21.11.14

E os americanos

Enquanto o PSI20 cozinha em lume lento, como tem por hábito fazer, o seu próximo movimento digno de atenção, manda o bom-senso que entreguemos o nosso dinheiro a quem lhe saiba fazer outro tipo de mimos.

Está toda a gente à espera de queda americana e que essa queda magoe os índices europeus. É um pensamento legítimo e que faz sentido, mas eu estou em crer que é prematuro. Os dados da economia estão a sair rebarbativos: não sei se ontem se aperceberam da autêntica explosão do PhiliFed (o índice da atividade industrial na zona de Filadélfia), que saiu num valor tão acima do esperado que eu não tenho memória de tal acontecer. Por outro lado, o gráfico do S&P500 mostra que ainda há espaço de subida, sem tomar ar,  até aos 2070 pontos e não parece mal arredondar para um número redondo como, por exemplo, os 2100. Ora confiram s.f.f.:


As quedas é evidente que aparecerão, mas que o dinheirinho está muito mais crescidinho desde que anda a tomar desde tipo de pastilhas é um facto que não sofre contestação!

19.11.14

A vez dos europeus

Os dados do sentimento económico do ZEW, publicados ontem, foram verdadeiramente explosivos e mostram que a economia europeia e, de forma particular, a alemã, continua a manter viva a esperança de que a situação se venha a compor nos próximos meses. E é preciso não esquecer de que estes dados positivos seguem-se a duas séries de números muito preocupantes, publicados no mês passado e no início deste mês, respeitantes às encomendas à indústria, que pareciam particularmente afetadas pela crise ucraniana. Para além de ter saído muito acima das expetativas, marcando um valor de 11,0, quando se esperava 0,9 o índice, que resulta de inquéritos realizados junto de 350 investidores de peso e analistas alemães, voltou a terreno francamente positivo, indiciando dessa forma um regresso do otimismo à maior economia europeia.

Indiferente aos números não ficou o índice alemão, o DAX, que ontem quebou a barreira dos 9400 pontos e hoje ensaiou um primeiro ataque à SMA200:


Esta noite saem dados relativos às compras à indústria na China que costumam marcar a abertura das bolsas europeias e, por volta das 8:30 de amanhã temos os números para as encomendas de novembro à indústria da construção na Alemanha. Se vierem confirmar o otimismo da leitura do ZEW podemos ter esperança num rally natalício também do lado de cá do oceano.

12.11.14

BCP

A queda do BCP impõe uma análise ainda que sumária. 

Que o banco está bearish desde que o PSI20 ursalhou é um facto. Que o BCP a valer quase 4000 milhões de euros, atendendo ao contexto, parece uma exorbitância é uma evidência. Que a falência do BES criou uma pressão sobre a banca que se sobrepôs muito aos ganhos por transferências de capital parece cada vez mais nítido. Que depois de a PT ter dado milhões a ganhar aos curtos, é o BCP que está mais a jeito para vender a descoberto também já não é novidade (o nosso índice tem sido uma alegria para quem gosta de andar a martelar ações e vai ser difícil fazê-los desgrudar, tanto mais que muitos estão com a mão quente) e não me parece existirem dúvidas de que há saídas da operadora que estão a servir para vergar o banco. O fecho de balcões do BBVA e o plano de reestruturação anunciado ontem vieram confirmar que o negócio no nosso país continua difícil, e a notícia da multa de 3000 milhões aplicada a vários bancos europeus compôs o ramalhete que colocou o Millenium em mínimos de finais de novembro do ano passado: em 1 ano subiu um máximo de 100% e agora torrou tudo! Um autêntico casino, servindo-nos de triste consolo apenas o facto de terem sido os excelentes gestores da Blackrock (que também abicharam na falência do BES) a fazer o máximo anual! Já nem devem ver o chão que pisam, coitados! E o mais incrível da coisa é que o Mário Draghi já anda de bazuca na mão e ameaça pegar na bomba atómica e pô-la a fazer euros! Se o bicho não reage com este tipo de artilharia, não estará na altura de voltarmos a rezar?

O que esperar daqui para a frente? Deixemos os gráficos falar:



A linha vermelha está nos 0,065€ e é O suporte mais do que evidente. Não nos parece que haja arrojo para o atirar abaixo desse muro já de seguida, tanto mais que o RSI caminha para sobrevendido e há ali a base de um canal que tem servido de mola em várias ocasiões, de maneira que acreditamos que possa haver um ressaltozito por esses valores. De qualquer das formas, foi um bocado assustador assistir ao ataque dos ursos hoje e notou-se que quem vendeu ainda tinha mais para vender. Em suma, e para aligeirar: eu não queria mesmo nada estar na pele dos meus amigos que têm BCP!

11.11.14

Casanova

O mais feliz dos homens é aquele que melhor conhece a arte de se tornar feliz sem prejuízo dos seus deveres; e o mais infeliz é o outro que abraçou um estado em que se acha todos os dias, de manhã à noite, na triste obrigação de prever.

Estas palavras foram escritas por Giacomo Casanova, no final do século XVIII. Casanova é muito injustamente conhecido apenas pela sua libertinagem, já que o livro de memórias que nos deixou (História da minha vida) contém muito mais do que a narração de um conjunto de aventuras amorosas cuja obrigação de prever faziam, nas suas palavras, a infelicidade do homem. A vida de Casanova é a vida sem fim, plena de excessos e de ensinamentos e a sua obra é um manual sobre a arte de viver apaixonadamente, mas sem perder de vista a lucidez e a racionalidade. A infelicidade daqueles que abraçam o estado em que se vêem permanentemente na contingência de prever pode ser a dos que andam nos mercados, tentando ser adivinhos ou procurando ferramentas que permitam adivinhar. E a felicidade dos que cumprem os seus deveres mantendo-se felizes é também o objetivo dos que andam na bolsa não para acertar sempre, mas para ganhar dinheiro. Tal como Casanova percebeu, o mundo é muito mais complexo do que nos fazem crer os nossos rudimentares órgãos dos sentidos e a confusão que se gera na nossa mente quando não compreendemos que não é possível prever é, de facto, a maior fonte de frustação que conduz à infelicidade e ao desânimo.


