2.9.14

Os russos

Numa das nossas últimas intervenções dissemos que achávamos fundamental ao bom trader a leitura de livros de história em vez de desnecessários e pouco interessantes livros sobre bolsa que muitas vezes mais não são do que manuais de auto-ajuda. Pois bem, agora concretizamos.

Uma das leituras a que deitamos mão nas férias foi o magnífico "A queda de Berlim 1945" do historiador inglês Antony Beevor.


O livro narra, como o próprio título indica, os acontecimentos que, nos primeiros meses de 1945, ditaram a implosão do regime nazi e a consequente destruição da Alemanha e da sua capital. Evidentemente, foi o clímax de uma época em que o nível de destruição e de completa selvajaria entre seres humanos foram levados e um extremo como jamais terá acontecido em toda a história da nossa existência neste planeta. E o livro faz uma descrição, quer do ambiente entre os civis, quer das manobras dos militares que não economiza nos detalhes e que, por isso, nos transporta para um mundo que ninguém pode colocar a hipótese de que se venha a repetir.

Um dos aspetos que salta à vista no texto é o facto de a larguíssima maioria das páginas dizerem respeito aos feitos militares dos soviéticos e às decisões mandatórias que a partir do Kremlin Estaline despachava para os seus generais. Para o soldado soviético não havia outra saída que não a aniquilação e humilhação completa do inimigo. Para ele, cair prisioneiro era pior do que morrer, porque significava o terror dos campos de concentração nazis ou o gulag da Sibéria se se desse o caso de ser libertado. Foi a ferocidade destes soldados soviéticos, aliada ao número impressionante de efetivos que, em grande medida, tornou possível desmatelar a máquina de guerra nazi.

É certo que, depois da operação barbarossa, cabia aos russos uma grande quota parte da sede de vingança contra os nazis, mas que dizer dos franceses que viram a sua capital invadida e subjugada ou dos ingleses que foram bombardeados sem piedade meses a fio? A verdade é que os russos agiam com a frieza daqueles que nas maiores adversidades parecem não hesitar, porque tinham a certeza de que todas as alternativas eram infinitamente piores. Com os corpos cheios de álcool (quando não líquido dos travões ou combustível de avião), os soldados soviéticos violaram e mataram sem piedade nem problemas com as baixas que sofriam (na invasão de Berlim, as baixas entre os soviéticos foram incrivelmente superiores às baixas nazis) porque do Kremlin vinha a voz de comando que tinha de ser obedecida sem hesitação.

Hoje estamos outra vez em guerra com os russos. Felizmente, ainda não há soldados nos campos de batalha, nem se perspetiva que tal venha a verificar-se (para além do que acontece no leste da Ucrânia), mas estamos numa guerra que os russos têm todas as condições para vencer, porque, tal como aconteceu há 70 anos atrás, tirando meia dúzia de renegados do sistema (como por exemplo as excêntricas Pussy Riot), a maioria dos russos sabe que não há alternativa senão seguir o líder. É por isso que as sanções que os ocidentais lhes estão a aplicar, e que tanta mossa fazem na população, não estão a surtir efeito e é provável que este episódio ainda venha a azedar bastante mais.

28.8.14

E mais duas

Pergunta-nos o nosso amigo Fulgêncio Batista o que nos deu na cabeça para ignorarmos a Mota-Engil nas nossas últimas análises e comentários.

A resposta é muito simples e o amigo, apesar de não passar de um fantasma de cubanas nos pés, compreenderá facilmente: com a sacola atacada de PTs, de BCPs e de BPIs foi um problema de exiguidade de espaço que nos impediu de ir de Mota.

Mas a Mota é aquela moça que quando lhe dá é um repente e pula de uma resistência à outra como se fosse o Marc Márquez a guiar. Vejam o gráfico:


A resistência dos 4,40€, anterior suporte-mor, caiu ao fim de vários ataques e o fraco volume de ofertas incentivou a histeria. É isso que faz com que esta ação seja tão reativa, quer para cima quer para baixo. Pura e simplesmente não existem ações nos COFs e a malta compra/vende ao melhor. O título trepou 11% de uma só vez e foi instalar-se na zona da resistência seguinte. Hoje abriu com ganas de continuar por ali acima, mas a gasolina acabou quando o povo viu que estava em causa a quebra da SMA200. Agora está a esvazir um pouco o balão e, enquanto estiver acima dos 4,40€, temo-la em terreno de interesse comprador.

E aqui temos um aspeto que é bom não esquecer. Embora o cenário no curto prazo pareça ter-se desanubiado, a tendência desde há meio ano no PSI é descendente e estamos a falar do índice que perdeu por K.O. uma das suas maiores empresas ainda não vai há 1 mês. De maneira que não é de esperar que haja por ora sinais demasiado bullish e sempre que houver uma aproximação a um estado de sobre-compra, a uma resistência ou a uma média móvel relevante como é a de 200 dias, vai ser normal aparecer acumulação de vendedores. Aliás, isso mesmo aconteceu hoje, por exemplo, com o BCP!

E é por isso que eu continuo a gostar da PT (no curto prazo) e julgo que podemos ter espaço para subidas interessantes. É que, aparte uma ténue zona de resistência entre os 1,70 e os 1,90, não ficaram resistências da queda fortíssima que a empresa experimentou. Não quer isto dizer que vamos ter uma subida linear por aí acima, mas o rácio ganho/risco não parece desinteressante. Do lado do ganho está tudo dito e quanto ao risco sabemos que é possível uma ida ao gap nos 1,46 e depois há um suporte na zona dos 1,36 cuja quebra obriga a evacuação apressada. Portanto, temos os limites estabelecidos. 


Por outro lado, a PT apresenta resultados amanhã, antes da abertura do mercado, e já toda a gente sabe que não devem ser famosos. Resta saber se, com uma queda de 38% em 2 meses e um desbaste de 51% desde o início do ano, quanto já estará descontado pelo mercado. Eu continuo a pensar que pode haver fecho apressado de curtos com a consequente subida violenta, mas estou mais do que pronto para desamparar a loja.

Oh Lord!

Nota-se que a Janis Joplin não sabia o que era um bull market, mas, verdade seja dita, a cantar assim bastava pedir que o Senhor dava!


Evidentemente, este post enquadra-se na rubrica "música para celebrar os ganhos em bolsa"!

27.8.14

5 dicas (3 super importantes)

No seguimento de uma entrada nossa no Caldeirão de Bolsa, em que nos solidarizamos com um forista que tentava remediar uma trombada de 70% na PT, pergunta-nos o nosso amigo Armindo da Encarnação de que modo nos devemos precaver contra a possibilidade de estuporarmos as nossas queridas economias na bolsa. Como a questão aflige a maior parte dos investidores e é por causa desse medo que uma maioria opta por passar a bola a outros, apostando em depósitos a prazo escanzelados, resolvemos lançar mão à obra e escrever este texto em que descrevemos a nossa maneira de atuar.

