11.1.15

CTT

E agora, se quiserem ganhar dinheiro!



Os CTT passaram o ano de 2014 dentro de um intervalo de 1 euro entre os 6,8 e os 7,8. A quebra em baixa da base em outubro (quando se falou da possível entrada no belo negócio da PT), ao contrário do que seria o pensamento inicial, foi o tónico que faltava para subir com força suficiente para estoirar com o topo e dar sinal para nós entrarmos. Foi tarde, mas enfim, dos 8 aos 8,4 já vão 5% para o saco e chatices zero. É isto a bolsa. 
 

Entretanto, acabou a semana não só a marcar máximo histórico mas também a cabecear contra o topo de um canal de curto prazo que pusemos no gráfico e, embora esteja em situação de sobrecompra, não excluímos uma quebra. Uma vinda cá abaixo à zona dos 7,8-8,0 era ainda mais saudável, pois aliviava indicadores e colocava no título novos carteiros que, numa empresa que tem dado poucas razões para susto, não estariam à partida vendedores ao primeiro achaque. Como gostamos de manter a visão simples limitamo-nos a copiar o retângulo anterior para cima e fomos ter ao número redondo de 9 euros, onde poderá estar o alvo de primeira instância da subida. 

Do ponto de vista fundamental, não sei se já repararam no crescimento exponencial que se está a dar no comércio eletrónico no nosso país, com a multiplicação de empresas de compras coletivas desde o segundo semestre do ano passado. E quem está melhor colocado para entregar as encomendas, se não a empresa nacional de correios? É o nosso palpite e não somos contabilistas, mas não cremos ser de excluir, a breve prazo, lucros de mais de 100 milhões nos CTT, pelo que a valer 1200 milhões (cotação atual) a empresa é um achado. 

Uma última nota para o murmúrio abafado que vai brotando da boca dos menos experientes e que se ouve perfeitamente daqui. Estais inquietos e a coçar o cu por estarmos a comprar ações de uma empresa que só têm subido em vez de apanharmos pechinchas bem mais baratas. Pois bem, aprendam que é para isso que nós aqui estamos. Na bolsa, a regra geral é seguir a tendência, pelo que devemos sempre comprar o que está a subir, desde que essa subida tenha subjacente motivos que possamos compreender. Evidentemente, se a tendência do mercado, como um todo, inverter vamos ter que retirar dinheiro destes cavalos para passar para outros que se apresentem mais frescos para galopar na subida. Na bolsa não há caro nem barato; há subida e há descida. Ah! E há tendência!

AG da PT

Pelos vistos amanhã vamos ter mesmo AG da PTSGPS para decidir a venda da PTPortugal à Altice.

Ao princípio, falou-se de fusão PT/Oi e eu lembro-me de ver o Ricardo Salgado todo pinoca com a possibilidade de o negócio fazer a cotação da PT subir e bem! Isto passou-se quando a CGD vendeu a posição que tinha na PT acima dos 3,5 euros e o do BES manifestou estranheza por o banco do estado se estar a desfazer de tão grande acepipe. A verdade é que nem o Salgado sabia verdadeiramente do que estava a falar, nem os da Caixa venderam porque se aperceberam que o negócio era fraco. A verdade, verdade é que isto anda tudo em piloto automático e mais coisa menos coisa nas mãos da sorte.

Claro que nós quando vimos a PT transformada em piedrita rolante percebemos que o negócio era tão fedorento como têm sido todos os negócios vindos do Brasil (uma vez, já há muito tempo, perdemos 15% num dia por causa da jogada brasileira da Jerónimo Martins e a coisa serviu-nos de escarmenta. Arre!). Entrar na PT só com a OPA da Isabel e da forma que já tivemos oportunidade de explicar.


Agora que estamos prestes a consumar a tramóia percebe-se bem a verdadeira obra que foi criada pela genial dupla Granadeiro/Bava. Em suma, a negociata é assim:

A PT vende a operação portuguesa e com o dinheiro paga a totalidade da sua dívida, sobrando trocos. A Oi realiza um aumento de capital para entregar uma participação à PT. De uma assentada, a PT passa de empresa líder em Portugal para reles subordinada, com uma posição de 26,5%, de uma empresa de 3ª categoria desse mercado eternamente promissor que é o Brasil! De caminho, os ases da gestão que elaboraram tão sábia manobra ainda arranjam tempo e cacau para acudir ao BES. Hilariante. O cómico do negócio é que não se percebe a quem é que a jogada convém, porque mesmo os brasileiros ganharam um acionista a quem entregaram ações novas e que acabará tão desmoralizado que nem valor acrescentado poderá trazer. Não andaremos longe da realidade se afirmarmos que deve ter sido o pior negócio de toda a gloriosa história do capitalismo mundial! Mais uma vez, o nosso país a contribuir para a ilustre lista dos melhores do mundo.

Mais PSI

No PSI20 mantemo-nos atolados na caca do urso, mas ainda agora começamos o ano e não nos vale de nada pormo-nos com histerias. Contrariamente ao que chegou a ser aventado como provável, o bicho aguentou o impacto da quebra dos 4700 e não se esbardalhou logo até ao suporte seguinte bem mais lá para baixo. Talvez a perspetiva de um derradeiro duplo fundo tenha sortido efeito, ou então, mais do que aspetos técnicos, prevaleceu a hesitação da maioria entre um cenário de tragédia grega e o quadro de bom humor pintado pelo presidente do BCE. Seja como for, balançamos numa alegre volatilidade entre o medo e a ganância, sempre a descer e ainda sem sinais de inversão.

A propósito de BCE, na semana que hoje começa vai-se conhecer o veredicto do tribunal europeu sobre  a viabilidade de um programa de compra de dívida pública, pelo que se poderá ficar a perceber um pouco melhor com que tipo de medidas poderemos vir a contar.