Não se esqueçam de que nada mais há nos mercados do que pessoas que compram e vendem. Umas porque analisam e decidem, umas vezes bem e outras mal. Quando decidem bem, ótimo, e quando decidem mal, corrigem, sofrem até ao fim do dia e depois seguem em frente. Outras, talvez a maioria, andam nos mercados a fazer previsões. Casanova achava que estes eram infelizes.

9.11.14

A OPA sobre a PT

A OPA acabada de lançar pela Isabel dos Santos sobre a PT é, acima de tudo, uma oferta por uma fatia de 25,6% da Oi mais os 900 milhões que estão enterrados na Rioforte.

A preços de fecho de sexta-feira a posição da PT na Oi vale cerca de 830 milhões de euros, pelo que a oferta da empresária angolana de 1,21 mil milhões assume à partida uma perda de 520 milhões com a dívida da Rioforte ou se quisermos um prémio de 380 milhões, visto que é certo que o dinheiro entregue aos espíritos santos deve ficar para sempre na companhia dos anjos no paraíso celeste.

A jogada da dos Santos é exemplar (ficamos para já sem saber se chutou para canto os azevedos da Sonae), pois dá a Angola a primazia em termos de comunicações em língua portuguesa. De uma assentada conquista o mercado português e entra no Brasil, criando o tal operador global de que falava o Zeinal Bava. E tudo isso a preço de saldo (para já)! Os mercados como partida de xadrez. É por isso que nós gostamos tanto disto!

A Oi fica aparentemente mais tolhida de movimentos, já que a venda da PT Portugal deixa de ser trigo limpo farinha de amparo, mas estamos em crer que a valorização da PT deve ser suficiente para que o stress não se note. Já os da Altice, que estavam filados na compra da operação portuguesa lixaram-se com efe porque o negócio, pelo menos de momento, deixou de ter razão de ser, já que a administração portuguesa ganhou um trunfo para justificar o veto junto dos brasileiros.

E a nós, o que nos pode tocar?

Começamos por dizer, para início de conversa tão séria, que nós aqui no NeB não possuímos, neste momento, qualquer posição nem na PT nem na Oi (embora gostássemos de estar do lado certo), como de resto é apanágio da casa quando fazemos qualquer análise específica. 

Aparentemente, isto é apenas o tiro de partida e não nos parece que demore muito a que mais gente endinheirada perceba que a negociata se faz em três continentes, o que não sendo inédito é de certeza raro. E tudo o que é raro é caro! Temos portanto negócio capaz de abrir o apetite ao mais enfastiado (e endividado) dos tradicionais concorrentes, a começar, quiçá, pela TIM. 

Acresce um facto que pode levar as cotações para bem acima do preço oferecido pela D. Isabel. A PT tem sido nos últimos temos zona de caça de ursos e, da última vez que verificamos, a posição curta na ação não era despicienda. Ora, com a oferta em curso a cotação passou a estar mais ou menos escorada nos 1,35€, o que retira interesse curto no título pois é pouco provável que haja valorizações expressivas para quem se encontra vendido. Está na hora de os curtos, que têm ganhos elevados, fecharem posições e partirem para outras paragens onde as quedas sejam mais eminentes, pelo que pode haver short squeeze

Estaremos a ver mal ou amanhã é dia de compras?

O curso do Império

Durante os 3 anos que se seguiram a 1833 o pintor americano Thomas Cole dedicou-se à criação de O curso do Império, um conjunto de cinco telas que representam uma mesma paisagem que passa pela ação da mão humana. 

 O estado selvagem

O estado pastoral

Consumação

Destruição

Desolação

Uma das vantagens de jogar em bolsa é o facto de adquirirmos esse bem precioso que é o de deixarmos de estar sujeitos ao curso do império. Bull ou Bear havemos de nos safar sempre!

8.11.14

Interstellar

De formação específica sou um pouco astrónomo e foi daí que me veio o grosso da humildade e da racionalidade que só é possível ter-se depois de perdermos o gás dos vinte anos. Duas "dades" sem as quais, é bom que se diga, na bolsa nada feito. Nas minhas aulas sempre digo aos alunos que há mais estrelas no céu que grãos de areia em todos os desertos da terra. Fazemos conta ao número de grãos dividindo a soma da área dos desertos vezes uma profundidade razoável pelo volume médio de uma pedrinha, quatro terços de pi erre ao cubo. O número de estrelas não se conta, mas obtém-se dividindo a massa de uma galáxia, que se consegue medindo o seu tamanho e a velocidade de rotação, pela massa de uma estrela média que se tira da lei da gravitação universal. Tão simples que se faz com chavalada de quinze anos. E chegamos a números que deixam a turma de boca aberta. É um regalo!