Evidentemente, ninguém gosta de perder dinheiro e a dor da perda pode ser tão grande que, para muita gente, a possibilidade de ganhar não é suficiente para compensar o sofrimento de ver o património violentado. Para esses, de facto, é uma atitude de elementar sensatez absterem-se de negociar em bolsa. Todos os outros, que sofrem naturalmente, mas que não chegam ao ponto de pensar em cortar os pulsos podem continuar a ler.

Dando, pois, por adquirido que não é possível entrar nos mercados sem ter presente a possibilidade de perder, cá vão algumas das nossas dicas para manter a sanidade mental e conseguirmos bater o índice de referência ao fim do ano:

Dica nº 1 - Esqueçam a leitura de livros sobre bolsa, auto-ajuda, análise técnica, economia ou caca dessa género. Ninguém joga à bola a ler livros, mas sim a treinar, da mesma maneira que não se ganha dinheiro em bolsa lendo teoria. Em vez dessa trampa, invistam o vosso tempo na leitura de Literatura a sério e a estudar História (um pouco de Física também ajuda, mas isso sou eu a puxar a brasa para o lado de cá). O assunto principal da bolsa é o comportamento humano e só o conhecemos a fundo de conseguirmos olhar para o passado pelos olhos daqueles que foram maiores que nós (voltaremos a este assunto). É evidente que há na net sítios sobre bolsa de que não podemos abdicar, entre os quais incluímos, sem falsas modéstias, esta vossa humilde casa! Oremos!

Dica nº 2 - Evitem a intoxicação de informação, estando atentos apenas aquilo que é especialmente relevante. Todas as notícias que passam nos telejornais, incluindo os comentários do tio Mendes e do vovô Marcelo são absolutamente irrelevantes para negociar em bolsa. Já a notícia de que o GES falhou pagamentos ou as palavras do Mário Draghi no fim-de-semana são das do género que nos devem fazer agir de imediato! A propósito, esqueçam também os dados económicos que vão saindo: na maior parte das vezes, não interessam nem ao pai natal.

E agora as três dicas mais importantes:

Dica nº 3 - Keep it simple! Esqueçam análises complicadas porque ninguém tem tempo para isso. A análise técnica funciona porque uma grande parte dos investidores a segue. Toda a gente está atenta a linhas de tendência, suportes, resistências e médias móveis e o mercado tende a ser obediente porque a massa dos investidores age em conformidade. Análises mais elaboradas só servem para nos distrair do objetivo que todos temos em mente: ganhar dinheiro!

Dica nº 4 - Cut the losses! Esta é a regra mais importante, mas também a mais difícil de aplicar. Jamais percam mais de 3% do vosso capital num negócio! Nunca! Desceu? Vende-se! Se cair depressa de mais e já não forem a tempo, vendam logo que possível! Foi um erro e assume-se o erro! Se voltar a subir, paciência: são as regras do jogo! Cortem as vossas perdas, antes que elas vos entalem e vos impeçam de voltar a negociar. A bolsa estará lá no dia seguinte para voltarem a recuperar o dinheiro perdido. E acreditem naquilo que vos digo: a dor da venda a perder passa rapidamente e permite-nos voltar ao campo de batalha mais fortes!

Diga nº 5 - Keep calm! A bolsa não é um inimigo que nos está a quilhar a vida e a quem temos de acertar o passo logo que possível! A bolsa nem sabe que nós existimos e está-se positivamente a cagar para a nossa sede de vingança ou para a nossa azia! Também é verdade que a bolsa, embora às vezes não pareça, não tem nenhum interesse especial em nos tramar. Nesse aspeto a bolsa é como o Universo e é assim que a coisa está bem feita. Isto para dizer que quando perdemos, não temos que nos pôr com planos de vingança ou coisas desse género para tentar recuperar o dinheiro rapiramente. Perdemos por culpa própria e está tudo dito. Adiante. Se formos pacientes e sensatos (e se viermos ao NeB de vez em quando), a bolsa acaba por ser generosa e vem humilde, de cauda a abanar, dar-nos o pilim que nos faz falta!

Agora vão lá negociar em bolsa como deve ser...


26.8.14

Mais duas

Num dia em que as notícias parece estar todas a vir do paraíso celeste (daqui a pouco até os russos e os ucranianos estão aos beijinhos), deixamos uma outra dica que pode interessar: o BPI (também podia ser o BCP, que está numa situação muito similar).

O gráfico tem lá uma LTd que está a pedir para ser quebrada. Se quiseram entrar numa de apostar na quebra nos próximos 45 minutos, sirvam-se que ainda estão a tempo.



Mas também temos um outro produto em que a linha já foi quebrada: a Sonae (os valores estão ao fecho de ontem que eu ainda não ganhei dinheiro para subscrever o ProRealTime - serve). Aqui só há uma coisa que me perturba que é a proximidade da SMA200:



E nem é preciso mais paleio. É um regalo!

Rentrée

Não deixa de ser uma chatice chegarmos de férias cheios de saudades de ganhar dinheiro e encontrar o PSI encostado a uma resistência!


Garanto-vos que nunca me passou pela cabeça que ainda este ano fôssemos testar os mínimos do irrevogável episódio do ano passado, mas estou em crer de que não terei errado de todo quando num artigo anterior fiz a previsão de que os mínimos estariam feitos por volta do dia 9 de agosto. Aí sim tinha sido uma bela compra, mas não é possível negociar quando se tem a cabeça debaixo das tépidas águas do Mediterrâneo, pois não? 

Agora ficamos naquela cena do costume: isto quebra a resistência já ou dá a oportunidade a quem foi a banhos de poder experimentar o poder do suporte dos 5300 pontos? Evidentemente, gramava atestar no suporte, mas não me posso pôr com esquisitices, quando o nosso amigo Mário Draghi disse no fim de semana, para quem o soube ouvir, que chegou a hora de pôr as rotativas do BCE a imprimir notas. Cheira a uma rentrée animada.

Para rematar este pequeníssimo apontamento, sugeria-vos que olhassem para a PT e me dissessem se não estará ali em preparação um saboroso short squeeze para pagar as loucuras das férias! Confiram, por favor!

