24.6.14

Momento decisivo no PSI20

Isto realmente nada corre bem à tugaria: depois do fiasco da seleção, ainda temos que levar com o comportamento enfezado da nossa bolsa que, depois de ser líder de valorização anual no mundo inteiro, está hoje a ser ultrapassada pelas maiores bolsas mundiais! 

Deixamo-vos o gráfico do PSI20 que está em zona de vai ou racha. Ou aguenta o suporte aqui nos 6800-6900 ou vamos ter o caldo entornado pelo menos até aos 6400 e aí vai-se jogar não só o futuro do PSI, mas também o futuro da nossa economia. Uma quebra consistente dos 6400 é Bear Market, o que significa que os mercados sabem coisas feias agora que nós só saberemos daqui por algum tempo. Antes enfardarmos com o Gana!

Por outro lado, é nestes momentos que se fazem os grandes negócios e se constroem fortunas. E para grandes riscos há normalmente ótimas recompensas, embora tenhamos de contar com a chatice de nos podermos aleijar!

Fiquem com a imagem que vale por mil palavras:




O aumento de capital do BCP

Amigos, como sabemos que estão ansiosos por causa do AC do BCP e como é provável que ainda não tenham toda a informação de que precisam para poderem manobrar a geringonça de modo a que não se trilhem, preparamos uma singela folha de cálculo que vos dá o chamado valor justo do banco no pós-AC, atendendo à cotação atual:




Na folha de cálculo coloquem a cotação atual, o valor total do AC e o preço a que vão ser vendidas as novas ações. 

Recordamos que o valor justo é o valor da ação depois do AC para que se mantenha a capitalização bolsista do banco igual à capitalização atual mais o valor arrecadado com o AC. O BCP hoje vale cerca de 3000 milhões de euros. Se pedir 2000 milhões aos camaradas no AC vai ficar a valer automaticamente 5000 milhões.  Aquilo a que nós aqui chamamos de valor justo é o valor de cada ação para que a capitalização seja os tais 5000 milhões.

Claro que muitos dirão que o BCP, recebendo os 2000 milhões do AC, vai ficar numa posição melhor para criar riqueza e, por esse motivo, deverá ficar a valer mais que os 5000 milhões atuais. É possível que sim. Mas também é possível que isso não aconteça! No caso do BES, o valor justo pós-AC era de 0,94€ e vejam por onde ele anda agora: quem foi ao AC e não vendeu já está a arder e não é pouco!

Por outro lado, tenham em atenção que o AC do BCP é dado como certo desde os 0,20€, pelo que a cotação atual pode não ser a cotação do dia de hoje, mas sim a cotação que vocês acham que é válida para o dia em que o AC é conhecido! Desde os 20 cêntimos o BCP já descontou bastante à conta do AC e, por isso, o seu anúncio não vai constituir surpresa.

Se querem a minha opinião, diria que o valor atual mais correto deverá ser de 0,20€, com um desconto a rondar os 25% o que atiraria o valor justo para junto dos 0,18€.


20.6.14

A marinar

Pergunta-nos o nosso amigo Idalino da Conceição o que nos está a passar pela cabeça para desampararmos a loja de forma tão repentina e inesperada. 

Citamos um extrato da carta que gentilmente nos endereçou: 

"Eu era um frequentador assíduo desta vossa instituição, e acho que o serviço que prestavam primava não tanto pela qualidade, mas antes pela quantidade, o que também é bom! Desde que abriram ao público habituei-me a cá vir todos os dias antes de tomar decisões de alto risco. Agora que não postam nada vai quase para uma semana, sinto um vazio cá dentro e já não sei que rumo hei-de dar às economias que juntei mais a Graciete. Temo que se tenham pisgado, ou coisa do género, deixando desamparados aqueles que em vós depositavam todas as esperanças de enriquecer. E do jeito que isto está, era sempre bom termos alguém em quem deitar as culpas quando dissermos em casa que as férias estão canceladas porque estuporamos a pilim todo nas ações. Assim, temo que chegue o dia em que a Graciete me acerte o passo ou coisa que o valha e me deixe para aí manco ou desfigurado e se me acabe a vontade de correr riscos desnecessários. Se vos deu para a preguiça, reconsiderai que é um favor que vos peço!"