No filme Interstellar, do cineasta Christopher Nolan, que estreou esta semana nos cinemas, a Terra deu para o torto e é preciso debandar para outras paragens. Eis quando surge, ali para as bandas de Saturno, um buraco de verme (no filme explica-se muito bem o que é e no fim ficamos a saber quem lá o pôs), que desagua junto de doze planetas que orbitam um baita buraco negro de uma galáxia distante. Para lá é o caminho para a população terrestre que sobra do cataclismo, mas antes há que enviar exploradores para decifrarem qual dos 12 é o planeta correto para nos implantarmos. Na confusão, os artistas põem-se a discutir se é melhor salvar o povo que já vive ou se é de optar pela solução bem mais económica de levar ovos fecundados e embalados para que nasçam pessoas novas quando o novo planeta estiver operacional. Pelo meio, a teoria da relatividade é chamada às lides e ajuda a enfeitar o ramalhete com uns desafios colocados pela distorção temporal que sempre dão para excitar a mente e aliviar de um certo torpor que se pode instalar (3 horas de cinema!). A história é comezinha mas como não houve poupança nos efeitos especiais, o resultado é um espetáculo cinematográfico que enche o olho. No conjunto, acaba por valer bem a pena, quanto mais não seja por nos espicaçar a mente para refletirmos sobre as nossas origens e o nosso papel no meio desta imensidão.


Essa de imaginar os humanos a terem que abalar porque o planeta se tornou inabitável ou vem um asteróide a caminho é velha como a sé de Braga, mas padece de uma inocência que só pode mesmo ter brotado das mentes hollywoodescas. Se a Terra deixasse de servir, não estou a ver que nos puséssemos de acordo sobre a forma de resolver o problema, e era uma sorte se antes não embarcássemos numa guerra mundial que apressasse o  grand finale. E nem sequer estou a levar em linha de conta com o facto de a nossa tecnologia estar tão pouco acima da da época das cavernas que nem hipóteses tínhamos de fugir para a Lua. 


Se a ideia de que exorbitância de lugares no cosmos serve para nos abrigarmos num cantinho quando o fim do mundo se aproximar não passa no crivo de uma análise mais atenta, que outro motivo haverá para tão estrambólica cópia de sítios para viver? O meu palpite pode ser resumido na negação de uma frase famosa: viver não mata. Haverá pontos do espaço-tempo em que a vida evoluirá até que surja uma espécie imortal e inteligente, que crescerá exponencialmente e colonizará todo o espaço disponível no universo. É por causa disso que há moles de estrelas: para haver espaço suficiente para toda essa gente sortuda e magnífica. E haverá hipótese de essa espécie vir a ser a humana, partindo do princípio de que daqui por algum tempo encontremos a cura para a morte e desenvolvamos mais tecnologia que não apenas gadgets? Nisso nada mando, mas pelo andar da carruagem temo que vá ser mais fácil vir de lá um asteróide para tentar de novo!

 

7.11.14

A próxima falência

Com a falência do BES foi-se-nos a inocência e nunca mais voltaremos a ser os mesmos. Em matéria bolsista, bem entendido. Afinal de contas, as empresas cotadas em bolsa também podem falir e levar-nos a carteira a zeros num abrir e fechar de olhos. E se até mesmo um porta aviões de empresas como era o banco salgado vai ao fundo, o que poderá salvar as empresas sobreendividadas que pululam por esse país fora? 

Das que estão cotadas na nossa bolsa, sabemos que, tirando uma ou outra exceção, todas estão com a corda na garganta e se o torniquete apertar escafedem sem apelo, porque longe vai o tempo em que o refinanciamento de dívidas era garantido, mesmo para as que apresentavam prejuízos sucessivos.

Esta semana vimos como o Eng. Belmiro colocou a SONI na sala de suporte básico de vida. É correto dizer-se que ainda não estamos perante uma falência, mas do ponto de vista dos acionistas só se vêem diferenças de pormenor. Com a diluição do AC a empresa regressa à origem e passa a ser novamente a sociedade (nacional) de estratificados da Maia. Lá se foram os galões de maior empresa do ramo no mundo inteiro. Má onda para quem apostou nas madeiras e não seguiu as normas inalienáveis da negociação em bolsa.

Mas a SONI ainda tem a segurá-la gente com dinheiro mais do que suficiente para evitar a vergonha da falência e, com mais ou menos dificuldade, não há de constituir problema de maior para o restante mercado.

Caso diferente é o da Martifer que, ou muito nos enganamos, ou está mesmo a caminho de fechar portas. Vejam se o gráfico semanal que apresentamos a seguir não é o de uma empresa mais do que falida:


A Martifer é um caso típico da megalomania lusa. Uns fulanos criam uma empresa de estruturas metálicas, em 1990, que vendem em bolsa em 2007, com o objetivo de a tornar num dos maiores players mundiais de uma coisa diversificada, que vai do core business original às fontes de energia renováveis e alternativas. Enfim, a nossa velha sina de querermos ser sempre os maiores do mundo, nem que para isso não passemos do piolhinho lá no topo da cabeça do gigante que nos financia! 

Quando o preço do petróleo subiu aos 150 dólares o barril, os irmãos Martins entraram na busca histérica pelas fontes de energia alternativas e dispararam em todas as direções como se fossem génios que iam inventar o que mais ninguém conseguira. Se tivessem estado atentos na escola, contando que tivessem um professor de FQ em condições, tinham aprendido que o petróleo se tornou na fonte de energia universal por ser de longe a mais barata (mesmo com um preço de 150 dólares o barril) e, quiçá (heresia) a menos poluente. Mas eles meteram-se mesmo em tudo quanto é fontes de energia caras, desde o solar, às eólicas e aos combustíveis feitos de cereais. Uma burrice sem fim, em que só cai quem é burro! Paralelamente, a Martifer foi roubada sem jeito em negócios de compra e venda de terrenos e em obras mal adjudicadas, mal orçamentadas e sem garantias de virem a ser pagas.