Voltando à vaca fria, agora que estamos abaixo dos 4700 o que mais gramávamos era que fóssemos rapidamente até aos 4400-4450 (com licença de quem está dentro: a devida vénia!), para que se esgotasse de uma vez esta atração hipnótica com que toda a gente está por esse patamar. Não sei se a maioria nos acompanharia, mas garantimo-vos desde já que se o PSI arriar até esse suporte quem faz o gosto ao dedo e se põe a comprar, como se o peixe fresco fosse esgotar, é este que daqui vos manda postas. Eis o esquiço:


A zona dos 4450 é praticamente mínimo histórico e num primeiro assalto vai amparar a queda, nem que venha um asteróide do tamanho da Lua em rota de colisão com a Terra. Compra às cegas. Se lá encostar, o PSI vai ressaltar como se batesse numa mola até aos 4700 no mínimo (5300 a correr bem), porque vão aparecer cientistas a dizer que, apesar de o asteróide ser grande, há sempre a probabilidade de aparecer um asteróide ainda maior que embata contra ele e o desvie do nosso planeta. Depois do ressalto, o índice voltará para baixo quando se perceber que o cometa ainda maior apareceu, mas também está em rota de colisão connosco. Nessa altura, lamentamos, mas nem um suporte tão potente aguentará uma segunda investida. Ficção científica? Sim, mas só a parte dos asteróides!



Entretanto, com os 4450 tão perto (5% de despenque) pode ser que comecem a aparecer os mais impacientes na entrada e haja suporte adicional ao índice e, quiçá, ressalto antes de tempo!

Disciplina

Teoricamente, negociar em bolsa é fácil até dizer chega e não há nenhum de nós, por mais artolas que seja, que se possa assumir como incapaz de extrair cacau dos mercados. Na prática, porém, acabamos por deixar dinheiro espalhado por tudo quanto é canto e deixamos fugir oportunidades de triunfar como se o guito não nos fizesse falta absolutamente nenhuma! E tudo isso acontece porque, por natureza, somos animais indisciplinados como o diabo. Literalmente falando. Trata-se, pois, de um problema de disciplina, que não se resolve à força de cavalo marinho (como estavam em crer os nossos pais e avós), mas trabalhando a atitude mental. É por isso que precisamos de estudar o mundo para melhor conhecermos a nossa mente: é que uma coisa é olhar para os gráficos e identificar oportunidades e outra muito diferente é agir em conformidade, com frieza e, lá está, disciplina.

Um caso para ilustrar.

O nosso índice favorito para negociar é o S&P. Para além de ser um índice muito abrangente e diversificado, é o mais negociado do mundo e, por isso, é bastante certeiro do ponto de vista técnico. 

Aqui há dias, negociava o S&P a descair desde máximos históricos, postamos uma análise em que dissemos que uma quebra do suporte dos 2040 levaria o índice à base do nosso canal. Entrada curta na quebra dos 2040. Na base do canal, a probabilidade de ressalto é boa. Venda curta e entrada longa. Quebra a base do canal: fecho longo com corte de perdas e entrada curta. Reage para cima deixa correr os lucros estando atento a um possível lower high. Lower high: fecho longo e espera.


Teoricamente, portanto, é só faturar. Na prática... foda-se!

Agora, também é fácil. Na 2ª feira cai e quebra outra vez os 2040. Curto. Falha e retoma os 2040 no dia seguinte: fecha-se. Base do canal. Fecho curto. Quebra: curto. Ressalto: longo. Amanhã sobe e fecha acima do fecho de 5ª feira. Longo, com possível ida a máximos. Cenário mais provável teórico: o primeiro. Lower high confirmado amanhã e S&P a ficar com mau aspeto. Na prática: espírito aberto.

Agora, é só negociar. Bons negócios!

8.1.15

Somos todos Charlie

Por muito que nos apeteça falar hoje de bolsa, e não falta assunto para tratar, não podemos deixar passar em claro, nós que somos dos que usamos incondicionalmente o direito à opinião por que tanto lutaram os nossos ascendentes, os terríveis acontecimentos de ontem em Paris.

Na Europa do início do século XVII, não faltava quem pagasse com a vida quando a expressão de uma opinião sobre determinado assunto se desviava dos cânones estabelecidos pela maioria ou pela hierarquia dos todo-poderosos.

Durante imenso tempo foi matéria de fé a convicção inabalável de que a Terra se encontrava no centro do Universo. Não só todas as evidências observacionais levavam a essa conclusão lógica, como resultava absolutamente herético conceber um Deus que pudesse colocar a sua mais preciosa criação, nós, noutro local que não o centro absoluto. Desdizer a centralidade da Terra, era, para além de consumada loucura, ato de rebelião contra a fé e a sapiência divina e qualquer palavra dita nesse sentido costumava custar horrores e por vezes a morte.

E foi preciso um homem, Galileu Galilei, munido do seu telescópio caseiro, descobrir luas em Júpiter*, faz hoje 405 anos, para que o Homem se libertasse da tirania dos que se acham donos da verdade e pudesse pôr em prática aquilo que os assassinos de ontem querem de novo abafar. 

E não é por acaso que as descobertas de Galileu marcam também a inauguração da Ciência moderna. É que só quando é livre de se expressar é que o Homem atinge a plenitude das suas capacidades intelectuais e consegue tornar humano o que os escravos da palavra consideram divino. Se os assassinos intolerantes vencerem, Galileu sairá derrotado e voltaremos todos para a idade das trevas e da selvajaria. Que não haja concessões, nem medos, porque o que está em causa é aquilo que conquistamos de mais precioso.

Hoje, tal como ontem, e sempre também NÓS SOMOS CHARLIE!




*As luas de Júpiter rodam em torno de Júpiter e não em redor da Terra, pelo que, do ponto de vista das luas, a Terra não está no centro.

4.1.15

PSI20

Há um ano atrás não faltavam analistas a considerar a Ibéria como uma zona a privilegiar na alocação de investimentos para o ano de 2014 e havia mesmo quem considerasse Portugal como o destino predileto e uma das possíveis boas surpresas em termos de rentabilidade. Não admira, por isso, que a média dos preços-alvo das casas de investimento para as ações nacionais, a atingir no final do ano, trouxesse implícita uma valorização de cerca de 20%. Os argumentos dos espertos eram razoáveis e simples de entender: depois de 3 anos de ajustamento ao toque de caixa marcado pela troika, o país parecia dar boas indicações de que estava finalmente no caminho de um crescimento sustentável. Para além de um recuo do desemprego, de algum crescimento económico e de uma trajetória favorável da balança comercial com o exterior, existiam fortes indícios de que o essencial do acordado no programa de resgate financeiro seria cumprido de maneira a que o país pudesse estar livre da alçada dos credores internacionais no prazo previsto. Com ou sem programa cautelar era algo que estava para saber, mas a descida sustentada do prémio de risco e das yields das obrigações da república no mercado secundário deixavam antever que a missão essencial seria cumprida.