Começamos por agradecer o contacto do ilustre amigo Idalino, dizendo que muito nos honra a confiança que em nós deposita. Em boa hora nos endereçou a sua missiva (o Idalino é proprietário de ações dos CTT e é por isso que opta por comprar selos) que, para além de ser um tónico para nos mantermos ativos, é origem de responsabilidade que arcamos com alegria e sentido de dever.

Gostávamos de começar por explicar aos amigos desta casa e a todos aqueles que dão a alegria de nos visitar que a nossa vida não é esta e só cá vimos mandar larachas quando não temos mais nada que fazer, de maneira que quando o serviço aperta não estamos nada para aqui viramos.

Por outro lado, investir na Bolsa não é como ir à missa em que se não forem é certo que acabam no inferno. À Bolsa não precisam de ir todos os dias, nem sequer uma vez por semana. Na realidade, basta-vos ir quando a coisa estiver com um sentido definido e não adianta de nada andar a perder tempo e ganhar chatices desnecessárias se não houver um racio ganho/risco que compense o desassossego. Entrar curto neste momento em que as bolsas mundiais rondam máximos históricos só passa pela cabeça de jogadores de casino; apostar longo no PSI20 carece de sinais mais fidedignos. Resta-nos ficar a assistir calmamente, preservando o capital, vendo uns jogos de bola, rindo com a nossa seleção e mantendo a cabeça fria. Haja saúde e alegria. 

15.6.14

Vender em maio

Semana negativa no PSI20 que, depois de ter falhado a ida a máximos, parece estar preparado para entrar em definitivo na silly season

Olhando para o gráfico, diríamos que se tornou provável um prolongar da tendência de descida pelo menos até à zona onde se situa a linha de tendência ascendente (Lta) que vem do final do ano passado, em torno dos 7000 pontos. Se assim for, repete-se o tradicional sell in may que, no caso do nosso índice costuma ser para levar à letra como podem verificar no gráfico seguinte. 



Se quiserem considerar como válido o histórico dos dois últimos anos, então seria de sair em maio, embora ainda estejam perfeitamente a tempo, e regressar apenas no final de julho ou já no decorrer do mês de agosto. 

Como curiosidade, diga-se que se seguissem a tática de entrar em meados de julho e saírem em inícios de maio do ano seguinte, com uma carteira que replicasse o PSI20, teriam obtido uma valorização média de 46% em 2012-2013 e de 42% em 2013-2014, ao passo que no intervalo maio-julho tivemos quedas de 16% tanto em 2012 como em 2013. 

Se em 2014 se repetir o cenário passado, então teremos uma descida até aos 6350 pontos (que é precisamente onde se situa, quanto a nós, a fronteira bull-bear do PSI20, assinalada a laranja no gráfico), com uma subida posterior até aos 9200 pontos em maio do próximo ano. 

Muitos dirão que em 2012 tivemos grandes chatices com a crise da dívida soberana e no ano passado deu-se o irrevogável incidente, acontecimentos de tal monta que não se perspetiva que haja cenas iguais no presente ano. A vantagem da Bolsa é que podemos sempre pôr dinheiro a sustentar as opiniões que vamos tendo e as leituras que fazemos. E quando assim é, o resultado vem sempre justo!

12.6.14

Galp

Apenas uma questão: com a subida do preço do petróleo será que vamos ter o empurrão que está a faltar para o breakout da Galp? 

Esta questão foi colocada, se bem se recordam, na quinta-feira passada, tendo sido acompanhada de um gráfico que atualizamos a seguir com os dados do fecho da semana.


O breakout da resistência na zona dos 13,00-13,20 deu-se com subida do volume, embora tenha sido evidente uma hesitação grande por parte dos investidores que não pareceram de todo convencidos. Em condições normais, a quebra de uma resistência com tal importância, levaria a um aumento bastante mais pronunciado do volume e uma subida mais consistente com fecho, eventualmente, em máximo semanal. É que a projeção da quebra apontará para valores 15% acima, correspondentes à diferença entre o mínimo e o máximo do canal onde a Galp se manteve durante quase 2 anos. E 15% de valorização colocariam a cotação na zona dos 15€, o que é, evidentemente, um ganho simpático!