Lembro-me de comprar Martifer na IPO quando a empresa era tida como um exemplo do novo empresariado português. As ações foram vendidas a 8 euros, o que avaliava a empresa em 800 milhões. Quando a negociação abriu fui dos que consegui vender no máximo histórico de 12 euros. E foi tudo o que se consegui ganhar na empresa de Oliveira de Frades. Felizmente, tinha pessoas amigas que trabalhavam na Polónia (de onde a empresa já saiu) e me iam dando conta da barafunda que ia na cabeça dos génios Martins, e pus-me ao largo.

Se a Martifer falir, e dá-me a ideia que nem santo nem santa lhe vale, lá se vai outra vez o nosso índice reputacional (e, se calhar, o índice PSI20) cair para a lama, porque há bancos muito atravessados na empresa e não vejo de onde possa vir capital para a sanear. Já agora, tenham muito cuidado com as ações da Mota Engil, cuja reputação vai sofrer com toda a certeza.

31.10.14

O roubo

É uma arte que só se encontra ao alcance dos melhores negociar um índice que se encontra em zona de achaques como é o caso do PSI20. Ainda ontem, por esta hora, estávamos todos varados a tentar perceber de onde diabo tinha saído a ordem para um panic sell. De nenhures, bem entendido, mas o engano custou-nos um abalo no coração que se vai refletir de certeza na nossa qualidade de vida quando passarmos à idade da reforma. O que vale ao nosso índice campeão dos preços baixos é que os americanos vão encarreirados para máximos, e isso vai tornando cada vemos mais tentador colocar dinheiro em índices bearish, contando que mais cedo ou mais tarde a ursalhada hiberne. E o bearish por excelência temo-lo nós! É produto nosso e quem o quiser vai ter de vir cá acudir! É esse o nosso trunfo.

A zona de achaques do PSI20 situa-se abaixo dos 5300-5350 pontos. Abaixo desses valores, a coisa só se recomenda a corações fortes, havendo risco de despenque até aos 4450! Daí para cima, vamos contar que haja panic buy que projete rapidamente o maluco até aos 5750-5800. Confiram com os gráficos:



Há um aspeto que torna o PSI20 um caso especial entre os bearish. O índice não se pôs tão feio por a economia estar especialmente má, nem por os resultados das empresas estarem a sair piores que o esperado. Aliás, entre as empresas que compõe o índice há algumas que têm valorizações anuais interessantes, como é o caso da EDP (25%), da Renováveis (33%) ou do BPI (26%). O que rebentou connosco foi a tremenda desvalorização de 3 empresas que tinham um peso bastante grande na ponderação da cotação do índice. Falamos, evidentemente, da JMT (-50%), da PTC (-62%) e do BES (-100%).

O caso da JMT explica-se muito facilmente. Trata-se de uma empresa que estava sobrevalorizada porque havia a expetativa de que a Polónia era a galinha dos ovos de oiro e que a gerência da JMT era uma espécie de administração "Steve Jobs" das mercearias. É certo que os do Pingo Doce acertaram no joaninha (Biedronka) na Polónia e beneficiaram do facto de a concorrência se manter demasiado tempo agarrada a modelos errados. Também os ajudou o facto de o Alexandre Soares dos Santos aparecer na televisão a dar-se ares de grande conhecedor do mundo dos negócios e intrépido defendor das virtudes do self made man que ele nunca foi. Foi assim que, no ano passado, a JMT chegou a valer em bolsa mais de 7000 milhões de euros, ao passo que a Sonae (para usar como comparação uma empresa com um ramo de negócio similar) não passava dos 2000 milhões. Argumentava-se que a Sonae tinha um dívida maior e resultados mais baixos, mas, caramba, a Sonae não tem só supermercados e é muito mais internacionalizada. Daí que a queda da JMT só seja estranha a quem anda na bolsa a dormir ou por ver andar os outros. Quando as dificuldades apareceram e veio ao de cima a tremenda concorrência que existe no negócio da distribuição (veja-se o que acontece em cada uma das nossas cidades), começou por esvaziar o balão das expetativas e deu-se o ajuste à realidade, para logo em seguida começar a encher o balão do "isto é uma porcaria sem fim" que vai continuar a empurrar a cotação da Jerónimo em direção a novos mínimos.

O BES e a PTC são dois casos diferentes e deles já aqui falamos abundantemente. Tanto uma empresa como a outra foram alvo de saque a uma escala que só é possível em países sem estaleca como é o nosso. Foram dois roubos como não houve outros na épica história lusa. Quem foram os estarolas que se abarbataram com o pilim não vos posso aqui revelar (eu não fui) porque ao contrário deles ainda arranjo de ir preso, mas tomem nota disto que vos dizemos porque não haverá quem vos seja tão franco: foi tudo roubado e nada do que se passou foi incompetência ou inocência. Se analisarem como se resolveu a cena do BES Angola, vão perceber como este país foi e continua a ser saqueado por um comando de engravatados. Vão perceber por que motivo cada um de nós pode lutar o que quiser, estar tão preparado quanto é possível e agarrar todas as oportunidades que lhe apareça pela frente que, mesmo assim, a ganhar ordenados jamais sairá da cepa torta. Se se informarem sobre a forma como se desfez a PTC, vão compreender por que motivo os nossos filhos vão ter que emigrar para se safarem e a nós vão-nos continuar a castigar com a ameaça de corte nos salários, despedimento, bancarrota. A queda do PSI20 não é provocada por uma guerra insana como na Rússia, nem pelo gosto pela boa vida dos gregos. Nós somos um povo pacato, o mais deprimido e triste da Europa. Estamos dispostos a trabalhar à bruta por um ordenado de miséria e ouvimos as cantigas que põem a tocar no telejornal como se fossem cantigas de amigo. E assim entretidos e conformados vamos sendo roubados de uma forma que não existe em mais lado nenhum do ocidente. A queda do PSI20 foi provocada pelo roubo. E eu, em 20 anos que levo de bolsa, nunca tinha visto um índice que caísse tanto, nos países ocidentais, por causa de larápios!

