserva-se o capital!

Por outro lado, há uma dificuldade muito grande em perceber se houve erro da nossa parte ou se estamos a assistir a um movimento natural (ainda que mais exacerbado) do mercado. 

Voltando ao gráfico do BES, por exemplo. Um dos motivos que nos levou a declarar um sinal de compra foi a quebra em alta das médias móveis dos últimos 20 e 50 dias (EMA20 e EMA50 - depois explicaremos o que são). Logo, será lógico que uma quebra em baixa dessas médias móveis, que estão na zona dos 1,31€, desde que feita consistentemente e com forte volume, constitua um primeiro sinal de invalidação do sinal de compra. A total inversão do sinal de comprar dar-se-ia com um fecho abaixo do fecho de quinta-feira, por volta dos 1,27, e um claro sinal de venda ocorreria, na nossa opinião, com uma quebra em baixa e volume elevado da EMA150, que se encontra nos 1,24€ (embora os 1,20€ tenham constituído suporte anterior e ainda possam segurar a cotação).

Como vêem, quem quer Negociar em Bolsa tem que ter espírito aberto e delinear permanentemente um plano. É a falta destes dois pré-requisitos que leva tantos investidores a terem insucesso e a sentirem-se frustrados na Bolsa. Lembrem-se que não há mal nenhum em assumir erros e perder dinheiro em alguns trades mal sucedidos. O que interessa é que preservemos o nosso capital para podermos voltar à carga mais à frente: a Bolsa continuará lá, a nossa espera.  


2.5.14

COMENTÁRIO

O BES teve hoje uma ótima valorização em bolsa, impulsionado pela notícia de que Ricardo Salgado teria que abdicar da presidência do banco por imposição do Banco de Portugal. A perspetiva de uma luta pelo poder no BES (tem mais poder quem mais ações tiver) levou a que os investidores antecipassem um aumento de procura por ações do banco, o que levou o preço para cima. A notícia da possível resignação de Ricardo Salgado viria a ser desmentida durante a tarde, mas a mossa da subida nos gráficos e nos indicadores fez com que fosse pouca a hesitação dos investidores.

Independentemente das notícias e dos desmentidos, foi, pois, um ótimo fecho do BES: no máximo do dia, com volume crescente e acima das EMA21 e EMA50, o que costuma ser muito bom sinal neste título. O MACD também deu sinal de compra.


Se se confirmar, no início da próxima semana podemos ter um novo teste a máximos.



Fica o gráfico:


Motivo nº 16 para Negociar em Bolsa:

Com vossa licença, permito-me mais une petite gourmandise matemática (só para apreciadores).


Vamos começar com uma poupança de 5000€ enfiada a prazo num banco qualquer à taxa sovina de 3%. Segue-se o nosso pecúlio, com juros compostos, ao fim de:



1 ano - 5150€
2 anos - 5304€
5 anos - 5796€
10 anos - 6719€
30 anos - 12136€

Ao fim de 30 anos pegam no graveto e mais vale entregá-lo aos netos para que o estoirem na night.

Agora, um pouquito mais de picante. Se forem uns tipos estudiosos e aplicados, que tenham a cabeça no devido lugar, a atitude correta e estiverem dispostos a perder cacau quando perceberem que asneiraram, então é possível (e até provável) ir buscar um juro acima do mercado à Bolsa. Vamos lutar por 10%:

1 ano - 5500€
2 anos - 6050€
5 anos - 8052€
10 anos - 12969€
30 anos - 87247€

Aaahhh! Agora sim, temos um valor que já mete uma certa vista e uma reforminha que já vai dar para não nos chatearmos com cortes!

Mas contrapõem vocês: e o risco, caro Negociarembolsa? O risco, meus meninos, está por todo o lado e ninguém se importa com ele! Um dia, vem o risco (todo lampeiro) e vamos desta para melhor que ninguém nos acode! Porque nos havemos de importar com os riscos que o nosso dinheiro corre?
Motivo nº 15 para Negociar em Bolsa