Apesar de o fecho de sexta-feira ter sido o mais alto dos 2 últimos anos, estamos em crer que há diversos fatores a travar um desempenho ainda mais exuberante por parte da Galp. 

Em primeiro lugar, há o receio fundado de um falso break que colocaria a cotação novamente em rota de descida até à base do canal, com um ganho igualmente interessante para quem se colocasse do lado curto. E esse receio é aumentado pela fragilidade atual do PSI20.

Por outro lado, a Galp encontra-se num canal ascendente que tem a linha superior na zona 13,80€, o que torna o racio ganho/risco um tanto ou quanto desfavorável. 

Acresce que o RSI, que é um indicador de sobrevenda/sobrecompra, encontra-se em zona de sobrecompra (acima dos 70) como podem verificar no gráfico, o que é encarado como sinal de possível correção.

Que dizer, então, relativamente ao futuro?

Estamos em crer que a Galp vai estar muito condicionada pela evolução da cotação do petróleo nos próximos dias, cotação essa que tem vindo a subir principalmente devido aos acontecimentos no Iraque. De qualquer das formas, se a subida se mantiver, será de admitir uma resistência na zona dos 13,80€, com possível inversão da tendência, para aliviar os indicadores. Se assim for, vai ser necessário estar atento à reação ao suporte dos 13€. Uma boa reação coloca-nos a caminho dos 14,60-15,00€.

9.6.14

BCP

A pedido de várias famílias deixamos um pequeno rascunho de análise a esse enfant terrible da bolsa portuguesa que é o BCP. 

Toda a gente anda metida a cada passo no BCP, e por isso o consumo médio de ansiolíticos do investidor luso é mais alto do que mandam as regras a nível mundial. Comprar BCP é como entrar num atalho para chegarmos à riqueza: a gente espera chegar lá mais rápido, mas a maior parte das vezes tem que dar a volta e vir para trás. 

Hoje o dia foi mau de mais, com uma queda que deixou espuma de raiva grudada em muitos monitores de computador. 

É verdade que ainda há por aí muita gente com medo do AC, mas as coisas estão de tal forma que eu já vejo o BCP a arranjar quem lhe compre as novas ações por atacado. Lembram-se de aqui há uns tempos  se ter falado de uns chineses que iam entrar no BCP pela porta dos fundos com uns carrinhos de mão cheios de yuans e sacos de ouro para acudir à refrega? Nessa altura, era evidente que a história não passava de peta da grossa, pois só um mariola muito pedrado punha a hipótese de alguém avançar com cacau para vir segurar um banco para lá de parido. Mas hoje em dia, com o negócio um pouco menos quebrado, não será de colocar a hipótese de vir de lá de longe alguém com bom coração para abalizar um AC? Quanto mais não fosse porque o BES, essa instituição em quem o Expresso anda a bater sem qualquer ponta de piedade, também arranjou quem levasse o AC na boa e fizesse da coisa uma patuscada sem espinhas (por falar no BES, não se esqueçam que dia 16 vão soltar mais umas miladas de ações no mercado)! 

Claro que também podemos pensar que o BCP amolou hoje porque o nosso irrevogável Governo lá continua na sua intentona para que toda a gente lá fora perceba que nós somos umas bestas quadradas que não temos conserto e é fundamental que o FMI cá continue a tomar conta no tasco! 

Ou terão sido os números do PIB e das exportações que avermelharam a coisa? E porquê o BCP e não os outros! E como justificar que o PSI20 continue a escalar pé ante pé?

Não desesperem, amigos, que nós aqui no NeB estamos cá para alguma coisa e temos a resposta que vos convém. Atentem no gráfico seguinte:


Digam lá se não ficou claro agora por que caiu o BCP hoje? Digam lá quem é amigo? Ah?! Quem é? Então vão lá pôr uns "gostos" no FB que a malta também se pela por esses mimos e até vos dá dinheiro a ganhar e alegrias.

Agora tomem nota:
  • A cotação não aguentou a trombada com a Lt superior do canal e deu de si: não é agradável, mas está tudo dentro dos conformes.
  • Hoje as EMA9 e 21 travaram a queda. A primeira traçou a segunda o que é bom, e o volume foi baixo, o que também não é mau.
  • A Lta da base do canal é tocada amanhã na zona dos 0,1915-0,1920. Se lá for é de comprar que em princípio arrebita; se quebrar e vier por aí abaixo, mandem o BCP à merda e fujam!
Bons negócios para todos e bom dia de Portugal!