23.10.14

Jogar na bolsa

O meu amigo Tavares sempre acaba os discursos com uma lista das vantagens de jogar na bolsa. Se fosse quando eu era chavalo mandava-o foder na hora porque me parecia inadmissível que se utilizasse o verbo jogar em vez dos muito mais solenes negociar ou investir, mas agora que o peso dos anos já me verga e estou numa de deixar a conversa fiada para trás, acho mesmo que isto é um joguito que nós para aqui temos. E já chego ao ponto de fazer ponto de honra em assumir sem rodeios que a bolsa não passa do meu petit casino e, desde que lhes deu na cabeça para inventar os smartphones, ando tão entretido com a jogatana que, de forma paradoxal, volto a sentir-me chavalo de novo! E que bem me sabe deixar para lá o peso de palavras como investimento e abraçar o jogo pelo jogo com touros e ursos como adversários. Demais a mais, com uma probabilidade de acerto às cegas de 50% não se pode dizer que o jogo seja fatela, sendo que muitas vezes se ganha quando se começa por perder o que, parecendo que não, torna a pipoca bastante mais doce. Bem vistas as coisas, chega a ser cómico forçar o verbo investir, porque quando se investe parte-se do princípio de que nos propomos criar valor, emprego, produtos, serviços, etc., e que peva criamos nós ao arriscar o nosso pilim na bolsa? Só se for aquela parte que passamos para as mãos do fisco quando nos calham mais-valias e também é possível que se entenda que o investimento está numa fase posterior quando, depois de se ganhar dinheiro no jogo da bolsa, se canalizam recursos para atividades produtivas. Claro que eu não conheço ninguém que, depois de aprender a fazer dinheiro sem trabalhar jogando na bolsa, lhe dê na cabeça pôr-se com ideias de investir numa caca produtiva. Valha a verdade que isso só acontece se o indivíduo estiver passado dos carretos e nem é preciso irmos aos gurus dos mercados para ver que nenhum teve a fraca ideia de se pôr com canseiras depois de dar umas tacadas acertadas no jogo da bolsa. Quando muito, pode haver quem pense que investimos quando participamos em aumentos de capital e entregamos o nosso cacau a gestores que sabem muito mais do que nós e não se importam de ter a trabalheira de criar valor, mas creio que não preciso de fazer um desenho para que aqueles que vão teimando nesta forma de investimento percebam que, mesmo nesse caso, tudo não passa de um jogo em que só ganharão se tiverem uma sorte estupenda! De maneira que agora, quando o Tavares me vem com a lista das vantagens de jogar na bolsa, já não me ponho a fazer orelhas moucas como se ele fosse um indíviduo que não percebesse nada do assunto, mas ouço-o com toda a educação e tento aprender para não me estender ao comprido tantas vezes. Da lista de vantagens já aqui demos notícia, pelo que só precisam de procurar no arquivo se estiverem mesmo interessados, mas há uma que acho pertinente ao ponto de voltar a escrever sobre ela. Assegura-nos o Tavares que a bolsa nos leva a viver de forma mais despreocupada e desafogada. How come?! Ora, se estás nos mercados porque te hás de preocupar em pagar uma tainada aos amigos de vez em quando ou gastar uma dinheirama numas excentricidades aqui e ali se podes perder ou ganhar muito mais do que isso numa reles jogada? O que te impede de pagar aquele casaco de polipele à Maria se tens o que ele custa preso numa variação de décimo de cêntimo do BCP? O que te impede se, ainda por cima, isso tornar o ambiente lá em casa mais propício a que se cumpram os regulamentos em matéria matrimonial? E o que te impede de ficar calado se o BCP arriar e abichares com um prejuízo no valor de vários casacos? Tudo a ganhar, portanto, e não há melhor jogo do que este para a harmonia do lar, desde que se cumpram as regras do mais elementar bom senso: engrandecer os pequenos acertos e calar nas grandes derrotas. Numa palavra: sensatez. Se assim for, assegura-nos o meu amigo Tavares, o jogo só tem vantagens, ainda que umas noites mal dormidas possam constituir um mal necessário. Não há bela, etc. Eu fico-me a pensar que pode haver aqui salvação para aqueles que ainda sofrem com a bolsa não ser mais do que um jogo. Ao jogarem ficam livres para encherem a casa de quinquilharia alegrando a economia, criando emprego e contribuindo para a redução do défice via IVA. O que é isso se não investir? É-o e já demonstramos que sim.

19.10.14

Russell2000 - Um barómetro



Depois de uma semana atípica, para aquilo que têm sido os últimos tempos, já se ouvem ecos de normalidade. Jim Cramer já anunciou na CNBC que pode-se de novo comprar ações. Uma vista de olhos pelos principais sites americanos sobre a bolsa e respira-se o mesmo otimismo. Quem somos nós para duvidar de Jim Cramer, mas um sinal fez-se notar neste ultimo mês, que, a ter sido percebido mais cedo, poderia ter sido útil para otimizar em warrants as quedas verificadas.