Há um ano, o PSI20 arrancou nos 6560 pontos, depois de uma subida de 16% no ano anterior, a taxa de juro implícita nas obrigações a 10 anos estava nos 6,5% (com um prémio superior a 6 pontos percentuais relativo às obrigações alemãs), o preço dos CDS para cobrir o risco da dívida nacional colocava-nos no 7º lugar entre os países mais arriscados do mundo e já havia notícias de problemas graves no BES e de inevitáveis aumentos de capital em outros bancos por conta dos testes de stress. Entretanto, o euro valia 1,3770 dólares, o petróleo era importado quase ao dobro do preço a que o compramos hoje e qualquer plano do BCE para intervir nos mercados de uma forma mais arrojada era encarado como uma possibilidade longínqua e de último recurso. O desemprego estava acima dos 15%, havia nuvens negras sobre o orçamento de estado, e risco real de queda do Governo.

Uma cantiga para digerir melhor o que aí vem (Once I wanted to be the greatest, e então veio a enxurrada da realidade and melt me down; agora descanso for the later parade):


Agora, o PSI20 arranca nos 4850 pontos, 26% mais barato que no início de 2013 e, embora cerca de 11 pontos percentuais dessa queda correspondam ao desaparecimento do BES, há empresas 70% mais baratas que há um ano atrás, e apenas as três firmas ligadas ao papel (incluímos a Semapa) e as 3 que laboram na produção e distribuição de eletricidade estão mais caras. A queda anual do PSI20 só foi batida pela dos russos, que foram alvo de sanções económicas e vítimas da queda da principal fonte de receita do país, mas foi maior que a da ainda destroçada Grécia, da radicalizada Hungria ou da dividida e falida Ucrânia. 

Entretanto, a troika foi-se sem cautelar e os juros desceram para mínimos históricos, o desemprego baixou e nota-se que a criação de empresas segue a bom ritmo, as exportações continuam pujantes, o consumo dá sinais de retoma sem beliscar as taxas de poupança, o turismo bate recordes (Lisboa ombreia com Madrid em número de dormidas e o Porto transformou-se no destino da moda), a banca parece mais saneada e começa a ficar claro que a solução encontrada para o BES foi a menos má entre o cardápio disponível, o crescimento económico tem razões para se reforçar com as quedas simultâneas do euro e do petróleo, finalmente parece haver mais gente a contribuir para o financiamento do país, fruto de ajustes no controlo fiscal e uma maior consciencialização dos portugueses para a importância de todos participarem, há a sensação de que o combate à corrupção se tornou mais sério e é possível que, estritamente dentro do mandato do BCE, tenhamos um QE europeu que despeje euros nos mercados.

Incrivelmente, porém, as mesmas vozes que há um ano atrás gritavam compre-se, agora recomendam cautela e aconselham os investidores a optarem por procurar investimentos menos arriscados que as ações nacionais. Cada um de nós intuitivamente crê que é melhor analisar outros mercados e procurar alternativas, em vez de investir no malfadado PSI20, cheio de empresas endividadas e mal geridas. Psicologicamente estamos tolhidos pela descrença e afundados no pessimismo criado por um ano historicamente difícil. 

Agora, qualquer facto novo é sempre analisado pelo lado mais sombrio e estamos sintonizados no efeito negativo. A mesma chusma de analistas da treta de há um ano atrás volta a inundar-nos os ouvidos das mesmas ideias feitas que nunca resultaram e que só fazem perder dinheiro aos que os seguem (os tais 90 e tal por cento que torram dinheiro nos mercados), chegando ao ponto de o ridículo se tornar hilariante. Exemplo disso é a análise que dita que a queda do preço do petróleo pode não ser tão boa quanto isso porque prejudica as exportações para Angola. Foda-se! Então queremos que o petróleo suba para exportarmos mais para os angolanos? É bom ter o petróleo a 150 dólares, mesmo pagando o gasóleo a 2 euros, porque vamos exportar mais para os nossos amigos de Luanda? É esse o raciocínio? Ou é uma coisa mais suave, do tipo a descida do preço do petróleo é boa mas tem defeitos?! Foda-se outra vez! Há quem diga que até o paraíso celeste tem defeitos, quanto mais a descida do petróleo! Só falta dizer que a queda do euro, com o petróleo a cair também tem bicho! Mas é este precisamente o tipo de raciocínio típico de um bear market. Coisas do tipo: ah, a empresa está com um PER de 5 e desceu 70% num ano, mas eu não lhe toco porque está cara pa caralho e os analistas aplicam-lhe um price target de metade. O BCP, para darmos um exemplo, a 14 estava barato e os da Blackrock fizeram uma aplicação de génio (estávamos todos bull), mas a 7 está caro, seis meses depois, pura e simplemente porque ficamos bear. A mente humana é foda! Já há quem diga que vai aos 3 cêntimos e, se assim for, continuará a descer até ficar com valores negativos! São os efeitos da deflação que o BCE tem que combater!

Notem que nós não estamos a dizer que o PSI20 vai subir, até porque o medo entranhou-se na mente da massa dos investidores e não há nada mais difícil de eliminar da nossa mente que o medo. É algo que nos foi imprimido nos genes por milénios de convivência com predadores nas savanas. O que queremos dizer é que ninguém ganha dinheiro na bolsa a ouvir o que a maioria tem para dizer, pura e simplesmente porque a maioria anda a ouvir-se a si própria e fala em circuito fechado. O importante é que tenhamos a consciência de que é em períodos de transição bear/bull market que fazemos grandes negócios e arriscamos arranjar a nossa vida. E esses períodos de transição nunca vão ser anunciados pelos analistas nem comentados entre a multidão. Se estivermos à espera disso, o mais provável é que entremos no mercado quando a maior parte dos que ganharam dinheiro já estejam de saída!