Mota Engil

A notícia de que havia analistas a avaliar a Mota Engil África na casa dos 4000 milhões de euros é daquelas que deixa o povo tão banzado que até fica mal na fotografia:


Como diabo é que uma empresa que, no fecho de hoje, é avaliada pelo mercado em 1278 milhões de euros destaca uma sua subsidiária que vale 4000 milhões? A Mota África dá conta de mais ou menos 1/3 do negócio total da Mota e vale 3 vezes mais?! Quem foi o nabo que fez estas contas?

Garanto-vos que nós aqui no NEB não sabemos nada deste tipo de aritmética, e somos uns leigos consumados em matéria de contabilidade e construção civil, mas uma coisa podemos dizer com toda a franqueza (até porque mandar bojardas é arte que sai em conta): que a MOTA tenha subido 40% em 14 dias vai parecer uma subidinha insignificante daqui por uns tempos! Aí está o que pensamos do caso, de forma muito direta e sem rodeios! Esta artista tem a tenda montada para deixar as duas rodas e se transformar num foguetão (quem não perceber, é favor ver a figura seguinte que sempre ajuda):


Que pelo caminho se vai estampar aqui e ali é uma evidência, mas daí até chegarmos ao ponto de nos pormos a vender esta máquina e entregarmos o tesouro a outros vai a distância entre a sabedoria e a loucura. 

Claro que há valores que devemos acautelar: na sexta-feira falamos dos 6,40€ que hoje foram atingidos por arredondamento. A quebra (se se der) deve conduzir ao máximo histórico nos 6,83€, onde é de elementar sensatez que haja um alívio porque a subida já vai em modo panic buy. Vendam a medo e comprem quando os mãos fracas as largarem e elas vierem pousar cá abaixo. É um conselho amigo, mas não me venham chatear a cabeça se se trilharem: é que não vou estar mesmo nada para vos aturar!


8.6.14

Negociar em Bolsa foi "Surfar a Tendência"...

Muito bom dia:

     Ontem, a equipa do NeB passou um excelente dia a assistir a um Workshop intitulado: "Análise Técnica e Estratégias de Negociação". Aproveitamos desta forma a vinda ao norte do Tiago Esteves, responsável pelo excelente blog: Surfar a Tendência. Queríamos aqui dar os parabéns para a excelente organização, bem como à qualidade dos conteúdos apresentados. Pensamos que foi sem dúvida interessante, principalmente o facto de terem sido partilhadas algumas ferramentas de análise técnica, que poderão ajudar os participantes a identificarem melhor alguns dos sinais para possíveis entradas colocação de Stops, por forma a minimizar os riscos e controlar euforias. Salientamos também o facto do Tiago ter realçado algumas das estratégias de Money Management que nos poderão ajudar a não sermos expelidos dos mercados da forma mais dura que é a Banca Rota. Foi bem realçado o facto de estarmos a viver um Bull Market que tem recebido novos investidores sem qualquer experiência e que poderão deslumbrar-se e entrar em euforia, daí que é sempre bom adquirir conhecimento, sabendo que, mesmo assim, tudo muda de um momento para o outro.
     Parabéns ao Tiago Esteves pela iniciativa, esperando que continue o excelente trabalho que tem desenvolvido.

     Valeu o dia bem passado e a troca de conhecimentos. 
     
     Bons Negócios!

6.6.14

Une petite analyse à Motáaa

Já que estou com a mão na massa, e não me custa mesmo nada, deixo-vos une petite analyse gráfica à empresa mais sorridente do dia: a Mota Engil. Quem mais? 

Hoje tivemos o fecho mais alto desde 2007, pelo que nos ficam a faltar referências. Deixo-vos uma Lta possível e um intervalo meio manhoso que aponta para os 6,40€ como os próximos valores a mirar. A linha  a tracejado vermelho é o máximo histórico. Se tem unhas para ir até lá? Só o Senhor saberá dizer!

Não se esqueçam, contudo, de que para baixo também há caminho e os balões ao subir não vão para o céu... rebentam! Naaaahhh, não há de ser nada! 