3.8.14

A decisão

Como vi alguém assinalar, estamos a viver o nosso fim de semana Lehman e imagino que neste momento devem continuar a desmultiplicar-se um sem número de contactos ao mais alto nível entre o Banco de Portugal, o Governo, a Comissão Europeia (que a 18 de dezembro último aprovou um plano de ajuda a 5  dos maiores bancos eslovenos com perda total de capital para os acionistas), banqueiros nacionais e internacionais e muito provavelmente gente ligada aos governos dos principais países europeus, a começar por Espanha ou pela chanceler alemã. 

É muito provável que as notícias que têm vindo a público sobre a forma de começar a resolver os problemas do BES sejam corretas e correspondam ao que será anunciado mais logo. Claro que há bancos e fundos com algum peso internacional, como o Blackrock, o Credit Agricole ou o Bradesco que vão perder imenso dinheiro neste lance, embora seja possível montar um esquema que lhes permita não ficar completamente a ver navios (ver mais abaixo). 

Claro que logo podemos ter um comunicado do BP num sentido completamente contrário, mas vamos partir do princípio de que isso não vai acontecer.

Para os pequenos acionistas a dor e o impacto vai ser, como é evidente, grande. Creio que muitas vezes nos esquecemos de que investir na bolsa significa comprar participações em empresas e que as empresas podem falir. Investir em bolsa é como montar um negócio, com a diferença de não termos o trabalho e as chatices, mas também abdicarmos do poder decisório que confiamos ao trabalho de outras pessoas. Nesse sentido, por muito que nos custe admitir e por muito estranho que possa parecer, nada há de anormal no facto de os acionistas perderem tudo. Por mais inacreditável que pareça, o BES foi à falência e só não vai fechar portas porque isso seria o caos e o inferno. 

Convém repetir num parágrafo só, porque muitas vezes há gente que gosta de pôr flores nas palavras como se isso fosse mudar a realidade. O maior banco nacional ainda há dois meses atrás faliu! Um império com século e meio de vida deixou de existir e arrastou consigo as economias de milhares de pessoas! É inacreditável, mas para o bem e para o mal nada existe aqui que não corresponda às regras do jogo do capitalismo, que são aceites tacitamente por quem vive nas sociedades ocidentais. 

Bem sei que para aqueles que perderam parte das economias de uma forma tão estúpida e traiçoeira este pesadelo é brutal e impossível de assimilar. Fala-vos quem já perdeu imenso dinheiro em maus negócios na bolsa. Preservem a vossa saúde e tentem recuperar o ânimo! Não vale a pena gastarmos muito tempo a tentar encontrar culpados, porque essa é uma tarefa para os tribunais. A nossa tarefa pessoal vai ser tratar de aprender com isto, de maneira a garantir que possamos recuperar estas perdas logo que seja possível. Estamos convencidos de que se for esta de facto a solução adotada, apesar de ser muito dolorosa no curto prazo, ao preservar os contribuintes e ao estabelecer um exemplo, vai tornar a economia mais forte e fazer com que possamos ter uma recuperação mais rápida. Na bolsa como na vida só perde de facto quem desiste ou quem não aprende.

Se for aplicado o que tem sido noticiado, na prática, as ações dos atuais acionistas deixam de existir o que significa que vai ser possível mais ou menos rapidamente estabilizar o banco e criar, a partir do nada, novas ações que vão ser vendidas numa IPO para ressarcir o estado. É aqui que pode haver algum acordo mais ou menos tácito para que os grandes acionistas tenham uma espécie de acesso privilegiado que os recompense da perda que agora assumem. É possível até que seja estendido esse privilégio à totalidade dos atuais acionistas.

Algumas palavras sobre a forma com atuaram o BP e a CMVM. É impossível que pessoas inteligentes e experimentadas não tivessem percebido desde o início que o estoiro do GES ia afetar o BES de uma forma brutal. E é inacreditável que não se tivessem apercebido que aqueles que se mostravam interessados para entrar num salvador AC, iam rapidamente bater em retirada mal se começasse a falar em incumprimentos e proteção contra credores. E é imperdoável que se continuasse a falar como se estivesse tudo controlado. Nem sequer é uma questão de economia. É uma questão intrínseca ao funcionamento do ser humano e consequentemente da sociedade. Um incumprimento destrói a confiança e retrai o investimento. É uma lei da natureza, universal e omnipresente. 

Quanto à questão de se não ter parado a negociação do BES mais cedo, não concordo que tal se devesse ter feito. Quando o banco apresenta 3600 milhões de prejuízo, o destino está traçado e o investidor sensato tinha que fechar a posição longa fosse a que preço fosse e era inaceitável que tal lhe fosse negado. É verdade que havia sempre uma réstia de esperança (há sempre esperança) de o pior ser evitado, pelo que continuava a haver risco na venda. Quem comprou confiou nessa réstia de esperança e sabia que podia ter um lucro brutal porque qualquer subida ia ser sempre a pique. Estamos, pois, em crer que parar a negociação na quarta ou na quinta-feira seria impedir a tomada de decisões consciente quando todos já tinham a informação de que precisavam para negociar.

Por fim, uma última nota para o BPI e para o BCP. A prazo fica a ideia de que poderão ter muito a ganhar, pois afinal de contas é um concorrente direto que, na melhor das hipóteses, sai da primeira divisão da banca nacional. Mas no curto prazo, ficaríamos muito admirados se não ficassem sobre grande pressão, pois é provável que o estoiro do BES comece por levar a uma grande aversão pelos bancos portugueses. Do ponto de vista técnico, por outro lado, tanto um como o outro quebraram em baixa na sexta-feira a EMA200 o que, para nós, costuma ser sinal para bater em retirada.

Nas próximas semanas, estarei de férias. Deixo o expediente entregue ao Renato e ao Fernando. Boas férias para todos e/ou bons negócios.

1.8.14

Fim de festa

Antes de irmos de férias, não queríamos deixar de tentar perceber onde é que esta hecatombe pode parar. Olhando para o gráfico do PSI, ficamos com a ideia de que o ponto em que estamos é justamente um ótimo ponto para haver ressalto. Aliás, ou há ressalto aqui ou arriscamos mais 10 a 12% de queda já na próxima semana! Resta saber se o rácio ganho/risco é compensador. Vejam o gráfico, mas continuem a ler antes de tentarem apanhar espadas de samurai a cair do céu:


