12.5.15

PHarol

Pode ser só impressão minha, e inverto 180º já amanhã de manhã se vir que o caldo entornou, mas sou moço para achar que o PSI20 se anda a comportar de forma muito correta e tem sido um regalo vê-lo resistir todo pinoca quando por essa Europa fora tudo arreia com medo de que aos gregos lhes dê o fanico capital. E olhem que por muito inacreditável que possa parecer, fica-se com a ideia de que se não escafederem vai ser porque alguém lhes vai pôr a mão por baixo. E eu acho bem. É que se há coisa que todos aprendemos in vivo nos últimos anos é que uma falência deixa o mercado de pantanas e só é agradável para quem acerta estar bem curto, o que, manifestamente, não é o meu caso neste final de tarde.

Sabeis o que meti ao saco hoje? Não ides acreditar, mas podeis fazer fé porque é verdade e eu justifico! Pois bem, ensaquei umas quantas PHarol! A ver se ponho mais um pouco de luz na carteirinha (trocadilho fácil!). Creio que sabeis que a farol com PH (à antiga) é a PT e, ainda que o nome não tenha sido ainda homologado, como remete para uma empresa de navios mercantes, eu gostei da inovação e por isso, uso-o já (até porque PT deixou de fazer sentido).


Pois bem, a PHarol é uma caquinha, tal como é o Banif (que por acaso também tenho no saco), mas eu gostei de a ver ir a mínimos fazer o célebre duplo fundo. Claro que a ativação só se dá na quebra do máximo intermédio, por volta dos 0,62, mas eu virei-me para mim próprio e disse: carago, por que diabo havemos de esperar pela ativação se se pode comprar já com um rácio ganho/risco tão favorável? 

Se der para torto vende-se na quebra consistente do mínimo e perde-se uma ninharia. 

Se surtir efeito e for para cima, na ativação do dito já estou com uma maquia engraçada no bolso e ainda posso ficar à espera que venham outros acudir para levar o trambolho até lá acima à projeção, por volta dos 0,73€. É bem pensado ou não é? Claro que nós já sabemos que a PHarol (ou lá o que é) depende da Oi que anda tão parida quanto é possível estar uma empresa parida, mas a análise técnica não se compadece com preciosismos: se for para ir para cima, acreditem que os compradores aparecem e os vendedores aguardam!

Fiquem com o gráfico e confiram.


11.5.15

The banker's private room


John Callcott Horsley, Chrysler Museum of Art, 1870

Histórias de dinheiro

História nº 1 (sexta parte)

O negócio que permitiu ao ourives mudar de vida começou, se bem se recordam, com a construção de um cofre-forte que caiu no goto dos vizinhos que começaram a arrendar espaço para guardar os seus valores. O ourives começou, portanto, por se tornar senhorio.

A atividade de prestamista, o primeiro passo para se converter num banqueiro, só se pôde iniciar quando o ourives deu conta de que uma parte do ouro permanecia muito tempo no cofre sem ser levantado pelos seus donos, e podia ser emprestado a quem dele necessitasse, dando-lhe o direito a receber juros (com ouro que, no fundo, não possuía). Por isso, a primeira tarefa do banqueiro foi calcular a probabilidade de uma determinada quantidade de ouro ser reclamada pelos legítimos donos enquanto decorresse o prazo de empréstimo a terceiros. Se essa probabilidade fosse, digamos, 50%, isso significava que o banqueiro só poderia dispor de metade das reservas que se encontram guardadas no cofre para emprestar e arrecadar os juros, sem correr o risco de ter de dizer a algum depositante que não possuía o ouro que lhe foi confiado (o que, evidentemente, seria a desgraça do banco).

Com a introdução do papel-moeda, a quantidade de ouro que permanecia intocada no banco subiu em flecha, o que deu azo a que o nosso banqueiro dispusesse de uma percentagem maior para emprestar, aumentando os proveitos da sua atividade. No limite chegou-se ao ponto em que as reservas do banco deveriam corresponder a apenas 10% do valor emprestado (atualmente, são estes rácios de capital que têm vindo, sistematicamente a ter que ser reforçados).