Comentário

Amigos a festa está boa, quem está dentro anda todo satisfeito com o pilim a cantar nos bolsos e as notícias parecem vir todas diretas do paraíso celeste. Vejam o BCP e a Mota com a tacha toda arreganhada. Mas também o BES (esse malvado que fez um AC), a EDPr e até, quem diria, a PT. Bem-hajam todas. 

Em suma, a Bolsa está neste momento a cumprir com as funções para que foi concebida pelos nossos sábios antepassados: encher-nos os bolsos de dinheiro isento de trabalho (mas não de canseiras) e fazer-nos esquecer quão pindérica é a gorjeta que nos pagam ao fim do mês. Quando é assim, é um regalo!

Eu não queria agoirar, longe de mim, até porque eu só sei entrar longo e não me dou com coisas curtas (linguagem bolsista), mas temo que tenhamos chegado a um momento de decisões no PSI20. Deixo-vos o gráfico do índice com o fecho atualizado com as cotações de ontem:


Daqui, diria que ou sobe e vai a máximos, ou cai e... estraga o sarrabisco!

Das decisões, tratam vocês que sabem mais do que eu.

5.6.14

As decisões do BCE

A leitura da decisão do BCE de hoje é muito simples.

Onde é que os bancos colocam as reservas de capital de que dispõem, de maneira a que estas resultem em lucro?

Resposta: na economia, via empréstimos às empresas e aos particulares, trocando risco por hipotecas, na Bolsa (em ações, obrigações e outros títulos) que representem capital, investindo no trabalho de uma corporação ou até de um país como um todo, em imobiliário, mercadorias ou matérias-primas ou, se os banqueiros estiverem borrados de medo, fazem como a maior parte dos portugueses e depositam-no a prazo. 

Só que os bancos, como é evidente, não vão fazer depósitos a prazo na concorrência. Em vez disso, depositam no Banco Central, que paga juros como qualquer outro banco paga aos clientes. E foi este juro que o BCE paga aos bancos pelo dinheiro que estes têm lá depositado que foi hoje cortado para valores negativos. Dito de outra forma, doravante se os bancos quiserem colocar dinheiro a prazo no BCE vão ter que pagar! E a verdade é que os bancos têm muitos milhares de milhões encostados no BCE. Conclusão: só um banqueiro sem arrojo mesmo nenhum vai manter o dinheiro no BCE, tendo de pagar por isso.

A leitura evidente é que os bancos vão ter que reforçar a alocação do capital à economia real: vai sair dinheiro do BCE e entrar (vejam se adivinham?)... no que a este espaço diz respeito, na Bolsa. 

Ao mesmo tempo, o BCE também cortou a taxa de juro a que empresta aos bancos, dando outra achega para que aumente a liquidez no mercado.

Tudo somado... vai dar subida!

A única dúvida está em saber se isto não estará já muito descontado. Se atendermos ao que se tem passado com a taxa de juro da dívida pública portuguesa, percebemos que nos últimos tempos tem havido muito dinheirinho a entrar nas nossas obrigações (e não só), o que parece indicar que muitos bancos já há algum tempo que perderam o medo e largaram os depósitos a prazo no BCE. 

Seja como for, embora conscientes de que pode vir aí um sell on the news, a mensagem é muito simples: havia dinheiro estacionado no BCE que vai começar a carburar! 

Tomem-se, pois, as concomitantes providências!

4.6.14

Efeméride

Faz hoje 7 anos que me apercebi de que iríamos para Bear Market.

A data ficou para sempre marcada na minha mente porque coincidiu com um dos dias mais felizes da minha vida: o dia em que nasceu a minha filha Laura.

Recordo que, quando eu e a minha mulher demos entrada na maternidade, na manhã de 4 de junho de 2007, tinha em carteira apenas ações da antiga Teixeira Duarte (TDU). Todos os analistas recomendavam a compra da TDU porque, para além de ser uma sólida empresa de construção civil (e o mercado estava hot), tinha ótimas participações financeiras na banca com percentagens relevantes no BCP (que valia bastante mais do que 3 euros por ação) e no BBVA. 