Honestamente, embora já se vejam muitas vozes de desprezo saudável pelo PSI20, imensos sinais de descrença na nossa bolsa e andem no ar as tradicionais visões pessimistas sobre tudo, ainda não temos a certeza de já termos atingido esse tal ponto de inversão. Tememos que o mercado necessite de uma vinda cá abaixo à zona dos 4400 pontos para capitular em definitivo, e que seja necessário um período de pousio para que se possa assistir a um regresso às subidas:


Evidentemente, persistem os desafios e nem precisávamos de ouvir a mensagem de ano novo do nosso presidente para saber que, no geral, continuamos pouco acima da caca e só nos vale este magnífico céu azul:


No curto prazo, contudo, cremos que poderá haver espaço para subir. Por um lado, podemos ter a tradicional entrada de fundos de início de ano (e os fundos, depois da debandada do ano passado, vão ter certamente trabalho para refazer uma carteira lusa que se veja). Também parece ter havido, nos últimos tempos, uma maior dificuldade dos ursos em fazer cair as cotações, tendo sistematicamente encontrado compradores que ampararam o tranco e evitaram a debacle até ao tal suporte à volta dos 4450 pontos. A avaliar pelo comportamento dos juros da dívida, parece haver indicações de que o efeito BCE se prepara para ofuscar as eleições gregas, estando por ora afastado um cenário de contágio de uma situação de incumprimento (como poderia acontecer há 2 anos atrás). Em última instância, uma vitória do Tsipras pode até trazer vantagens para o nosso país, se os nossos souberem e quiserem aproveitar as cedências camufladas aos gregos que com mais ou menos azedume se terá que fazer. Como dizia Bismarck, a política é a arte do possível, e nós acrescentamos que o possível é sempre ditado pelas circunstâncias (e não o contrário). O gráfico também não descarta uma subida:


Colocamos uma Ltd de muito curto prazo, com dois toques desde o início de dezembro, e que foi quebrada na sessão de sexta-feira. Para já é só um projeto de sinal positivo que terá de ser confirmado já amanhã em fecho. Também metemos o MACD que deu um ténue sinal de compra, que ainda não inviabilizou e que pode reforçar na próxima semana. Como para baixo também é caminho, diríamos que a quebra do mínimo relativo nos 4700 é a morte do artista e põe-nos outra vez em fuga forçada com as calças na mão. Mantemos as linhas principais que já nos vinham a acompanhar desde o ano passado, e cuja quebra nos ajudou a entregar a carga a outros no caminho descendente. A linha tracejada a vermelho é o primeiro alvo difícil no caminho para cima, necessitando de uma subida de 10% que pode ser propulsionada pela tal entrada afoita de fundos, se houver cansaço por parte dos ursos depois do combate a que se entregaram ao longo da segunda metade do ano passado (aqui vamos precisar também de uma ajuda dos índices europeus, que cumprem com o papel que lhes destinamos se forem para máximos). Entre a linha vermelha e a linha tracejada preta temos o terreno em que os pessimistas vão começar a ter dúvidas e os cínicos continuarão a fazer referência às perspetivas negativas, embora se estejam a encher de mercadoria. Para nos mantermos nesta zona vai ser necessário bons números dos resultados e da dívidas das empresas e que não surjam surpresas negativas do lado do crescimento económico nem cisnes negros, como sucedeu no ano passado. Logicamente, ninguém está à espera que se trepe a galope e de uma tirada só: isto vai ser empreitada para pacientes com muitos recuos ou não estivesse tudo tolhido pelo caguefe! Só depois, lá mais para cima, teremos o famoso retângulo laranja, acima do qual os ursos pessimistas hibernam e regressamos a um sempre bem-vindo bull market. Para isso, precisamos de uma subida de 32%! Teremos oportunidade de voltar a falar antes que aconteça! Bons negócios!

2.1.15

S&P500

Chamamos a vossa atenção para o S&P500, um índice que tem dado grandes alegrias aos praticantes disciplinados da análise técnica (vejam porquê nos gráficos abaixo). Diríamos que um fecho abaixo dos 2040, onde há um ténue suporte, é bem capaz de levar o índice para a base do canal.
 


Prestem atenção também ao Russell2000, que costuma ser um bom precursor do S&P.

Gráficos anuais

Para post inaugural de 2015 escolhemos apresentar gráficos anuais dos índices de que mais gostamos*.

Começamos, como é evidente, pelo nosso enfadonho PSI20 (não sei se é, mas deve ser o único índice do mundo que começa por ser um embarretanço logo no nome!):


Depois de 5 anos dourados de 2003 a 2007, em que o índice inchou para o dobro, veio 2008 que levou tudo quanto Marta fiou e voltamos à estaca zero. Entretanto, tivemos uns arremedos em jeito de recuperação técnica, mas nota-se que estes 5 anos de ajuste económico no nosso país nada tiveram de técnico e foram bem reais. O país, as pessoas e as empresas ajustaram em baixa, e, como é evidente, o índice também o fez. E é um facto que a falência do BES ou a desintegração da PT, para usar dois exemplos óbvios, não se deram por causa de erros cometidos desde 2008, mas sim devido aos excessos que nos anos anteriores cravaram belas barras verdes no gráfico. E é por isso que não há nada de que nos possamos queixar: na Bolsa há comprar e há vender, há euforia e há depressão, há excessos e há ajustes! Sempre assim foi! Muitas vezes, ficamos desiludidos por termos uma Bolsa que está a passar por um momento tão fraquinho, mas a verdade é que o PSI20 reflete a realidade da nossa economia que, como todos sabemos, ficou bastante alavancada e teve que ceder. Quando o ajuste estiver completo, quando a dívida estabilizar num patamar mais confortável, havemos de voltar a subir e entrar de novo num qualquer tipo de excesso.  