De facto, bem antes de todos os índices terem vindo por aí abaixo, o Russell2000 (súmula das cotizações das 2000 mais importantes small caps americanas), um “parente pobre” das estrelas S&P500 e DJIA, mergulhou de nariz, e, durante alguns dias parecia que ninguém ligava a isso. Aconteceu que os outros lhe seguiram as pisadas e, na semana passada, o ressalto foi anunciado com antecedência pelo Russell. 

Provavelmente, atingimos o fundo nesta correção, como o anunciaram este fim-de-semana alguns dos gurus da bolsa, mas o que é certo é que o Russell não acompanhou o otimismo dos outros índices no fecho de sexta-feira. Provavelmente indica unicamente que a subida não vai ser feita a todo o gás, mas convém estar atento para o comportamento do Russell e dos outros, a ver se a tendência de chefe de fila se mantém na subida.

16.10.14

Haverá ressalto?!

Neste momento, estamos todos com o dedo no gatilho para entrar e ao mesmo tempo com um caguefe dos diabos, não se vá dar o caso de a coisa despencar mal tomemos conta das ações que outro mais fino nos passar para as mãos. É a velha história do medo e da ganância: ninguém quer deixar fugir o bicho, mas também não estamos nada para ser atropelados pela infantaria. Se é que me entendem!

O que é certo é que o nosso índice de referência, que hoje conseguiu reassumir o segundo lugar nas piores bolsas mundiais (tinha-o perdido ontem para os gregos), leva quase 6% de queda semanal e está tão estrambolicamente sobrevendido que vai ser difícil justificar que amanhã não suba para desanubiar. Aliás, historicamente, são muito raras as vezes em que o RSI (indicador que mede a força relativa de um ativo) atingiu um valor tão baixo quanto o verificado hoje. Curiosamente, duas dessas vezes deram-se este ano, como podem ver no gráfico seguinte:


Num gráfico desde 2008 contamos 6 vezes em que o PSI20 esteve tão sobrevendido (medido em termos de RSI) quanto hoje e em todas elas deram-se ressaltos de pelo menos 5%. Neste momento, um ressalto dessa amplitude colocaria o índice na zona dos 5150 pontos, mas acreditamos que pode haver margem para uma subida a ir retestar os 5320 pontos (quedas bruscas dão também direito a subidas a rasgar). Claro que não é possível perceber se o ressalto se dará já amanhã ou daqui por mais algumas sessões, mas o comportamento dos restantes índices europeus e dos juros da dívida no final da sessão levam-nos a pensar que não somos os únicos com a ideia de que uma queda semanal de 6% é, pura e simplemente, um disparate!

Deixamo-vos também o gráfico do DAX, que hoje conseguiu fechar positivo, para que possam ver como os suportes funcionam e, em conjunto com um situação de sobrevenda (inédita no DAX desde 2011) podem espoletar uma mudança de sentimento no curto prazo.


Aliás, na nossa opinião, o comportamento do PSI20 nos próximos tempos vai estar fortemente dependente do que se passar nos restantes índices mundiais, sendo certo que o nosso índice tem historicamente uma grande tendência para antecipar as quedas e reagir ao retardador nas subidas. Nesse sentido, cremos que uma quebra do suporte dos 1815 pontos no S&P, que será acompanhado, sem dúvida, da quebra do suporte que marcamos no DAX, pode colocar o PSI no caminho dos 4400 pontos que já assinalamos num gráfico algures! Mas isto já são muitas conjeturas e o que nos interessa é o que se vai passar amanhã e no início da próxima semana!

Quanto a dados para amanhã, atenções para o mercado imobiliário americano e também para um sempre importante índice do sentimento dos consumidores publicado pela Universidade do Michigan que vê a luz do dia quando faltarem 5 minutos para as 3 da tarde.

Evidentemente, nenhum ressalto ressuscita o tourito, nem nada que se pareça, e todas as entradas têm de ser feitas com a parcimónia de quem não quer andar a fugir com as calças na mão. E é claro que há a possibilidade de a nossa conjetura não deixar de ser um mero caso de wishful thinking. Bem vistas as coisas, o facto de estarmos a falar em ressalto é bem capaz de ser sintomático de ainda não haver pânico suficiente para que ele ocorra. Bem, que se foda!

Amanhã saberemos melhor. Bons negócios para todos.

Explicações para o caos

Não há dúvida de que está toda a gente meio atordoada com a forma como tudo de repente se complicou tanto. Ainda ontem estava a ouvir a ministra das finanças a apresentar o OE do próximo ano e não pude deixar de pensar como tudo aquilo que estava a ser dito ficou desatualizado desde o dia da famosa reunião das 18 horas (quem ainda tem dúvidas é ver aqui). É evidente que todo o governo sabe disso, longe de nós de o pormos em dúvida, mas o nosso ponto é que este orçamento de estado é sintomático da forma como ninguém se apercebeu de que isto ia piorar tanto.

E por que motivo estão os números da economia a revelar uma fragilidade repentina tão grande que levaram os índices europeus e americanos de máximos históricos a um eminente bear market em poucos dias? O que aconteceu de tão catastrófico?

Eis a nossa tese.