Nessa terça-feira, estava com uma confortável valorização de 10% nessa empresa, no culminar de um Bull Market verdadeiramente entusiasmante de mais de 4 anos. Como é evidente, durante esse dia e nos dias que se seguiram, toda a minha atenção voltou-se para valores muito mais altos e pus completamente de parte o envolvimento que tinha com o trabalho e a Bolsa. 

Recordo que, alguns dias mais tarde, quando voltei às lides, vendi TDU com 5% de desvalorização.

Depois percebi que, desde o início de junho, os investidores assustaram-se com problemas criado por uma inovação americana chamada subprime e havia fundos em dificuldades devido aos pedidos de liquidação em massa. 

Em Agosto, um fundo da Fidelity abriu falência e tudo começou a despencar precipitadamente.


3.6.14

É curioso como hoje são os comentários dos membros do Governo que estão a colocar pressão sobre os mercados. 

E até nem estou com isto a fazer uma crítica às palavras de desagrado dos governantes, porque é evidente que a decisão do TC, mais do que ter implicações económicas, coloca fortíssimas limitações às funções governativas. E é isso que mais estará em causa neste momento. 

Entretanto, ao mesmo tempo que começa a haver uma levíssima especulação de que o Governo possa tomar alguma decisão radical, que nos coloque outra vez em maus lençóis (não esquecer de que entramos no mês em que se comemora o 1º aniversário da cena "irrevogável"), os juros da dívida pública vão-se aguentando em valores historicamente baixos. 


Oxalá, não sejam os nossos governantes (TC incluído) mais uma vez a tramarem o pessoal, colocando-nos de novo do lado dos losers da História!

2.6.14

Vídeos

Uma introdução ao Prorealtime e à análise técnica (Parte II)

Vídeo de ontem, mas que, por motivos técnicos só hoje pode ser postado! Contém pequena análise ao PSI20 (apesar de ser de ontem, ainda se mantém fresca).


31.5.14

A semana que passou

Para início de conversa digo-vos já que esta foi uma das semanas bolsistas mais maradas de que me recordo. 

Claro que visto agora, da frente para trás, como de costume a lógica prevaleceu e a insanidade foi apenas aparente, mas devia ser mais raro ver-se dinheiro tão fácil de ganhar a passar-nos completamente ao lado porque nos mantemos agarrados a uma ideia feita de que as coisas devem seguir um rumo pré-determinado. Se leram o livro de Nassim Nicholas Taleb sobre acontecimentos raros e epifânicos, leitura que vos recomendamos em absoluto, esta semana foi um autêntico cisne negro: um daqueles momentos da nossa vida em que se dá uma rutura na maneira de pensar que leva a mudanças impercetíveis mas decisivas no modo de atuar. E não há nada mais capaz de produzir cisnes negros do que aquilo que mexe com a luta para se ser bem-sucedido em algo que tenha um impacto verdadeiramente mensurável e instantâneo.

Recapitulemos, então, para memória futura.

Há uma semana atrás, nós aqui no NeB, e não andarei longe da realidade se pensar que uma grande parte dos investidores, dávamos praticamente por adquirido que havia dinheiro que era preciso colocar no aumento de capital do BES, desde que o fizéssemos a preços de uva mijona. Já não digo no aumento de capital do BANIF que é um banco quiçá com problemas ainda maiores e que, ainda por cima, ia fazer um reverse stock split capaz de causar mossa de monta nas cotações. Mas ao BES era mandatório comparecer, por exemplo, atacando nos direitos que, certamente, iriam afundar para valores apetitosos porque havia muita gente graúda que dizia à boca cheia que os queria ver pelas costas: afinal de contas, 900 milhões à venda haviam de cumprir a sua função regulamentar de baixar o preço para o ponto em que nós atacaríamos. Para além disso, os últimos aumentos de capital, e não foram nada poucos, vieram acompanhados de saldos saborosos nos direitos e nas ações. Lembro-me de que no último AC do BPI chegou-se ao ponto em que não havia comprador para os direitos porque eles, pura e simplesmente, não valiam cheta nenhuma: as ações do banco já estavam ao preço das novas ações – 50 cêntimos. Portanto, a jogada era trigo limpo, farinha amparo. Com sorte comprávamos direitos a 5 cêntimos e numa situação delirante podia dar-se o caso de um tanso os passar para a nossa mão na casa dos 2 cêntimos, com o BES a 0,70€: uma pechincha de fazer corar.