Para o banqueiro, os problemas começaram quando as vantagens do negócio atraíram competidores, e obrigaram o banco a distribuir pelos depositantes parte dos juros que recebia dos devedores, diminuindo o resultado líquido. No final, o negócio puro da banca acabaria por até nem ser muito atrativo, porque se tratava de receber juros sobre 90% do capital detido, contra o pagamento aos depositantes sobre 100% do montante depositado. E mesmo que houvesse um diferencial significativo entre as taxas cobradas e a taxas oferecidas, o lucro final nunca seria famoso porque havia todo o conjunto de despesas de funcionamento e o risco mais ou menos elevado da atividade de prestamista. Isto, para além do facto já apontado de a riqueza a depositar ser por natureza finita. Mesmo assim, é evidente que ninguém no seu perfeito juízo enjeitaria a possibilidade de deter tamanho poder quanto o que estaria ao dispor dos que dominavam grandes quantidades de capital. Nas mãos certas, a atividade bancária tinha um potencial que estava muito para além da tarefa de canalizar o dinheiro de quem o tinha para aqueles que dele precisavam.

E foi neste ponto que o nosso banqueiro ex-ourives teve a tal ideia epifanense que viria a tornar o negócio dos banqueiros verdadeiramente fabuloso: criar dinheiro a partir da dívida.

10.5.15

Volatilidade


Parece um jogo da bola!! Daqueles da liga dos campeões! Um Barça-Bayern! Entusiasmante, apaixonante, de cortar o fôlego!! Impróprio para cardíacos! Impróprio para muitos!! Ora por cima, ora por baixo. Ora para cima, ora para baixo! Volátil! Isto é bolsa! Muda e nós só temos que mudar com ela!! 
Escrevia, aqui, no domingo passado, e quanto ao nosso Psi (embora outros tais andem na mesma), que o melhor era estar quietinho (talvez com a excepção dos que curtam a simples adrenalina da montanha russa! E para esses não sei que lhes diga!!). Desde então, entre o sobe e o desce, queiram confirmar! Estamos na mesma!!!


Quinta-feira! A marcar a semana!!
Dia repleto! Dia de parada e resposta! Dia que muda, que faz mudar!! Dia da cagufa ao ufa!! Dia de suportes violados! Suportes recuperados! Nos índices, em cotadas! Dia que vira, que sexta confirma e já amanha, quiçá, definirá a curto prazo!! 
O alarme do Dax, a bombar em queda, com vista para os 11000 fez soar a red line, leia-se suportes, nos índices e respectivas cotadas. E caramba, foi, e ainda é (basta olhar para as velas de quinta-feira), tão visível o caganço quando o nosso índice  já orçava em zona de suporte, 5940 pontos, e que quebrada, os 5700 mirava!! Falso alarme! Pelo almoço a coisa começa a mudar de figura. Recupera! Ora pela expectativa crescente que, mais cedo ou mais tarde, haja acordo para a Grécia e já no confirmar do rebote, dia seguinte, a inesperada maioria absoluta dos Conservadores e até mesmo o deslize, à Boateng, do que se previa quanto aos números da criação de emprego nos States!! É que assim, as subidas das taxas aguentam em lume brando à espera de melhores dias!! Os mercados bolsistas agradecem e os investidores, aparecem!! 
Mas graficamente, que não vai de especulações  deixo-vos o semanal do Dax! Vejam onde esbarrou a cotação nesta semana e já agora tirem conclusões da importância para o médio, longo prazo em fecho de semana!! Nós, cá achamos de muita!!


Para terminar, um mais e um menos!
O mais, na Edp! Após o susto de que ninguém se livrou, de quinta-feira, tem uma galgada impressionante de 6% até ao fecho da semana! Quebrando em alta a resistência (já foi suporte) da base do canal, querendo reconquistá-lo, bem como as médias móveis de curto e médio prazo fechado em máximos do dia!


O menos, vai direitinho para a Mota Engil! Comportamento apático, para não dizer decepcionante, quando todas arrepiavam caminho após a queda! Ficando numa situação desconfortável, segurada pelas pontas!! E os 2.70 não ficam assim tão longe!!


Fiquem bem, fiquem com dEUS!
Tanta volatilidade, merece um solo assim! A rasgar!! 


Seis livros sobre a II Guerra Mundial

O final da Segunda Guerra Mundial é o pretexto perfeito para vos sugerirmos 6 leituras que a nós muito nos têm ajudado a lidar diariamente com os desafios que a vida nos vai colocando. É que, estamos em crer, nunca como nessa época foi o ser humano sujeito a tão grandes provações, de uma forma tão sistemática e inovadora, nem jamais se atingiu um extremo tão grande de insanidade, de crença cega e de desumanidade como nesses seis anos. E julgamos que é nos extremos, nos Cisnes Negros (como diz Nassim Taleb no seu livro que fala de acontecimentos raros e de rutura), que devemos procurar os grandes ensinamentos.