Em primeiro lugar, as economias ocidentais, de forma muito especial, as europeias continuam incrivelmente fragilizadas porque, bem visto, nada de relevante foi feito desde que a crise rebentou em 2007. E esse estoiro de 2007 mais não é do que a consequência da acumulação de tensões resultantes de um sucesso pleno e excessivo que vem de há muito tempo. Uma das nossas últimas leituras, o livro Civilização, o ocidente e os outros, do historiador britânico Niall Ferguson, conta-nos de que forma o ocidente conquistou, desde o século XVI, uma posição de domínio global assente em 6 aplicações-chave:
  • Competição entre múltiplos estados que constituíam entidades corporativas concorrentes entre si;
  • Revolução científica com grandes descobertas na matemática, na astronomia, na física e na química;
  • Estado de direito e governo representativo;
  • Avanços na medicina, com controlo das principais doenças e epidemias;
  • Sociedade de consumo em conjunto com a revolução industrial;
  • Ética no trabalho e maiores taxas de poupança, com acumulação sustentada de capital.
Não custa nada perceber que todos estes aspetos em que o ocidente deu cartas e lhe permitiram ganhar vantagem ou foram postos em causa por culpa própria, ou foram copiados principalmente pelos asiáticos.

Hoje, pode-se dizer que estamos a ser vítimas do nosso próprio sucesso, como tem sido de resto norma em todas as civilizações da História que atingem um elevado patamar. E notem que não estamos a dizer isto por a bolsa estar a cair. A bolsa cai porque as pessoas têm medo, da mesma maneira que há de subir quando a ganância entrar em ação, independentemente de termos o nosso modo de viver posto em causa ou não. Aliás quem hoje vende na UE e nos EU pode até ser chinês e é muito duvidoso que esteja a vender por temer o fim da civilização ocidental. Portanto, não é esse o nosso ponto!

É verdade que se levaram a cabo uns planos de austeridade que conseguiram essencialmente desalavancar expetativas, mas do ponto de vista económico e financeiro nada de relevante mudou. As dívidas continuam elevadíssimas, os défices estão descontrolados e, acima de tudo, o desemprego mantém-se em níveis impossíveis. Mas também, valha a verdade, o problema não tem solução, porque a dinâmica das próprias sociedades tem tanta inércia que não há força que as consiga manobrar.

Quando olhamos para o OE 2015 e vemos que acabaram os cortes nas pensões entre os 1000 e os quatro mil e tal euros compreende-se por que motivo vamos mesmo ao fundo. Como é possível que se façam tantos ajustes e cortes e, ao mesmo tempo, se continue a pagar aquilo que sabemos ser impossível pagar. E não me venham com a treta dos descontos: os descontos que pagam reformas são os descontos de quem está atualmente no ativo. E também nos estamos verdadeiramente a marimbar para a mais do que estafada guerra geracional, que só serve para nos atirar areia para os olhos. Isto tem que ver com realismo. Como é que se mantém este estado de coisas quando uma percentagem tão grande da população está desempregada e a esmagadora maioria dos jovens ou não tem emprego, ou tem emprego escravo, ou emigra? Como é que se vão cortar 700 milhões em educação, e ao mesmo tempo se continuam a pagar milhares de pensões de reforma de 2000 euros para cima? Não há dúvida de que nós nos tornamos complacentes e perdemos por completo todos os trunfos que nos tornaram vencedores. E isto é uma corrente europeia, que se deu ao luxo de pensar que ao mesmo tempo que deixava falir as empresas que criaram a civilização ocidental, era possível manter privilégios que nem no paraíso celeste existiam. A ética no trabalho acabou porque não há trabalho (na melhor das hipóteses, temos biscates), e as maiores taxas de poupança que fizeram de nós investidores e empreendedores foram liquidadas pela geração que criou o sistema de pensões que agora contribui para rebentar connosco.

E é esta conjuntura de fragilidade e de bloqueio que é posta à prova pela crise ucraniana. Ainda hoje os jornais apontam o ressurgimento dos receios em relação à Grécia (seremos nós a seguir?) como a causa primeira para as quedas do dia. Mas erram o alvo. O regresso dos gregos (que decididamente continuam entretidos no pagode, a fazer na meia) resultam essencialmente da aflição alemã, que se estampou por causa das sanções à Rússia. Foi mal medido pelos políticos europeus, ou era inevitável que assim fosse? Enclino-me para a primeira hipótese, embora reconheça que não reagir às investidas do Putin seria mais perigoso do que uma crise económica.

É verdade que os russos também não estão melhor e, ao olhar para os preços do gás e do crude, fica-se com a ideia de que já perderam o às de trunfo. O problema para nós que estamos do lado de cá da barricada, é que, como assinalamos num post aqui colocado há algumas semanas, os russos estão sempre prontos para o combate (e se não estiverem, a vodca encarrega-se de impor tranquilidade), ao passo que nós temos demasiado a perder. Mesmo sem trunfos, Putin arrisca-se a sair vitorioso enquanto nós mantemos privilégios e bloqueamos quem quer e pode trabalhar. Se juntarmos a isso a guerra que vamos ter que travar contra o fanatismo medieval do estado islâmico e a guerra contra o medo de epidemias e de catástrofes naturais não vai ser preciso fazer muito esforço para perceber porque caem as bolsas.

15.10.14

E quanto tempo de bear market?

Sobre o PSI20 estamos conversados e é evidente para toda a gente que está tão bear que parece o Zé Colmeia.


O que interessa agora é ver como estão os índices que verdadeiramente contam, para que possamos avaliar quanto tempo teremos que esperar para poder ganhar dinheiro comprando ações.