Se olharmos para o nosso vizinho IBEX, vemos que o cenário foi idêntico ao nosso até ao ano passado, mas depois os espanhóis colheram o benefício de terem escapado a uma intervenção externa, o que lhes permitiu estarem a fazer um ajuste muito menos violento. Não temos a certeza de ser um cenário mais favorável no longo prazo, mas no espaço de dois anos é evidente que eles ficaram a ganhar, ainda que o desemprego continue estratosférico e a carteira do povo ande mais vazia!


No DAX temos um movimento tendencial de subida bem marcado, com subidas que superam os máximos anteriores e quedas que ficam aquém do mínimo precedente. É a marca clara de uma economia pujante que, apesar das inevitáveis crises cíclicas, mantém um crescimento consistente e fiável.


O CAC40 bem tem tentado fazer um movimento semelhante ao do vizinho alemão, mas nota-se que, desde o início do século XXI, e de forma especial desde a crise de 2008, a França está em perda relativa e o gráfico do CAC parece-se cada vez mais com o do IBEX. Não admira: a economia francesa padece de muitas das maleitas que têm afligido os países do sul da Europa


Finalmente, um gráfico anual do S&P500, o índice mais representativo da economia americana.


Estamos em crer que não há melhor imagem para ilustrar a pujança americana, em termos económicos, e porque se fala do sonho americano e não do sonho de uma qualquer outra zona geográfica do globo. Os EUA parecem estar numa nova época de euforia, como a que viveram aquando da bolha das dotcom, no final do século passado, mas o que as bolhas na América parecem ter de bom é que estoiram rápido e não deixam cicatrizes (pelo menos no corpo deles!). 

*Mantivemos nos gráficos a linha verde da EMA9 (períodos de 9 anos) e, quando há dados suficientes, a EMA21 porque, embora não lhes atribuamos neste caso qualquer tipo de relevância técnica, parecem-nos bons indicadores de sucesso ou insucesso económico: médias móveis crescentes correspondem a economias saudáveis! Também deixamos ficar o volume e o RSI, que é um indicador de sobrecompra/sobrevenda.

31.12.14

Da tempestade à bonança

A propósito da estreia de Mr. Turner, o novo filme de Mike Leigh, deu-nos para vos apresentar os votos de Bom Ano Novo sob a forma de um díptico com duas pinturas de William Turner, o pintor das tempestades, cuja biografia fornece argumento ao filme.

Que em 2015 a nossa Bolsa possa passar da tempestade:

Naufrágio, William Turner, 1805, Tate Museum

para um cenário bem mais dourado:

O ramo dourado, William Turner, 1834, Tate Museum

Entretanto, se isso não acontecer, não deixem que faltem coisas boas na vida. 

Que 2015 seja do vosso agrado!

29.12.14

Análise à Portugal Telecom

Fomos dos que achamos excelente a jogada da Isabel dos Santos quando resolveu avançar com a OPA à PT e escrevemos aqui que o lance fazia todo o sentido, do ponto de vista dos angolanos, se queriam diversificar e tornar-se dominadores na indústria das telecomunicações em língua lusa. De uma assentada, e a preço de amigo, os de Angola passavam a perna aos lorpas lusos e condicionavam a tarefa dos finórios brasucas, ficando com uma operação bem montada e relevante em três continentes. E isto sem terem de passar pela estafadela de criar uma empresa de raíz. Teoricamente, era muito bem jogado, do ponto de vista estritamente empresarial. Sendo assim, evidentemente, cumpria-nos o papel de entrar na PT para aproveitarmos uma possível subida do preço da OPA ou, quiçá, o aparecimento de ofertas concorrentes. E assim se fez, sendo que a princípio houve mais gente que concordou com o nosso raciocínio e a PT chegou a negociar nos 1,60€, 18% acima do valor oferecido pela engenheira angolana.

Mas então começaram a aparecer motivos para dar razão aos que duvidaram desde o início da exequibilidade da operação, ao mesmo tempo que nem a Isabel se mostrou por um segundo interessada em subir a parada, nem se viu quem pudesse entrar com uma proposta concorrente. Como o preço também começou a arriar, nem pensamos duas vezes e fechamos a loja enquanto ainda havia lucro para embolsar. Está visto que fizemos bem! Para além de todos os obstáculos que apareceram no caminho, fica-se com a ideia de que, com a queda do preço do petróleo, houve corte da semanada no palácio presidencial em Luanda, e o sonho angolano da genial engenheira foi-se com o vento, tal como antes tinha ido o sonho lindo do Zeinal Bava!


Temos, portanto, a PT reduzida à condição de SGPS de uma única participação social, os 25,6% com que ficará do negócio da atual Oi (embora esta percentagem não seja pacífica, como podem verificar aqui). A essa participação há que acrescentar uma opção de compra até um máximo de 37,3%, caso receba os 900 e tal milhões que tem entalados no BES mau. Sendo assim, as contas para o valor da PT são fáceis de fazer: temos 25,6% do valor da Oi mais os milhões que é expectável receber do bolo que voou com o Espírito Santo.


Hoje a Oi fechou a valer 2324 milhões de euros, donde resulta um valor para a PT de 595 M€ ou cerca de 0,66€ por ação. A este valor há que somar cerca de 1 euro se acharem que a PT pode reaver o total dos 900 milhões. Feita a regra de 3 simples, com o fecho de hoje, temos o mercado a contar que a PT é capaz de receber 229 milhões de euros do BES mau. Parece muito, tanto mais que no fim-de-semana ficamos a saber que o Goldman Sachs se juntou à lista dos que se vão pôr na fila de mão estendida. Não admira, pois, que a PT tenha hoje marcado um mínimo histórico em fecho!

Do ponto de vista técnico, havia ali uma hipótese de duplo fundo que terá levado alguns a arriscar umas compras antes do fim-de-semana passado, mas, com a queda de 7% da Oi na passada sexta-feira (a Oi realizou um reverse stock split que veio dar força mental aos que estão convencidos que devem vender), e as notícias do entalanço do Goldman, o bota abaixo de hoje era expectável. 