O problema é que já toda a gente percebeu que o BES vai ter que ser nacionalizado. Neste momento, com a cotação ao valor que está, e o banco com o buraco que se conhece (a que temos que somar o que se desconhece), creio que rapidamente vai deixar de haver dúvidas no espírito dos grandes investidores: entre perder os 20 cêntimos por ação que restam e ter que abichar com um montante pornográfico num AC, mais vale ficar vermelho de uma só vez! Para já ainda está tudo na expetativa, mas estamos em crer que vai ser só uma questão de tempo até que toda a gente se conforme com a má sorte que teve. Entretanto vamos ouvindo música, como a cançoneta que nos puseram hoje de que estão a desenhar uma solução mista. Dá vontade de os mandar a todos pó ca**lho! Para nós, arraia miúda, resta-nos a consolação de saber que os génios gestores de fundos da Blackrock, do Goldman Sachs ou os japonas do Nomura, que enfiaram graveto sem jeito neste navio naufragado, com artilharia pesada não fizeram melhor do que o maior pudengo caça nicas. Da próxima vez que esses exploradores de caça grossa tiverem vontade de experimentar um destino exótico como este cantinho à beira-mar, vãos-lhes esfregar o gráfico do BES nas ventas para que aprendam a ter tino! Para o BES, depois de toda a dor e choque, virá a gestão pública e, quiçá, a exemplo da CGD voltem os lucros! Até lá, temos muita pena, mas a incerteza vai ser tão grande e o impacto na economia tamanho que, tememos bem, vão andar ursos à solta na nossa bolsa! 

E já agora que estamos a falar de coisas tristes, olhemos para a PT. O que se passou na PT é um exemplo amplificado à extravagância do conhecido hábito de descapitalização de empresas que tanto entusiasma o empresário luso. Em 2010, a PT vendeu a sua participação na operadora móvel brasileira VIVO por uns incríveis 7500 milhões de euros, pagos pelos espanhóis da Telefónica que, como se sabe, também não tinham problema nenhum em contrair dívidas. Como o Governo da altura meteu na cabeça que não era possível a PT sair do Brasil, encarregaram esse sábio que dá pelo nome de Granadeiro e a sumidade Bava para nem perderem tempo e comprarem uma operadora qualquer que falasse com sotaque. De modo que a PT pegou em metade da massa da Telefónica e comprou por atacado e como se não houvesse amanhã 23% de uma empresa de 2ª categoria e semifalida chamada OI. OI! É isso daí! E que fez com o resto do graveto? Ora, que havia de fazer? Pagar parte da dívida? Que disparate! Investir? Que despropósito! Inovar? Estás louco?! Distribua-se pelo pessoal sob a forma de dividendos! E assim foi! Que gente porreira! Agora vejam o que aconteceu à cotação:


No final, graças ao nacional porreirismo e ao saque sem escrúpulos, a PT transformou-se na empresa do MEO, tendo trocado o filão de ouro pelos tostões furados, e desbaratado em três anos uma fortuna que nos pagava os juros da dívida pública de um ano inteiro. Entretanto, continuou a troca de favores entre os amigalhaços, no bom estilo uma mão lava a outra, até acontecer aquilo que ninguém tinha antecipado. Houve alguém que não pagou a conta e deu cabo dos amigos todos. Fim de festa para esta malta porreira. 

31.7.14

Para memória futura

Que me perdoem aqueles que hoje viram o património fortemente reduzido à conta da incrível história de incompetência e falta de vergonha que envolve o BES, mas há uma lição a retirar de tudo isto e que nos interessa particularmente a todos nós que estamos dispostos a arriscar o fruto do nosso trabalho nos mercados de capitais. Guardei-a, à lição, sob a forma de uma frase que o The Mechanic, um excelente forista do Caldeirão de Bolsa, usa quase como se fosse um lema:

"Os que hesitam, são atropelados pela retaguarda"

Evidentemente, a frase aparece num contexto de guerra, no caso as guerras napoleónicas, no magnífico livro de Stendhal, a Cartuxa de Parma, escrito em 1830, e cuja leitura deveria ser mandatória. Mas aplica-se, ipsis verbis, a esse autêntico campo de batalha que é a bolsa. 

No dia 8 de julho, quando surgiram notícias de que empresas ligadas ao BES tinham falhado pagamentos na Suiça, escrevemos no nosso FB: "Só mais uma achega sobre o incumprimento do GES: se estivéssemos nos EUA ontem o BES tinha caído pelo menos 50% e hoje estava, de facto, em situação de ter de pedir proteção contra credores. E olhem que estou a falar do BES e não do GES. É que um incumprimento, por menor que seja, tem um custo reputacional que atira qualquer empresa ao tapete. A situação só não é dramática porque estamos em Portugal." O BES cotava a 70 cêntimos e quem anda nisto há muito tempo sabe que os mercados não perdoam e costumam ser crueis!

Para não nos esquecermos do dia em que acabaram mais de 150 anos de história do BES e muitos foram atropelados porque hesitaram, deixo-vos a imagem do stream em fecho no Activobank.


30.7.14

O dia em que tudo se decide

Correto o comportamento do PSI19 no dia de hoje. O regresso à caixa laranja não admira num índice que tem uma das principais ações (o BES) em coma profundo e outra a esvaziar como um balão (a JMT). Vamos ter que vigiar os 6100 pontos que são a base do retângulo. Apesar de ainda esperar um bom ponto de entrada nesse valor (se bem se recordam, estava a contar que o atingíssemos na primeira semana de agosto), diria que o destino do índice vai estar nas mãos destas duas ações. 

Sobre o BES, especulativamente falando, estará mais ou menos tudo dito. Resta-nos saber, pois, a verdade dos números que vai ser possível divulgar neste momento, coisa que teremos oportunidade de conhecer mais logo. Evidentemente, nota-se que há muita gente com a esperança de que os números divulgados venham a ser melhores que o antecipado e o AC a realizar não entre no domínio do estrambólico. Creio que isso só será possível se o Vítor Bento for prudente e não divulgar a verdade toda já. É que há mil e um indícios que nos levam a crer que a procissão ainda nem saiu do adro e o estoiro no BES vai ser qualquer coisa de verdadeiramente histórico. Oxalá estejamos errados, mas a debandada dos Espíritos Santos, o cancelamento da AG, as fugas de informação a conta gotas para o Expresso, a tomada de controlo pelo Governo angolano do BESA e, acima de tudo, a dimensão das empresas em questão e a importância que elas tiveram no país levam-nos a crer que isto vai dar muito que falar e fazer correr muito sangue (para já está a fazer correr sangue azul; esperemos que não chegue ao benfiquista)! Lembram-se como começou o caso BPN? Era coisa pouca, um problema em que compensava bastante evitar o risco sistémico, mas quando a fatura final chegou, ninguém gostou dos números. Só espero que o berbicacho seja apenas descascado pelos acionistas e isto não azede para o lado dos contribuintes, mas muito francamente parece-me que a coisa vai mesmo sobrar para todos nós. E deixem-me que vos diga outra coisa que me está a assustar nesta história toda: o BP não se cansa de dizer que não faltam privados para entrar no BES e assumir um AC! Cá para mim que disto nada percebo, esses privados estavam a pensar entrar no BES de antigamente, no BES do GES que já não existe; quando perceberem que vão ter que enfiar largos milhões num banco falido que tudo o que tem para oferecer é balcões a retalho vão começar a pensar que é melhor investir em empresas como o Twitter ou coisa que o valha. A não ser que o preço seja de uva mijona!