A melhor forma de avaliarmos como os mercados estão fragilizados neste momento é através de um gráfico do S&P500, o índice americano das 500 maiores empresas a nível global:



O índice quebrou em baixa a SMA200 com algum estrondo na passada 2ª feira (notem que essa quebra já não ocorria há quase 2 anos), tendo ontem ensaiado uma reconquista da mesma que não resultou. Entretanto, hoje, pelo menos por ora, vai em contramão e afasta-se de maneira bastante comprometedora. Se fechar a subir vai dar sinal de vida, mas se arriar vamos vê-lo a aproximar-se dos 1815 pontos (linha preta a negrito), onde estamos em crer que poderá encontrar suporte, se calhar coincidente com o toque da EMA50 na média móvel 200. E é aí que tudo se vai jogar: uma quebra do suporte vai quase de certeza ativar uma death cross e voilá: bear market global! Mas pode ser, deus queira, que o suporte segure, como aconteceu em novembro de 2012 (ver 2º gráfico) e o morto ressuscite. Vai ser interessante de ver, mas não lhe toquem. Lembrem-se do ébola!

Para baixo é o caminho

Continuamos a ver muita gente à espera de uma inversão a todo o momento e muitos a contar com um retomar do bull market para breve. A nossa experiência diz-nos, contudo, que o touro já foi morto há muito, desmanchado e devorado. Por quem? Pelos ursos, quem mais?!

Ponham-se à tabela que com os números que têm saído (vejam os que saíram dos EU hoje às 13:30), e com a ameaça de mais de um milhão de casos de ébola para janeiro, nem precisamos dos gráficos para perceber que o cenário está para shortar. E isto não vos estamos a dizer para ser catastrofistas, nem nada que se pareça. É que quando os mercados caem, deixam de existir produtos baratos à venda, pois o que hoje é pechincha amanhã está de borla!

A nós, os portugueses, o que nos vale é que temos gestores muito competentes nas principais empresas e o governo já nos assegurou que a economia sobe 1,5% no próximo ano! Estamos a salvo, portanto! Ironiiiiiiiiiiaaaaaaaa!!!

Por que será que o PSI20 teima em tentar ser a pior bolsa do mundo? Aonde para a queda? Mínimo histórico abaixo dos 3000 pontos, como já ouvimos alguns avançar?! Só o Senhor poderá dizer! De qualquer das formas, num gráfico que postamos há uma semana vê-se um suporte por volta dos 4400 pontos. Sabemos que é uma esticadela, mas como as coisas estão, é garantido que nos pomos lá em 3 tempos!

Não se esqueçam do guarda-chuva!

11.10.14

Destruição

Sabeis qual é o índice bolsista que mais cai a nível mundial no presente ano? O russo! Mas a Rússia não admira, porque se arrependeu da perestroika e embarcou numa deriva imperialista que cheira ao mofo pavoroso dos tempos da II guerra mundial. 

E sabeis quem vem no segundo lugar do pódio? Nós, os tugas! Medalha de prata, portanto. Também não admira, uma vez que tal como os russos também nós estamos numa guerra. Uma guerra em que, infelizmente, só damos tiros nos nossos próprios pés. E nem vale a pena dizer que não somos nós individualmente os responsáveis por tanta munição mal direcionada. Não nos vale de nada dizer que não temos nada a ver com o assunto e que estamos a fazer tudo direitinho. E não nos adianta peva argumentar que nem gostamos da bolsa e que essas jogatanas não nos dizem nada porque nós somos indivíduos às direitas. No final de contas, com o PSI20 em modo voo picado, como esteve esta semana, ninguém escapa. Podem-nos vir dizer que o orçamento do próximo ano é o primeiro sem cortes, que estamos a sair do estado de emergência nacional e que um governo Costa vai ser mais amigo que os artistas Passos/Portas. Podem-nos cantar uma cantiguinha de embalar e nós até podemos adormecer, mas depois do BES e da PT terem sido destruídos é bom que preparem o corpinho porque o pau vai continuar a cair.

No início do ano, havia casas de investimento que apostavam em Portugal como um dos melhores mercados para investir e até finais de abril os números pareciam dar-lhes razão. O primeiro dos piigs estava em grande forma como fazia notar um jornalista do The telegraph e, após anos de impiedosa austeridade, estava na cara que só podia haver uma pujante recuperação.

O que ninguém contava era que os nossos Mourinhos da gestão, os special one da arte de manobrar empresas, saíssem tão maçãs podres. É evidente que uma empresa abrir falência é uma situação normal da vida e até seria de esperar que as empresas portuguesas tivessem que fazer um ajuste mais ou menos brusco depois da euforia de anos em que vivemos com a mania de que queríamos ser os melhores do mundo. Mas o que se está a passar em Portugal não é ajuste, e está para lá de uma falência em que por diversos motivos a empresa deixa de ser competitiva. Ao que estamos a assistir chama-se destruição. É saque e incompetência no mais alto grau. Depois do episódio BES, ter acontecido o que aconteceu à PT é mau de mais para a nossa reputação como país e tememos bem que muitos dos que cá estavam dispostos a investir, nos tomem agora apenas como um destino exótico em que vale a pena dar de vez em quando uns raides para sacar umas massas e fugir. Entregar a PT a uma empresa absolutamente medíocre e a uma gestão brasileira apenas interessada em sacar dinheiro devia-nos deixar com vontade de fazer justiça popular.

Para finalizar, deixamos um gráfico do PSI20 só para dizer que na sexta-feira foi ensaiada uma vela Portas, com muitos na expetativa que se lhe seguisse o mesmo que sucedeu em julho de 2013. Temos muitas dúvidas, até porque agora o irrevogável é mesmo para valer: ninguém ressuscitará o BES, e a PT é brasileira! De qualquer das formas, o pessimismo atingiu níveis tais que pode haver o ressalto por que tantos anseiam. Se isso acontecer, os 5320 são o primeiro grande teste e temos sérias e fundadas dúvidas de que possa ser superado sem que o ocorra algo surpreendente.