Agora estamos tão sem referências como sem motivos que justifiquem uma ida a jogo, a não ser que acreditemos que pode haver uma espécie de luta por posições para decidir a venda ou não da PT Portugal à Altice na assembleia geral do próximo dia 12 de janeiro. Nesse caso, podemos ter uma subida do interesse na PT nos próximos dias, uma vez que a data limite de registo de titulares de ações na AG é sexta-feira. Também temos o mínimo histórico absoluto ali nos 0,865€, que pode servir de suporte e derradeira oportunidade para os que têm fé no tal duplo fundo. Seja como for, a cotação da PT vai continuar mais ou menos atrelada à da Oi (hoje esteve a cair quase 6% e fechou a marcar menos 1,4% que na sessão passada), mas também vai refletir o que se passar na luta de credores do falecido BES e, provavelmente em menor grau, o câmbio BRL/EUR.

Seja como for, meus caros, nós que andamos nisto há algum tempito sabemos que é nestes lances, em que a situação parece desesperada, e a maioria já dá por adquirido que a melhor solução é enfiar a empresa no cesto do lixo, que nos devemos começar a interessar mais por acompanhar a evolução das cotações. Com 70% de queda anual, vai sendo tempo de olhar para o potencial da nova empresa que surge depois de 12 de janeiro (se é que a Altice paga mesmo metade da dívida da Oi/PT), e verificar se não estaremos perante um bom negócio!

28.12.14

Previsões

Creio que não há um de vós que acredite ser possível, nos tempos que correm, fazer previsões sobre movimentos no mercado para além de uns dias no futuro. E já assim se arrisca bastante e raramente a coisa funciona! São tempos loucos estes em que vivemos, de uma avassaladora torrente de factos e acontecimentos, que nos esticam os neurónios ao ponto em que só com muito treino somos capazes de manter a sanidade mental em níveis aceitáveis. Nem tempo temos para digerir os factos estupendos com que vamos sendo empanturrados a ritmo regular e crescente, quanto mais para nos entretermos com previsões que sabemos de antemão serem absolutamente inúteis! E mesmo a mente mais arrojada e o previsor mais apocalíptico tem dado por si atropelado por factos que deixam o quadro traçado infinitamente abaixo do que vem a ser a realidade. É um fenómeno que, se formos bíblicos, facilmente nos levará a pensar em fins do mundo ou regresso do messias. Má onda para os astrólogos e os profetas, não fosse o ser humano dotado da capacidade para esquecer facilmente sempre que a bota não bate com a perdigota! 


Quem diria há um ano atrás que o BES deixaria de existir (há um ano, não faltavam casas de investimento a dar preços-alvo para o BES acima dos 1 euro, e havia até quem dissesse que cada ação podia valer mais do que uma moeda das grandes)? Quem podia prever que a PT ia deixar cair o P, para passar a ser apenas um T trocado entre brasileiros e franceses? Que profeta previu, há um ano, que íamos ter um ex-premier enjaulado em Évora? E quem seria tão pessimista ao ponto de partir do princípio que, com uma saída limpa do programa de ajustamento, o PSI20 cairia mesmo assim quase 30%? Etc!

É verdade que o ano foi um fartote, um autêntico Cisne Negro (como assinalava ontem, no Expresso, João Vieira Pereira), mas a nossa tese é que a probabilidade de se darem acontecimentos que baralham por completo as circunstâncias subiu brutalmente nos últimos anos e tornou a arte de prever numa lotaria de probabilidade ainda mais baixa do que a normalidade sempre impõe. De maneira que nós, em condições normais, nem nos atrevemos a prever para além do que se vai passar nos próximos dias. E mesmo isso, costuma ser feito de gráficos em punho e com enorme reserva porque o final de ano, como a malta anda com os pirolitos descompassados, presta-se a fenómenos estrambólicos que fazem temer o pior.

Em condições normais, esta última semana em que hoje entramos seria a derradeira para limpeza de carteiras, com reforço das menos-valias de modo a equilibrar o IRS e arrancar no próximo ano com a conta a zeros. Como há falta de liquidez, a descarga costuma levar a uma queda das cotações, a que se segue uma subida nas primeiras semanas do ano, com a constituição de novas carteiras. Essa costuma ser a situação normal e é habitual fazerem-se ótimos negócios comprando, pela calada, nesta última semana. 

Desta vez, contudo, é possível que muitos dos que tinham perdas para lavar já o tenham feito há algum tempo atrás, porque o PSI20 tem dado mais do que evidentes sinais de que para baixo é o caminho, de maneira que me quer parecer que quem ainda não fechou já não vai fechar, porque a dor da perda é tão insuportável que nem o acumular de menos-valias para efeito de impostos os consegue demover. Claro que se pode vender e comprar logo a seguir, que a coisa fica como está, mas convencê-los disso?

Assim sendo, isto parece um pouco mais difuso este ano! 

Felizmente, temos os gregos, esses fundadores da democracia que vêm em nosso auxílio, de modo a podermos prever com um pouco menos de irracionalidade. 

Como previsto(!), os gregos deixaram para a última jornada a possibilidade de evitar eleições legislativas antecipadas, que se parecem prestar a colocar o Syriza no poder. E a última rodada da eleição presidencial é amanhã, segunda-feira. Se houver fumo branco e o problema ficar resolvido, teremos eleições apenas no final do próximo ano e é um problema sério que sai, de momento, do radar dos investidores. Nesse caso, estamos em crer que dificilmente os índices europeus não marcarão novos máximos históricos, no início do ano, (exceto o PSI20, bem entendido; a propósito, diga-se que o nosso belo índice precisa de subir quase 200% para estabelecer um novo recorde; ficamos todos ricos, carago). Olhando para o fecho de semana no índice grego parece que o otimismo não é elevado, mas pode ser que haja intervenção dos deuses do Olimpo. Se a coisa der para trás, temos eleições em fevereiro e estaremos entregues ao pior inimigo dos mercados: a incerteza! Nesse caso, só o BCE nos pode trazer boas notícias capazes de travar a queda!

Afinal, até nem é difícil prever! Vamos ver se bate certo!