A JMT é a típica empresa que estava caríssima porque andava a descontar um crescimento verdadeiramente exponencial dos lucros. É verdade que a operação na Polónia estava a correr lindamente, mas, que diabo, a Jerónimo não passa de uma mercearia grande! Não faz iphones, nem bugigangas caras que as pessoas se pelem por comprar. Aliás, não faz nada: compra tudo feito e vende mais caro! E, por isso, seria inevitável aparecer concorrência para chatear e travar o crescimento. Agora, a JMT vai ter que esperar até que a Colômbia comece a justificar as expetativas que plantou no cérebro de tudo quanto é empreendedor luso. Até lá, com um PER (price to earnings ratio) a rondar os 20, e uma dívida em crescimento, parece uma empresa cara! Hoje entrou numa zona de suporte forte entre os 10,10 e os 10,80€ e fez mínimo do ano. Há um canal descendente que também tem a base nesta zona (vejam o gráfico abaixo, atualizado com o fecho de ontem). Embora a empresa esteja em claro bear market (o que acaba por a ajudar a escorregar), pode ser um excelente ponto de entrada, mas se a virem a quebrar convictamente a base do suporte, é de fugir!


Que diabo vem a ser o universo?

A esquerda intelectual vai-se mandar ao teto quando se aperceber da ligação direta entre capital e cultura que nos preparamos para fazer, mas a verdade é que se não lerem, não ouvirem música, não forem ao cinema, não frequentarem museus e/ou não viajarem não vão conseguir ganhar dinheiro na bolsa de forma consistente. Se andarem no mundo apenas porque vêem os outros andar têm uma probabilidade de 95% de se encaixarem nos 95% de traders que perdem dinheiro nos mercados, o que vos dá uma perspetiva de 90,25% de se transformarem em loooooooooooseeeeeeeeeeeersssssss! E isto, meus meninos e meninas, não é um facto! É ainda mais do que isso. Trata-se de uma teoria científica que está certa pura e simplesmente porque... nunca falha!

De maneira que nós aqui no NeB, que primamos por fornecer um serviço completo, providenciamos a nossa própria agenda cultural que mais não é do que um singelo contributo para que desempoeirem a alma e tomem fôlego para os desafios dos mercados.

O texto seguinte, que vem acompanhado de banda sonora do tempo em que a música nos deixava o cérebro em estado de contínua epifania, vem da nossa melhor cepa. Enjoy!

Tindersticks, My sister, 1995

Falamos da morte porque ao Ernesto, o que é maquinista na CP, deu-lhe para nos descrever um vídeo que viu no Youtube. Um grupo de guerrilheiros sírios esconde-se num beco de uma avenida em ruínas de Alepo. À vez cada um deles deixa a segurança do beco e entra dois passos avenida adentro de onde descarrega o magazine da ak47 na direção do inimigo. De cada vez que o faz o nosso combatente enfrenta a morte a céu aberto, de cigarro a descair da boca, aparentemente com a mesma tranquilidade com que nós traçamos tremoços e bebemos bejecas. É então que um deles sai mas nem tempo lhe dão para fazer pontaria. O inimigo escavaca a esquina do beco à força de balázios com ele de permeio. A cambalear arrasta-se para a segurança do beco onde a vida o vai deixar confortado pelas vozes serenas dos camaradas que não param de lhe lembrar que Allahu Akbar como se houvesse o risco de ele se esquecer, desnorteado com os estertores da agonia, de quão grande Deus é, ou fosse apanhado de surpresa com a grandeza de Deus e vacilasse na hora de todas as decisões. O Ernesto explica-nos que o que mais o impressionou foi perceber que os guerrilheiros do beco não enfrentam a morte porque têm coragem, ou porque estão desesperados, nem tão pouco porque lutam por uma causa, mas sim porque têm a certeza de que morrendo dessa forma vão para um sítio melhor. Não se trata de fé, de crença, mas de certeza. Nós concordamos. Entretanto, o sol de verão lá longe no meio do sistema solar brilha no céu azul da nossa esplanada com vista para o mar e sentimo-lo descer em direção ao horizonte, mas já não nos apercebemos da rotação da Terra que nos vai trazer o escuro mais logo à noite. Ao Tavares, que como eu estudou física e tem uma natural predileção pela filosofia, dá-lhe agora para achar que os que perderam a fé, não porque não gostassem dos padres ou de ir à missa ou porque eram a favor do aborto ou por causa de qualquer outra norma canónica, mas porque se aperceberam de que a bota não batia com a perdigota e conceitos como Deus e big-bang se auto-excluíam, acabam sempre mais cedo ou mais tarde por readquirir um certo nível de espiritualidade que não põe de parte a ideia de que a morte não é o fim e pode inclusive manter Deus em aberto. Anselmo, que como todos sabem é anarquista, é de opinião de que sobre esses assuntos não se deve falar e o melhor é manter sempre uma sensata atitude agnóstica que nos preserve a sanidade, mas não nos coloque em maus lençóis se se confirmar que Deus é grande. Claro que sendo anarquista e agnóstico, o Anselmo foi obrigado a lutar com meia dúzia de tremoços pela minha atenção e a verdade é que a parte final do que disse voou com as gaivotas para longe e já não lhe consegui chegar. Estamos neste pé quando a pergunta fatal brota de bocarra do Rodrigues, o pasteleiro, como se fosse uma trombada que nos atinge a todos, de modo que ficamos sem ar e vemo-nos na contingência de fazer uma pausa e olhar para a praia à procura de um par de mamas onde possamos pousar os olhos e deixar a mente arrefecer. Que diabo vem a ser o universo? Pela parte que me toca, conformo-me com a explicação de que nós não compreendemos em que tipo de buraco estamos metidos pura e simplesmente porque existem mais estrelas no céu do que neurónios no nosso cérebro, mas acho uma bênção que tenhamos sido gizados com órgãos dos sentidos que sejam justamente adequados a que nos regalemos com as coisas boas da vida. Enquanto assim penso, o Tavares, que já deve estar com os copos, volta à carga. A dada altura do teu percurso formativo, diz, dás-te conta de quão fatelas são os nossos órgãos dos sentidos e como é escassa a porção do universo que nos chega ao cérebro, de maneira que começas a colocar-te questões sobre a realidade e coisas assim e quando acabas estás transformado numa espécie de religioso sem deus que crê que talvez na radiação cósmica de fundo ou no dualismo onda-corpúsculo esteja escondida a nuance que, contra todas as expetativas, nos transporte deste para um universo paralelo no dia em que a morte chegar. E nesse universo paralelo continuamos a viver? O Tavares acha que sim, mas os universos paralelos são uma espécie de paraíso e nunca há chatices nem coisas más. Pela parte que me toca, voto a favor.  