O livro do recentemente falecido historiador britânico Martin Gilbert é a grande descrição das decisões dos diferentes governantes e do desenrolar das operações no terreno à medida que a guerra avança. Como introdução ao tema não há melhor, sendo Gilbert pormenorizado q.b., sem ser exaustivo, dando-nos uma perspetiva circunstanciada dos acontecimentos numa base diária, ainda que não entre em grandes pormenores acerca das motivações dos diferentes protagonistas, nem dos debates que antecederam as tomadas de decisões. Peca por uma natural parcialidade britânica e também por não nos dar qualquer vislumbre sobre a realidade concreta no terreno, o modo de vida das populações, os dramas das batalhas ou as consequências diretas na vida dos envolvidos que o desenrolar de acontecimentos tão dramáticos ia tendo. É um livro de relato e nesse sentido acaba por não ir muito mais longe do que documentários que possamos ver no Canal de História, mas mesmo assim, é leitura que se recomenda para aqueles que querem tomar contacto com o turbilhão de acontecimentos históricos. 



Ian Kershaw ficou famoso com a biografia de Hitler que publicou em 2001 e que é considerado como o documento definitivo sobre a vida do fuhrer e a construção da mentalidade nazi. O livro que vos recomendamos começa no dia D (6 de junho de 1944), dia que nas palavras do autor marca o princípio do fim do Terceiro Reich, embora no decorrer da obra percebamos que o fim já estava traçado desde a derrota de Estalinegrado, em fevereiro de 1943, e acaba com a rendição alemã. É a descrição, com detalhe, dos acontecimentos que precipitaram a queda e a desgraça da Alemanha, das decisões cada vez mais irracionais da cúpula nazi, do drama da população alemã vinculada, por um lado, ao líder que seguiu cegamente durante tanto tempo, mas cada vez mais consciente de que a derrota e a vingança dos vencedores seria inevitável. É a história do fecho da tenaz em torno dos cada vez mais isolados nazis, com os russos selváticos por um lado e os aliados implacáveis por outro, numa espiral de brutalidade como nunca antes sucedera.


Antony Beevor é outro profundo conhecedor do tema, com diversas obras publicadas, entre as quais esta sobre os dias do fim da capital do Reich. O livro começa em Berlim, no dia de Natal de 1944, e podemos dizer que se trata de uma visão amplificada da obra de Ian Kershaw. Aqui é o drama das populações que constitui o assunto central e a verdade é que o livro não poupa nos pormenores. A brutalidade da vida dos alemães nesses meses de 1945, quando o feitiço se virou contra eles e se tornam alvo da vingança de ingleses, franceses e, acima de tudo, do exército vermelho, ao mesmo tempo que são massacrados pela própria Wehrmacht ou presos pela Gestapo quando mostram hesitação (ficaram para a história os populares que eram enforcados com letreiros pendurados em que se lia "fui enforcado por ter sido covarde"). É a descrição da loucura final dos dirigentes nazis que impõem uma luta até à destruição final, mesmo quando todos percebem que a derrota é inevitável, e o relato de como muitos não hesitaram em tentar, pura e simplesmente, salvar a pele (veja-se o caso de Himmler), mesmo que para isso tivessem de impor sacrifícios ainda maiores àqueles que durante tanto tempo neles confiaram cegamente.


Como funcionava a Alemanha nazi do ponto de vista económico? Como é que durante uma grande parte da Segunda Guerra Mundial foi feito o saque e a distribuição do despojos de guerra de modo a manter o povo satisfeito e os índices de popularidade de Hitler e dos dirigentes nazis tão elevados? Quais foram as motivações económicas para a guerra? Como é a economia de um estado totalitário, conquistador e esclavagista? É este o assunto do livro do historiador alemão Gotz Aly, que tem a grande mais-valia de nos explicar os desafios que se continuam a colocar mesmo à economia de uma nação que extrai tantos recursos, a um ritmo tão avassalador, a um número grande de países ou a uma parte tão rica da população europeia como eram, por exemplo, os judeus (o caso da Grécia, por exemplo, a que se referem agora os governantes daquele país, com os já famosos pedidos de indemnização, é descrito com detalhe). A forma como se lidou com a moeda, como foi feito o pagamento aos soldados, como a corrupção levou a um acelerar do fim ou como o sistema de favores mútuos entre a população contribuiu para que rapidamente todos estivessem comprometidos com máquina de guerra nazi.