Leituras N€B do ano

Com cada vez menos tempo e mais labuta padeceu a leitura, que viu o tempo disponível ser cortado para um mínimo, que começa a roçar o limiar abaixo do qual é o próprio crescimento intelectual que acaba por ficar em causa. O problema é que se não se investe nesta área, não é possível crescer em conhecimento relativo e, sem isso, é dado adquirido que escafedemos na Bolsa quando os mercados se tornam um pouco mais agrestes. Neste ano, por exemplo, valeram-nos em grande medida leituras passadas, porque com o que levamos à prática bem nos tínhamos entalado e ficado sem conserto. Há, portanto, todo um trabalho de gestão do tempo que é preciso executar com precisão, de modo a chegarmos ao 31 de dezembro com um cesto de livros lidos que assegurem que não entramos em recessão ou, pior, depressão ou, ainda mais grave, senilidade! 

Não se pode dizer que o ano tenha sido estupendo em termos de qualidade dos livros lidos, mas também é verdade que com a idade nos vamos tornando mais exigentes, ao mesmo tempo que vamos deixando lidos os títulos consensuais, fazendo da escolha de livros a ler toda uma arte de procura de preciosidades escondidas.

O melhor livro do ano entrou diretamente para 32º lugar do Top N€B geral e é da autoria do historiador escocês Niall Ferguson, de quem já conhecíamos outras obras merecedoras de atenção. Trata-se de Civilização, o Ocidente e os Outros (Civilização Editora, 2011) e conta-nos por que motivo o ocidente se transformou na civilização global dominante em deterimento de outras como, por exemplo, a chinesa, que teriam, aparentemente, melhores condições de partida. 


Com um estilo fluído e enxuto, bastante bem documentado, sem ser demasiado superficial nem académico, Ferguson fornece-nos um conjunto de pistas que nos servem inclusivé para a nossa luta diária. No final, o sucesso do Ocidente acaba resumido em seis aplicações-chave decisivas (a que já nos referimos num post anterior): competitividade entre nações, revolução científica, estado de direito, medicina moderna, sociedade de consumo e ética no trabalho. Ferguson tem uma apresentação no Ted Talks sobre o assunto que aborda no livro, que vale a pena ver como complemento. 

Numa altura em que a Europa corre o sério risco de se desagregar, não deixa de ser sugestivo que uma das teses do livro seja precisamente o facto de ter sido a profunda desunião entre os diferentes países europeus, que lutavam cada um por si, estabelecendo e rompendo alianças à velocidade a que mudavam os humores dos diferentes governantes, um dos fatores que levaram o nosso continente para o domínio global. Em tese, desunião leva ao sucesso, ao passo que a união e a ausência de conflitos conduz ao comodismo e à estagnação como sucedeu, lá está, com os chineses. No fim somos obrigados a refletir se não estaremos nós, os humanos, condenados a só ter sucesso individual se estivermos desunidos. Estará o Universo formatado para não passar de um jogo de soma nula em que o sucesso de uns só é possível se conseguido à custa da perdição de outros? E estaremos nós, os europeus, em vias de desmantelarmos a nossa união porque com ela não conseguimos manter o estatuto de líderes civilizacionais? Ou será que, por outro lado, é esta obsessão pela liderança, seja do que for, que nos está a tolher? Olhando para o passado e para o quanto nos custou tornarmo-nos na "Civilização" será que vale a pena voltar a pagar o preço de uma suposta liderança e de passarmos por líderes abdicando do conforto de nos sentirmos unidos? Perguntas que ficam em aberto no livro, mas que valem só por termos tido a possibilidade de as colocarmos a nós próprios. Até porque, pelo andar da carruagem, podemos perfeitamente, no nosso tempo de vida, vermo-nos na contingência de termos que optar por um ou outro caminho!

O segundo livro do ano foi a biografia de Casanova, História da minha vida, numa edição da Divina Comédia Editores, 2013. 


Já falamos deste livro aqui e a verdade é que foi para nós um dos grandes acontecimento editoriais do ano. Já existiam em português alguns extratos da obra de Casanova, entre os quais a "História da minha fuga das prisões de Veneza", mas nunca se tinha ido tão longe na tradução para a nossa língua da epopeia de um sujeito que é acima de tudo conhecido como um competente galanteador. A tradução de Pedro Tamen também é bastante competente e a única chatice é que mesmo com esta colheita ainda só foi possível ter em português (pelo menos de Portugal) cerca de 1000 das mais de 4000 páginas que compõem o texto completo. Mesmo assim, o livro é um fresco dos três quartos finais do século XVIII europeu vistos pelos olhos de um homem que passou por grande parte do continente e esteve presente em muitos dos acontecimento definidores da nossa maneira de ser e de pensar. De Portugal, infelizmente, Casanova pouco mais refere do que ter sentido uns pequenos estremeceres do chão na prisão dos chumbos, onde estava no fatídico dia 1 de novembro de 1755, quando Lisboa foi destruída pelo tremor de terra. Mas é um gosto, apesar dos saltos que a narração vai dando, para cumprir o objetivo de ter a obra condensada em 25% do original, descobrir como o mundo de há 200 e tal anos atrás não é assim tão diferente do nosso, apesar dos gadgets sem os quais a vida atual quase parece impossível! Casanova não dispensa o jogo, nem a arte da negociação e do saber investir, e domina as relações humanas com uma competência que se torna uma lição segui-lo nas manobras que vai levando a cabo. Bem sabemos que 1000 páginas de leitura é uma empreitada que só se pode levar a cabo, nos tempos que correm, se houver lucro garantido. Ora, neste caso, o projeto vale cada minuto investido!