27.7.14

Verão quente

Depois de umas semanas em que, apesar da nortada, se estava melhor a banhos que na bolsa, o PSI19 lá se decidiu sair da caixa laranja e, todo lampeiro, rompeu para cima. Quem não ficou bloqueado com o cagaço das semanas de hecatombe, sempre conseguiu alambazar-se como se fosse boda. É sempre dinheiro que parece à mão de semear, mas inacreditavelmente foge-nos tão depressa que quando damos por ela mais vale ficar a dormir para não fazer asneira. Este que daqui vos fala, por exemplo, ficou a olhar para o nabal quando o tiro de partida foi dado e depois foi uma sorte ter conferido os gráficos quando o demónio tentador entrou em cena já a parada estava alta. E que viu?


O índice quebrou em alta a EMA9 (linha verde) de curtíssimo prazo, e foi embater com estrondo na EMA21 (linha amarela) de curto/médio prazo, onde estancou a subida na sexta-feira. Tudo de acordo com os cânones e, de resto, muito semelhante ao que se passou há um ano atrás (há apenas a diferença de, no ano passado, a EMA21 coincidir com o topo da caixa verde). Aliás, se prosseguir o cenário do ano passado, vamos ter correção de novo até ao fundo da caixa (ou quiçá até à linha verde), que será atingido por volta do final da primeira semana de agosto (se eu acertar nesta porcaria desta previsão, meus amigos, foda-se, sou mesmo mágico). Nesse dia, ou entram, ou são uns cagarolas tão grandes que nunca mais vos quero ver à frente. Estou a brincar! A verdade é que o PSI só regressa ao bull market quando convictamente saltar para cima da linha vermelha que está no gráfico, a famosa SMA200, e a linha verde ficar acima da amarela e a amarela acima da vermelha. Vai ser preciso muito trepanço, mas não vos posso pôr a coisa em outros moldes porque estaria a enganar-vos! Nessa altura, paradoxalmente, teremos uma entrada bem mais segura do que agora, em que andamos para aqui a tentar apanhar saldos que podem bem vir a revelar-se artigos com defeitos!

Do lado fundamental há algumas coisas que também gostaríamos de assinalar, até porque a semana que ora se inicia promete ser quente e clarificadora.

Claro que quem não quiser andar metido em confusões tem opções mais adequadas (como o grupo EDP ou os CTT, por exemplo), mas é inevitável falar do BCP e do BES que têm sido, para o bem e para o mal, os artistas mais em destaque nos últimos tempos:
  • No BCP chega ao mercado já amanhã um manancial de novas ações que promete colocar o volume transacionado ao dia num patamar completamente inovador. Vai ser uma autêntica enxurrada! Toda a gente está a contar com que haja uma pressão vendedora inicial que faça descer a cotação. Se vai ser assim ou não, já não falta muito para que o saibamos. De qualquer das formas, acredito que possa haver grande volatilidade ao longo do dia, até porque depois do fecho são apresentadas as contas do primeiro semestre. E pode haver dissabor nos números. Se o banco assumiu até ao final de junho o crash da dívida do GES vão pelo menos 150 milhões para provisões, o que pode causar susto ao nível dos prejuízos (ver aqui). Para quem estiver comprador, e caso haja malhanço, vejo um valor muito engraçado na zona dos 0,111-0,112. Não me venham é chatear a cabeça se se estamparem. É que nós aqui no NeB somos daqueles que acham que mesmo que os resultados sejam bons pode haver sell on the news porque, como já aqui referimos múltiplas vezes, a valer 6,5 mil milhões de euros (cotação atual), de momento, o BCP não parece barato.
  • Falemos do BES. O BES é o casino da bolsa. Pôr dinheiro no BES é apostar forte na roleta ou numa caca desse género! Não é bolsa. Porém, na quarta-feira, com a apresentação de resultados, vamos ter uma clarificação. Julgo que a imagem de seriedade do Vítor Bento é o garante de que vai saltar cá para fora toda a verdade conhecida e não se vão colocar paninhos quentes sobre a situação. Prejuízos da ordem dos mil milhões e um aumento de capital até 2000 milhões julgo que estarão mais ou menos descontados pelo mercado. Não vai ser pílula fácil de engolir, mas a bolsa tem a vantagem de os preços se ajustarem tão magnificamente, que haverá por certo interessados em acudir ao peditório. Mas eu na sexta-feira vi a passar em rodapé na televisão, como se não fosse nada de especial, notícia de que há quem ache que o BES pode vir a precisar de 4000 milhões de euros. Se for verdade, bye, bye! Já agora, para aqueles que acham que o BES vai recuperar rapidamente (o Nomura, que teve de assumir uma posição das grandes no banco, e está mais do que aflito para se pôr a bulir, veio dizer que o moribundo vale 1,10€ por ação) deixo a nossa humilde e singela opinião. O BES valia muito dinheiro, e estava na primeira divisão da banca portuguesa, porque tinha por detrás todo um gigantesco grupo de empresas que operavam em praticamente todas as áreas que contam na economia - o GES. Para além disso, durante anos teve gente que se soube encostar ao poder e mexer os cordelinhos da forma certa. O BES era, à escala, o Goldman Sachs tuga. Mas tudo isso acabou da forma que temos tido oportunidade de ver. O GES escafedeu com estrondo e o BES perdeu toda a estrutura que lhe trazia valor acrescentado, ao mesmo tempo que aqueles que sabiam manobrar na sombra se converteram em criminosos a contas com a justiça. De maneira que nos parece provável que o valor do BES em bolsa se aproxime mais do valor do BPI do que do valor do BCP. Aliás, não foi por acaso que o Ulrich pareceu tão contente ao ironizar com o DDT na apresentação de resultados. Ele sabe que agora já tem com quem brincar e se calhar... casar! Ao BES, depois de o Espírito Santo ter falhado, nem a Santíssima Trindade poderá trazer a pujança de outrora. E esse é o verdadeiro drama de quem ocorreu ao último AC do banco: comprou uma porcaria que em pouquíssimo tempo desvalorizou de facto e não foi apenas por ineficiência dos mercados. À cotação atual, o BES vale 2500 M€ e o BPI cerca de 2200 M€. Se puserem 1000 milhões a mais no BES (e vão ser 1000 milhões puramente para tapar buracos e não com o fito de tentar criar algum tipo de valor, como sucedeu, por exemplo, no BCP), é fácil ver que a cotação atual é esticadota! Mas isso somos nós a fazer contas de cabeça. O mercado saberá melhor!
Nos mercados europeus a semana também não promete ser fácil. Ao atacar um avião cheio de holandeses, os afilhados do Putin colocaram em sérias dificuldades o padrinho. É que há países que, apesar de serem insignificantes em termos geográficos e de população, têm tanta força e influência que quando mexem com eles o mundo pula e avança (ver aqui). Infelizmente não é o nosso caso, tristes tugas (façamos uma vénia de agradecimento ao nosso grande monarca Manuel I, que se encarregou de exportar judeus para o laranjal)! A nossa dúvida está em saber como é que os mercados vão acolher medidas que, se podem fazer tanto dano à Rússia, não devem ser 100% inofensivas para a UE. Olhando para o gráfico dos índices europeus, diríamos que há muito mais gente com a mesma dúvida! 