Por falar em taxas de juro, é sempre bom fazermos uma contas, embora eu saiba que a maior parte da malta gosta pouco de números. Enfim, no pain, no gain!
O PSI20 (média ponderada das cotações em bolsa das 20 principais empresas portuguesas) começou a ser calculado no início de 1993 no valor de 3000 pontos. Hoje, vai em cerca de 7500 pontos. Significa isto que, em pouco mais de 21 anos, valorizou 150%, o que dá (juros compostos) 2,2% de taxa de juro ao ano. Quem tivesse comprado uma carteira representativa em 1993, não se pode dizer que tenha feito um negócio por aí além, ainda que tenhamos que juntar a estes valores os dividendos pagos pelas empresas.
Mas a verdade é que, em 21 anos, o PSI20 já por duas vezes rondou os 15000 pontos: em 2000 foi aos 15120, desceu até aos 5000 dois anos depois e voltou a subir até aos 13700 em 2007. Quem tivesse vendido em 2000 teria obtido uma taxa de 22%! ao ano desde 1993 (os anos de ouro), e quem aguentou a queda e vendeu em 2007 (quando começou a crise financeira atual) garantiu uma média de 9,4% ao ano (fora dividendos).
O que a matemática tem de bom é que, de facto, dispensa um ror de conversa fiada.
Motivo nº 14 para Negociar em Bolsa

Mas o motivo principal para alguém Negociar em Bolsa é tentar obter uma taxa de juro para as respetivas poupanças com um ar menos enfezado que as taxas dos depósitos a prazo oferecidas pela banca. Na Bolsa, a boa notícia é que o céu é o limite e a taxa obtida pode ser tão boa que nos permita ficar ricos mesmo que ganhemos um ordenado de pobre. A má notícia é que, para a maior parte dos investidores, isso não vai acontecer.
Conversas exemplares


O meu amigo Américo é um ás da bolsa. Há tempos trazia em carteira cem barris de petróleo bruto, títulos de propriedades no extremo oriente, mil alqueires de trigo, um sortido de ações do PSI20 e ainda estava curto no par iene/dólar. Passado uns dias já se tinha virado para os metais, para a biotecnologia e para a dívida pública portuguesa. Para o Américo todos os movimentos de compra e venda obedecem sempre a uma ponderação racional/emocional que se enquadra em requisitos pré-estabelecidos. Há duas grandes forças que movem o ser humano, estipula ele entre duas goladas de cerveja, são elas o medo e a ganância. Nos mercados financeiros, tu não queres saber da utilidade dos produtos que compras, nem te interessa se eles estão caros ou baratos, nem dos afazeres dos produtores ou dos desejos dos consumidores. Também te estás a marimbar para as canseiras, para o suor, para os problemas e os conflitos dos indivíduos, embora te interessem, obviamente, todos os acontecimentos geradores de incerteza. No final, a única coisa que conta é se vendes mais caro do que compraste. Se não tens e o preço sobe ataca a ganância e ficas a salivar, se tens e o preço desce acagaças-te todo e começas a ficar com suores frios. Na maior parte das vezes olhas para o espelho e viras-te para ti próprio e dizes, bolas, meu caro, és um burro do caraças, não tens e devias ter comprado, ficaste com aquilo e devias ter entregue a outro mais burro que tu, compraste bem, mas devias ter comprado mais, vendeste, mas foi demasiado tarde e, assim por diante, até ao dia em que já não te importas com o teu ar de jerico. Mas a lição não se fica por aqui e o meu amigo, embalado como está, tem mais com que nos instruir. Nos mercados não é importante que acertes sempre, nem sequer que acertes a maior parte das vezes. No mercado, o mais importante é identificar o erro e eliminá-lo rapidamente. O erro deve-se, na maior parte das vezes, à tremenda inconstância do ser humano, mas também à imparável sucessão dos acontecimentos. E o mercado está tão inquinado de erros que o que agora é ótimo daqui por cinco minutos vira para péssimo. Na prática, nunca é tarde para comprar se a tendência for ascendente, mas, se vires o caso mal parado, põe-te a milhas e preserva o capital. E continuou neste estilo sentencial até que se nos acabaram os tremoços. Nisto, o Américo é muito diferente do meu outro amigo que joga na bolsa. O Aníbal está sempre certo, mesmo que à primeira vista não pareça. Nos mercados, a minha postura é a seguinte, diz-me ele, compro o que acho que vai subir e se a coisa der para torto e começar a descer aguento firme, pois tu só perdes dinheiro no dia em que vendes mais barato do que compraste. No limite, o que posso fazer é comprar mais para baixar o preço médio e, enquanto tiver dinheiro, vou comprando por aí abaixo. Esta solução tem o defeito de se tornar inevitável que acabes por te entalar e já sucedeu ficar com o graveto empatado uns bons pares de anos à espera que o mercado acabasse por reconhecer como eu tinha razão. A verdade, acaba por assumir o bom do Aníbal, é que neste momento tenho um lote de papéis do BCP que ou uso para forrar paredes ou deixo de herança aos bisnetos. E, bem vês, isto não mata, mas dá-nos um bocado cabo das noites. Na minha ideia, esta postura faz do Aníbal um verdadeiro investidor, ao passo que o outro será mais um especulador do estilo capitalista americano. Das diferentes táticas dos meus dois amigos, eu que de negócios nada percebo, e me enquadro com orgulho na imensa massa trabalhadora que goza com justeza o feriado do primeiro de maio, diria que ilustram uma parte do dilema que nos é colocado pelo funcionamento do nosso cérebro. E isto, pelo menos por hoje, é o que me interessa verdadeiramente. Nós estamos sempre a trabalhar para acertar a maior parte das vezes e sentimos uma grande desilusão quando falhamos. Fazem-nos crer que nunca devemos ter apenas opiniões, mas antes convicções sólidas como aço, inabaláveis e completamente à prova de influências externas e quem hoje diz uma coisa e amanhã muda de opinião ou é cata-vento ou vigarista. Formataram-nos a partir do interior para achar que sobre todos os assuntos há uma palavra justa a ser dita, em todos os trabalhos há uma forma certa de proceder e que, embora a perfeição seja inatingível, com suor e talento chegaremos ao ponto em que só falhamos por exceção. Nesse sentido, estamos sempre em crer que assumir erros é sinal de fraqueza e desfazer o que julgávamos bem feito resulta de desnorte. Mas o verdadeiro drama é que o meu amigo que não hesita em se considerar equivocado corre tanto risco de se enganar como o outro que nunca dá o braço a torcer. Claro que a realidade aumentada dos mercados de capitais, de que os meus amigos são especialistas, com o seu brutal sobe e desce e tremenda arbitrariedade, não se aplica linearmente à nossa vida do dia a dia. Felizmente, digo eu. Mas cada vez mais o nosso lado racional se confunde com o emocional num conjunto de micro decisões que acabam por afetar de forma muito notória a nossa qualidade de vida individual. E, usando linguagem de comentador, eu não tenho a certeza se isto é conjuntural ou estrutural. 