Mas a coisa, sabemo-lo agora deu em barracada da grossa. Os direitos do BES e consequentemente as ações do banco subiram compulsivamente e nós ficamos a ver. E o pior é que levaram na bolina o BCP (que, caso o BES caísse, era rapaz para nos fazer a gentileza de derrapar até aos mágicos 16 cêntimos). E ficamos a assistir da bancada no primeiro dia, agarrados à ideia de que havia malucos à solta na Bolsa, e mesmo depois de os direitos subirem 30% mantivemo-nos certos de que no dia seguinte os mercados reconsiderariam e lá apareceria o carregamento de produto para vender que haveria de nos oferecer os tão lógicos e aguardados saldos. O problema é que no segundo dia, para perdão dos nossos pecados, o foguetório continuou e nós de fora de mão estendida. Como dizem os brasileiros: cáralho! Alguma coisa não estava bem no nosso modus operandi e, como andamos em altura de avaliações e com testes para corrigir, houve marosca que nos escapou e a maior parte do povo sabia mais do que nós. Entretanto, havia outros títulos que já se tinham alegremente associado à festa e nós nada, numa de vêm aí saldos do AC. A Mota ligou o turbo e foi a custo que lhe deitamos a mão. Mesmo assim, não tivemos unhas e fomos cuspidos fora ao mínimo solavanco. P. que pariu: dezasseis anos de mercados e ainda não sabemos ver um bom negócio quando o sacana está todo sorridente a acenar-nos com plaquetes luminosas. Diacho!

Foi só no final do segundo dia que a luz iluminou as trevas e a notícia importante finalmente apareceu diante dos nossos olhos: a malta graúda que se queria desfazer dos direitos do BES já os tinha arrematado numa espécie de venda direta a investidores institucionais. O tal carregamento de direitos para vender que estava previsto desabar no mercado mandando as cotações para baixo, afinal nunca chegaria e nós íamos mesmo ficar a chuchar no dedo. Mas nessa altura, já a notícia tinha bolor de tão requentada que estava. E o pior é que esse tipo de anúncio muda tudo, como já tivemos oportunidade de assinalar no desabafo que publicamos neste mesmo local no dia em que o cisne negro levantou voo à frente dos nossos olhos. E essa mudança requer um tempo para recalibrar circuitos cerebrais. A colocação dos direitos de compra das novas ações por parte do BES diretamente junto de investidores e não no mercado, só é possível se existir a perceção de que o negócio vai compensar e o risco é reduzido. Nos AC anteriores (e diz o Expresso que a conta já vai num total de 18 mil milhões de euros em 5 anos) os bancos andaram ao tio tem lume para vender as novas ações, mas desta vez houve quem as quisesse apanhar logo por atacado, e ficasse com elas como se não houvesse amanhã. Que melhor sinal pode haver para a banca e até para o país?

A venda a institucionais muda completamente o cenário. Os AC eram maus para as cotações porque estava criada a sensação de que se tratava de dinheiro que se colocava num poço sem fundo, que aumentava o número de ações no mercado, diluindo o valor de cada título, e que não serviam para criar riqueza. Mas a forma rápida e certeira como correu esta manobra do BES (e, porque não dizê-lo, do BANIF), criou a sensação, pelo menos no curto prazo, de que desta vez o negócio vale mesmo a pena e que a banca pode realmente dar a volta por cima a partir daqui. É que, mesmo do ponto de vista do negócio em si, há, de facto, uma grande racionalidade em, neste momento em que as falências e as constituições de reservas tendem a diminuir (atenção aos testes de stress do BCE), ir ao mercado levantar dinheiro para pôr a casa em ordem mais rapidamente. Curiosamente, fica-se agora com a estranha sensação de que o ideal é que o próprio BCP anuncie o aumento de capital tão cedo quanto possível, porque há dinheiro disponível para entrar em força no negócio e é um disparate estar a pagar juros altíssimos ao estado por aquela caca de CoCo ou lá o que é. Claro que o montante que o BCP já chupou em aumentos de capital nos últimos anos, cerca de 3000 milhões, é quase tanto como o valor total do banco no fecho de sexta-feira (3600 milhões), sem contar com a ajuda do estado, o que nos leva à sinistra conclusão de que, por ora, o graveto foi-se pelo cano de esgoto. Mas isso, de momento, não nos põe dinheiro no bolso. O que a semana nos mostrou é que os AC já não são um bicho papão e transformaram-se numa oportunidade para entrar em títulos que começam a estar bastante apetecíveis e na moda. Pela parte que nos toca, aqui no NeB, não temos qualquer problema em mudar de campo. Afinal de contas, a Bolsa, tal como a vida, não é sobre ideias feitas, mas sobre leitura, compreensão e decisão, num misto de razão e emoção que tornam o produto final tão excitante.