Bons negócios e boa semana.

17.7.14

O DAX

É quando começamos a ver notícias como esta link 1, ou esta link 2, que começamos a pensar que os mercados mundiais são capazes de andar esticadotes e é o PSI20, cuja queda foi precipitada por motivos que são de todos conhecidos, que deve estar mais enquadrado na realidade. 

Olhando, por exemplo, para o gráfico do DAX, o índice alemão, até pode ser que estejamos a ser míopes, mas garanto-vos que não conseguimos ver que possa desatar a subir. 


Vamos trabalhar, pois, no cenário de queda. 

Já sabem que nós gostamos de médias móveis que são ferramentas simples e bastante eficazes. A linha laranja do gráfico é a EMA100 que, como podem verificar, susteve a queda do índice algumas vezes no passado. Não somos adivinhos, mas está-nos a custar um bocado pôr de parte a ideia de que a vamos testar uma vez mais. O problema é que com notícias pindéricas da economia é bem capaz de a coisa arriar. E se o pior cenário desta notícia link 3 se confirmar, estamos em crer que vamos até à linha vermelha, a famosa SMA200 que já não é quebrada há 3 anos e da última vez que foi (com cruzamento em baixa da linha laranja)... ui, ui... o DAX esfrangalhou-se todo como o PSI20 fez na semana passada. 

Para já, o cenário é puramente académico, mas para o caso de a tramóia se confirmar deixamos a seguinte dica:  com tempo, aprendam a entrar do lado curto (a shortar) porque vai haver dinheiro que pode vir parar ao nosso belo bolsito quando o estenderete se confirmar. 

15.7.14

Inversão?

Uns dias de férias salvaram-nos do autêntico filme de terror que se viveu nos mercados no final da semana passada. 

São quedas violentas como as que o PSI20 experimentou, com particular destaque para o BES, que tornam a Bolsa uma atividade que exige um rigor e uma capacidade de reação que, de facto, não é para todos! E a verdade é que para muitos dos que têm investido nos mercados o sofrimento e a aflição de verem as economias diminuírem de forma drástica sobrepõem-se ao lucro que normalmente poderão obter. Alguém famoso escreveu, não me recordo exatamente quem, que "a todo o lucro que obtemos há sempre que subtrair todo o sacrifício que nos foi exigido". Sábias palavras que muitas vezes ignoramos. Contabilizamos o lucro como a diferença entre a venda e a compra e ignoramos o sacrifício e o tremendo custo da tomada de decisão, como se viver em sofrimento fosse uma forma de vida perfeitamente natural. Se há lições que aprendi com os meus avós é que nada se faz sem esforço e dedicação (lógico), mas o bem-estar e a qualidade de vida são mercadorias (?) que jamais devemos trocar por papel colorido! 

Se passarem uma vista de olhos por uma rubrica que tivemos aqui logo no início chamada "O que devo saber antes de Negociar em Bolsa" verão que estão lá muitas dicas valiosas sobre a forma de estar nos mercados e sobre a suprema importância de sabermos assumir erros enquanto ainda não é demasiado tarde. Na Bolsa, saber vender é uma arte!

Mas deixemo-nos de sermões que não é para isso que vocês cá vêm!

O PSI20 está na zona crítica. Aqui ou vai ou racha e se racha ficamos numa situação tão feia que não acredito que se vá já para esse cenário. Da minha experiência, que vale o que vale, diria que o pessimismo atingiu um nível tal que isto só pode subir. Estou em crer, portanto, que hoje pode ser um dia ótimo para uma inversão de curto prazo, pois tivemos uma queda fortíssima de desespero e pânico no início do dia que parece corresponder a um cenário de exaustão. Para validar a inversão, vamos precisar de um fecho de dia positivo. Se assim for, estão reunidas as condições para uma ida pelo menos aos 6400 pontos. 

Se a tarde voltar a ser de queda, diacho... 

Confiram o gráfico:




8.7.14

O afundanço do PSI20

Nós gostávamos de deixar aqui uma palavra positiva e de calma aos nossos amigos que não tiveram a oportunidade de vender e estão muito preocupados com a situação que se viveu ontem e principalmente hoje no PSI20, mas a verdade é que se quisermos ser mais do que solidários não há, de facto, boas notícias, ainda que, como é evidente o esticanço para baixo já vá longo e mais cedo ou mais tarde tenhamos subida! 

Na Bolsa não existe nunca o suficientemente barato nem o suficientemente caro. Como fomos frisando ao longo do tempo de existência deste espaço, quem vende em Bolsa não o faz por achar que está caro, mas sim porque acredita que pode recomprar mais barato; da mesma forma, a grande maioria dos que compram fazem-no porque acham que poderão vender mais caro e não porque pensam que está barato. Nesse sentido, se os investidores acreditam que há margem para mais descidas, vão vender e o preço vai descer, independentemente de considerarem que está barato ou caro. É verdade que, aqui e ali, vão ocorrer ressaltos porque a opinião das massas é volátil e o investidor reage a impulsos que estão o mudar à velocidade da mente humana. Mas quando uma determinada tendência de queda se estabelece é norma os ressaltos serem oportunidades para os retardatários aliviarem o peso da carteira que ainda mantêm.

O PSI20 está a 2,3% de entrar na zona em que tudo se decide (assinalamo-la com um retângulo laranja no gráfico seguinte):


Francamente, estando o índice sobrevendido (vejam o RSI na parte inferior da figura), e sendo o suporte tão relevante, não antecipamos que possa acontecer quebra dessa zona sem que pelo menos haja um ressalto. Aliás, se esse ressalto não ocorrer vamos passar diretamente para Bear Market e entregar definitivamente a Bolsa aos curtos, o que significa que teremos telejornais a abrirem outra vez com péssimas notícias da economia e quiçá o Governo a pensar demitir-se. Portanto, se não forem especialmente impressionáveis e aguentarem ver o vosso dinheiro correr risco de ser violentado, é possível que venham a estar reunidas as condições para poderem começar a construir uma carteira para dar alegrias até maio do próximo ano!