1.5.14

Os russos

Os russos são conhecidos por beberem muita vodka, mas também por serem ótimos jogadores de xadrez. No caso ucraniano, Putin, que em sentido tático nada perde para o seu inimigo político e ex-campeão Garry Kasparov, encaminha-se a passos largos para o xeque-mate.

Desde o início do conflito que a jogada russa passava por explorar o facto de a Ucrânia ser, em termos de nação, um caso falhado. Com um povo tradicionalmente dividido entre aquilo a que chamaríamos de verdadeiros ucranianos, mais ocidentalizado (até porque ocupa a região mais ocidental do país) e que olha com gosto para a organização e estilo de vida proposto pela UE, e a enorme comunidade russa ou pró-russa que odeia a Alemanha (ainda por causa dos nazis) e está disposta a abdicar da independência e voltar à mãe Rússia, a Ucrânia é um belíssimo alvo para a típica jogada de sabotagem política que vem nos livros desde pelo menos os tempos de Júlio César (ver "A guerra das Gálias").

A aposta de Putin é criar uma tensão que coloque os verdadeiros ucranianos na contingência de terem de pegar em armas para defender o país. Se os manuais de estratégia estiverem corretos, chegará a altura em que se colocará a questão de saber se efetivamente valerá a pena partir para uma guerra civil com o objetivo de obrigar os pró-russos a ocidentalizar-se, com todos os perigos e destruição que tal opção vai implicar, ou se, pura e simplesmente, fará mais sentido negociar uma secessão do leste que liberte a parte ocidental para se aproximar do ocidente. Putin acredita que, no final, os ucranianos vão optar pela segunda alternativa, até porque a mobilização de tropas ucraniana parece ser tudo menos entusiástica e a colossal dívida ucraniana coloca uma pressão adicional para se tomarem decisões apressadas.

Resta saber como é que o ocidente e, em particular, os EUA vão reagir a uma vitória tão retumbante da Rússia e de que forma se vão reequilibrar as forças nos mercados mundiais. A avaliar pelo que se passou na Crimeia, a aposta numa reação puramente no campo económico-financeiro, apesar de fazer mossa, parece em nada beliscar as intenções russas. Veremos o que se segue.