Para o início da semana que vem, na impossibilidade de estarmos atentos a todas as nuances, deixamo-vos já algumas notas para que possam construir a vossa análise:
·       Fecho de sexta-feira com algumas Bolsas europeias e americanas em máximos históricos;
·       Início do mês de junho, em que está prevista a tomada de decisão do BCE quanto a um possível início de um programa de estímulos na Europa que combata o medo da deflação. O plano poderá passar por um financiamento direto aos bancos, que ajude a baixar as taxas de juro cobradas às PME, que poderão contratar mais gente, que terá mais dinheiro no bolso para gastar o que ajudará os preços a subirem;
·       Ressaca da decisão do TC em Portugal. A decisão era esperada e veremos se o Governo reage de forma que não deite gasolina na fogueira. Por outro lado, sai da mente dos investidores o receio dessa decisão: é menos um problema no horizonte;
·       Fim do aumento de capital do BES;
·       Aumento de capital no BANIF com procura 40% superior à oferta. O banco anunciou que quer antecipar a liquidação do empréstimo do estado. Por outro lado, ao contrário do que se esperava, o BANIF não vai realizar o reverse stock split já, mas apenas no final do ano.  As novas ações começam a negociar a 6 de junho.
·       PSI20 entalado entre uma curtíssima linha de tendência ascendente e a linha de resistência horizontal na zona dos 7150 (imagem abaixo).


29.5.14

KAPUTT

Kaputt é uma palavra alemã que significa algo como destruição total, acabado. Presumo que se poderia aplicar a palavra, também, ao que aconteceu aos mercados financeiros em 24 de outubro de 1929.

Kaputt é também o título de um livro do italiano Curzio Malaparte (pseudónimo de Kurt Suckert), que tem por cenário a Europa da segunda guerra mundial, lugar e época a que, como nenhum outro, se pode aplicar um termo como Kaputt. Malaparte percorreu, no norte e leste da Europa sobretudo, durante quatro anos, como correspondente de guerra, e envergando a farda de oficial italiano,  alguns dos palcos principais onde se desenrolou o conflito: Polónia, Alemanha, Finlândia, Ucrânia, Roménia, Croácia, para acabar o livro numa Nápoles arrasada pelos bombardeamentos aliados.

A ação desenrola-se, por isso, no território do Eixo. Mas não são os acontecimentos históricos da guerra que ocupam as páginas do livro, mas as pessoas que viveram a guerra, fazendo-a ou sofrendo-a. O livro, maravilhosamente escrito, ocupa-se a descrever uma série imensa de situações, presenciadas quase todas por Malaparte, onde o Homem é mostrado a sofrer prodigiosamente ou, sobretudo, a infligir prodigiosos sofrimentos. Fascinante é descrição que é feita de uma quase intimidade de um dos mais altos elementos da cúpula nazi, o governador geral da Polónia, Hans Frank, um dos condenados à morte pelo tribunal de Nuremberga. Malaparte nunca nos interpela a tentar dar respostas, mas é inevitável que o 'como foi possível?' nos surja vezes sem conta.

A natureza humana é dissecada com rara habilidade por um observador minucioso e implacável, o que aliado a uma mestria rara torna Kaputt um livro ímpar no seu tipo. Considero mesmo que o livro talvez tenha criado para si um nicho único, onde nenhum outro se possa equiparar, o que não seria inédito nos livros de Malaparte, evidente em 'Técnica do Golpe de Estado'.

Extraordinário é também suceder que Kaputt não seja hoje um livro conhecido por aí além, quer tanto pelo seu valor literário como histórico. Pois que, dependendo do temperamento do leitor, tem potencial para se tornar para alguém o livro acima de todos os outros.