Por que motivo isto sucedeu, perguntam vocês? Por que motivo está o PSI20 a esfrangalhar-se quando a economia parece finalmente estar a melhorar e não temos a crise da dívida soberana de há dois anos nem a irrevogável demissão do ano passado (recordar aqui)?

A Bolsa cai sem que haja um motivo, porque a verdade é que há sempre quem saiba mais do que nós das maroscas que se estão a aprontar e vai vendendo devagarinho. À posteriori tudo acaba por fazer sentido e olhando para atrás acaba por ser relativamente fácil compreender o comportamento das cotações. Na verdade, somos tanto melhores investidores quanto mais cedo conseguirmos entender que vem aí borrasca. E é aí que a análise dos gráficos dá uma ajuda imprescindível. 

Agora, já é possível compreender que a situação é realmente séria ao ponto de justificar a quebra da SMA200 que despoletou todo este alvoroço. Tal como assinalamos no dia em que a PT pôs a boca no trombone (ver aqui), havia risco real de o GES incumprir. E isso aconteceu efetivamente (ver aqui). E se for verdade o que hoje noticia o expresso, o incumprimento pode ser maior do que tem vindo a ser admitido (ver aqui):

Quando uma empresa ligada a um grupo tão importante como é o BES entra em incumprimento, temos um problema sério. A confiança é abalada de uma forma que é muitas vezes irreversível e estamos em crer que é possível que os investidores pensem que a aversão ao BES contagie muitos outros setores da economia portuguesa e inclusivé a dívida pública. E só esse facto faz deste acontecimento uma situação tão grave como a criada pelo nosso MNE no ano passado.

Não se esqueçam, no entanto, que os grandes suportes são também os pontos de entrada capazes de fazer milionários.Como sempre na vida, para grandes riscos estão guardadas grandes recompensas, desde que haja o estômago firme o suficiente para aguentar estes solavancos. Pelo menos, não somos brasileiros (aqui). 

Há um ano foi assim

O anarquista Anselmo integrou-se no lote dos que andaram a apitar pelas ruas da cidade no dia em que o governo se suicidou. Rejubilou, rejubilou, rejubilou e o chuto de adrenalina foi de tal ordem que, no dia seguinte, apercebeu-se de que tinha ficado com o carro todo amassado. Pelos vistos, tinham-se posto aos saltos em cima do capô e do tejadilho como é costume fazer-se quando o FCP é campeão, de modo que a demissão do MNE saiu-lhe do bolso como se o nosso amigo investisse na bolsa. Natário, o agrimensor, não se deixa entusiasmar de forma tão espalhafatosa, mas está em crer que uma deserção desta monta só se justifica se o motivo for de força maior. O Gasparinho das finanças, por exemplo, foi cuspido no supermercado, coitado do homem, por certo bisca verde da de pior qualidade, e não admira que se tenha posto a bulir. Gosma lançada de mais de três metros que tenha o virtuosismo de acertar no alvo desmoraliza, em princípio de forma irrevogável, quem costuma falhar previsões. Já ao Portas (PP) não consta que tenham atirado caca ou tentado acertar o passo, e nem sequer a uma grandolada teve direito, pelo que a birra deve ter sido provocada por uns acepipes picantes que marcharam na visita de estado ao México, na semana anterior, e que lhe chegaram fogo ao rabo. Do Natário vou bater à porta do Tavares, cuja opinião consulto antes de me pronunciar em definitivo. É que eu próprio tenho o meu painel de comentadores privativos, que me ajudam a fazer uma leitura infalível dos acontecimentos, de modo que quando chego a consenso comigo mesmo já fiz a via-sacra da oscilação mental sem ter a trabalheira de passar horas a ouvir comentadores televisivos. É um sistema bem mais económico em termos de queima de neurónios, que não me importo nada de partilhar convosco. Do ponto de vista do Tavares, estamos em presença de uma daquelas jogadas geniais, apenas ao alcance dos politiqueiros que leram Maquiavel. E elabora: de uma só vez, o nosso irrevogável desertor verga Passos, ajoelha Cavaco e põe os da troika com os olhos fora de órbitas. De bónus ainda faz tremer os mercados mundiais, coloca em perigo as economias e o emprego de muito boa gente e estabelece um novo paradigma para a definição de loucura. No final, os índices que quantificam o grau de vaidade de um indivíduo devem ter atingido valores tão extravagantes que PP estará muito perto de ficar paralítico com os tiques. Orlando, o cético, chega-se à frente e começa a desfiar um rosário de queixas que Passos e Portas têm um do outro e que os fazem ter razão em se odiar mutuamente. Mas eu não estou para o ouvir e despeço-me dos trengos dos meus consultores com a minha ideia feita. Deprimido e com vontade de mandar a racionalidade às urtigas e pensar à moda antiga, puramente de forma emocional, selvagem e instintiva preparo o raspanete que se segue. O que se passou na semana passada foi exemplar da forma como nós somos governados há séculos e do pouquíssimo respeito que o povo português merece a esta gente que vamos pondo no poleiro. E não tenham dúvidas de que somos um povo pobre porque nascemos com o infinito azar de fabricarmos governantes que não têm sentido de estado absolutamente nenhum. Gente que se borra toda se alguém lhes vai um bocado à gamela, mas que é perfeitamente inconsciente do enorme rombo que têm causado na vida de cada um de nós. Ou talvez não seja azar. Na verdade, é altamente provável que o PP ou o PC sejam da mesma estirpe do anarquista Anselmo, que leva tudo no pagode e passa o tempo numa alucinação revolucionária que pulveriza a realidade, ou dos outros meus amigos que vivem da procura de explicações apaziguadoras quando o que está em causa é a mais límpida das traições, um caso flagrante de pena capital, pelotão de fuzilamento. No dia em que este texto chegar às bancas é bem provável que estes estafermos já nos tenham colocado em pleno processo de lavagem cerebral coletiva e andem a convencer-nos de que a garotada da semana passada mais não foi do que um deslize, um arrufo sem importância, natural e inconsequente. Que esta trupe ainda tenha cara de pau para nos vir exigir sacrifícios, e que alguém lhes ligue peva, é a prova definitiva do povo de brandos costumes que nós somos, mas é também o motivo porque continuaremos a ser desgraçadamente mal governados.