Numa passagem de Kaputt, Curzio Malaparte relata-nos o encontro que teve com Ante Pavelic, o ditador croata, no outono de 1941. A dada altura, Pavelic sentencia que o povo croata quer ser governado com bondade e justiça. E eu estou aqui para garantir a bondade e a justiça. Malaparte ouve-o enquanto observa um cesto de vime posto em cima da escrivaninha. Como a tampa estava um pouco levantada, via-se que estava cheio de mariscos, ao que parecia ostras tiradas das cascas. Pavelic apercebe-se do interesse do interluctor e, lavantando completamente a tampa do cesto, disse a sorrir, com o seu sorriso bom e cansado: É um presente dos meus fiéis ustacia. São vinte quilos de olhos humanos

Kaputt significa quebrado, destruído, e parece certo que nunca estivemos tão perto de estar kaputt como nos anos desgraçados da segunda grande guerra. A experiência de repórter de guerra italiano, fazendo a cobertura dos acontecimentos, pelo lado do eixo, que serve a Malaparte para compor o seu livro, constitui um murro no estômago para todos aqueles que acham que pode haver um pingo de dignidade na guerra e que em última instância a racionalidade há de fazer do ser humano um animal menos feroz que o pior bicho da selva. Nada mais falso. O homem consegue sempre justificação moral para a pior e a mais cobarde decisão que seja obrigado a tomar pelas circunstâncias que se lhe apresentam. No final, como dizia Samuel Johnson há sempre o patriotismo que tudo submeterá: o patriotismo é o último refúgio de um canalha

Kaputt de Curzio Malaparte (edição livros de bolso Europa-América, 1979) é a terceira melhor leitura N€B do ano.



Em ano de centenário da primeira guerra total, e quando parecem avolumar-se nuvens de tensão outra vez sobre a Europa, é bom recordarmos o testemunho de quem já passou por experiências que parece possível que ainda sejam olhadas como tendo qualquer coisa de aliciante: veja-se o caso dos jovens europeus seduzidos para a luta do estado islâmico. Malaparte, apesar de seguir de perto a quadrilha nazi, não é imparcial na guerra e tem plena consciência do lado pelo qual vale a pena lutar, talvez porque tem a bagagem intelectual suficiente para compreender que os horrores de que nos vai dando conta não são compatíveis com o ser pensante que nos costumamos considerar, mas não encontra muitos como ele e, mais do que a história da guerra contada por quem a viveu, é justamente essa tomada de consciência de como estamos tão perto da selvajaria que nos enche a mente depois de termos lido este livro. Kaputt, de Curzio Malaparte, entrou para o lugar 47 do top de leituras N€B. 

Um bom 2015 de leituras e cinema para todos!

Filme N€B do ano

É bastante raro um filme ser melhor que o livro que lhe serviu de argumento, mas no caso do nosso melhor filme do ano foi justamente isso que aconteceu.

O Lobo de Wall Street parte das memórias de Jordan Belford, um artista que sobe de medíocre vendedor de bugigangas a patrão multimilionário de uma corretora responsável por IPOs, graças à capacidade para vigarizar néscios a quem enfiava ações pelas goelas abaixo como se fossem pílulas para a suprema felicidade. Belford não falha nenhum dos mandamentos da arte da intrujice, começando por uma escolha sensata das vítimas (ricos e ignorantes), passando por um trabalho perfeito em termos de promoção (foram vendidas no mercado, como grandes empresas, escolas de judo ou vendedores ambulantes de sapatos), não esquecendo o clássico pump and dump, manigância que consiste em encher as cotações no pós-IPO, até se abrir o apetite da lorparia, para depois despejar a farta-burros colhendo os lucros (a estratégia global pode ser consultada aqui). Nos tempos áureos, a Stratton Oakmont, liderada por Belford, tinha mais de 1000 corretores de bolsa e o dinheiro jorrava ao mesmo ritmo a que se sucediam os excessos que o livro relata em pormenor, mas que o filme apresenta de uma forma bem mais hilariante.

livro lê-se com um certo nó na garganta e até alguma indignação moral (li-o em 2009, em versão brasileira, depois de ter sido recomendado no Expresso pelo Nicolau Santos, que o apresentou para ilustrar por que motivo faliu o Lehman Brothers e estávamos mergulhados numa crise de proporções épicas).

Já o filme é uma barrigada de riso como não houve outra em época recente, muito à custa do excelente trabalho de representação do Leonardo DiCaprio, que compõe um Belford tão excêntrico quanto o original gostaria de ter sido, e ao savoir faire de Martin Scorsese por detrás das câmaras, garantindo uma composição final de grande nível, que suplanta o livro por vários níveis de valor.


Louca a cena em que Matthew McConaughey introduz DiCaprio na arte da corretagem vampira (keep the clients on the fair and there it goes: the party is open 24/7 365, every decade, every God damm century. That's it!), ou a da contratação dos anões para praticar tiro ao alvo (Jonah Hill não compromete e assessora DiCaprio com mão certeira), ou o episódio do afundanço do iate (do filme não consta, mas no livro ficamos a saber que Belford afundou o iate porque chegou à conclusão de que ter um barco era uma bodega sem fim e mais valia acabar com o pesadelo de vez - por que não viver a emoção de um naufrágio?) ou aquela em que, quase no final, um Belford inundado de quaaludes desmantela um Lamborghini!

O Lobo de Wall Street foi o melhor filme que vimos este ano (e não vimos nada poucos), não por tocar ao de leve na temática que nos move nesta casa, mas pela superior montagem de uma história, que pega num livro biográfico que, aparte a excenticidade dos acontecimentos que relata, nada tem de especial (o livro encontra-se num pouco vistoso 111º lugar num top de leituras N€B, que este ano registou a 400ª entrada) e a transforma num acontecimento de 180 minutos em que o cinema assume de facto a arte de entretenimento por excelência! 

Nos prémios que a academia distribui à la carte (chamam-lhes Óscares) o Lobo não ganhou nem o prémio para melhor filme (levou-o um banalérrimo filme de escravos), nem para melhor realizador (Cuarón por Gravidade - confundiram realização com montagem. Oh God!), nem o de melhor ator (foi para o McConaughey por ter a fineza de mostrar ao pessoal como se pode emagrecer até ao osso). Factos que só tornam o filme do Scorsese melhor! A última vez que eu fiquei acordado toda a noite para ver a cerimónia dos Óscares era um jovem chavalo inocente, há vinte anos atrás, e levou-me um tempo dos diabos a conseguir perceber como é que o Pulp Fiction perdeu tudo para uma cagada de que ninguém se lembra chamada Forrest Gump com o Tom Hanks a fazer de lucky retarded. Depois lá me conformei e segui em frente com a consciência de que os galhardetes que aqueles loucos excêntricos distribuem entre si não passam de estátuas decorativas.