No que diz respeito a obras de ficção sobre a Segunda Guerra Mundial é difícil bater Vida e destino de Vassili Grossman, que juntamente com Kaputt de Malaparte (de que já falamos aqui e aqui), são os grandes relatos da experiência no terreno por quem a viveu. Grossman era soviético e relata-nos as vicissitudes da vida sob o regime de Estaline e os dramas dos combatentes do exército vermelho durante o cerco de Estalinegrado. Perceber o efeito criado na imensa soldadesca pela impossibilidade de recuar, sob pena de Gulag, e o enorme desafio de lutar com um exército nazi aparentemente invencível é o grande trunfo que nos dá este livro monumental que, não sendo de leitura fácil (é colossal, por exemplo, o número de personagens e é fácil perdermo-nos nos nomes e diminutivos russos) acaba por ser pedagogicamente imbatível, por nos dar a conhecer a enorme capacidade de resistência e de adaptação do ser humano.


E deixamos para o fim aquele que, estamos em crer, é o melhor livro de ficção sobre a Segunda Guerra Mundial. Ainda que escrito por um escritor que não viveu os acontecimentos (nasceu apenas em 1967) as Benevolentes de Jonathan Littell tem a força de um registo biográfico. "Irmãos humanos, deixem-me contar-vos como foi que se passou", assim começa o relato na primeira pessoa de Max Aue, oficial das SS, desde que começa a sua formação militar até ao dia em que as Benevolentes descobriram o seu rasto numa Berlim destruída e conquistada pelos soviéticos. A escrita magnífica de Littell (como é que um jovem que na altura tinha menos de 40 anos conseguiu escrever aquilo é algo que ainda estou para perceber!) torna a leitura das quase 900 páginas do livro um prazer raro e, apesar de sermos confrontados com uma realidade cada vez mais violenta, crua, sangrenta e irracional nada há no livro que seja excessivo ou inacreditável. Como é que os nazis justificavam para si próprios os seus atos, como conseguiam aguentar o peso da consciência e de que forma lidavam com o horror diário em que se encontravam atolados é-nos explicado de forma límpida e precisa por Max Aue nas suas deambulações e aventuras. Um livro absolutamente obrigatório se queremos compreender a natureza humana, se gostamos de literatura de grande nível e se nos interessamos pela história e, já agora e porque não, pelos negócios e por negociar em bolsa. Pode não vos dizer muito, mas digo-vos que este livro se encontra no 5º lugar num top pessoal que contém mais de 400 entradas. Vale bem a pena! 

Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.*

Agora, que assinalamos os 70 anos sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, vale a pena rever as imagens das paradas militares de Berlim, em 1940, numa altura em que a guerra relâmpago dava aos alemães o controlo sobre uma grande parte da Europa (a do vídeo que apresentamos teve lugar a 18 de julho e celebra a anexação da França, no apogeu do III Reich).

As imagens da celebração histérica da multidão contêm, quanto a mim, mais pedagogia sobre o assunto principal deste blogue do que a leitura de infinitos livros sobre bolsa e negociação nos mercados financeiros.

Nos 5 anos que se seguiram, todos os que vemos no filme estarão desgraçados ou mortos.


* Nietzsche

9.5.15

Histórias de dinheiro

História nº 1 (quinta parte)

Se a maior parte do ouro permanecia no cofre imenso tempo sem ser levantada, com a invenção das notas de banco, o banqueiro ex-ourives conseguiu fazer com que os levantamentos fossem ainda mais raros e o ouro ficasse esquecido praticamente ad eternumÉ que, não só os depositantes não necessitavam de andar com metal pesado nas carteiras, pois podiam limitar-se a trocar pedaços de papel, como também a atividade de prestamista podia ser levada a cabo com notas do seu banco.

Claro que, para que isso fosse possível, era necessário que as pessoas tivessem a certeza de que, sempre que assim o entendessem, podiam pegar nas notas que possuíam e apresentar-se no banco para receber o ouro correspondente em troca, e que esse ouro seria entregue sem a mínima hesitação. A isso chamava-se confiança, um ingrediente sem o qual a atividade bancária estaria arruinada, como o nosso banqueiro não tardaria a perceber.

O ser humano é, como sabemos, um animal estranho. Inicialmente, tem medo e mantém-se na defensiva, mas se o sucesso despontar, vem a confiança que, cedo, se transforma em ganância.

O banqueiro da nossa história, que é afinal uma imagem de todos os banqueiros da História, vivia angustiado com um problema. A quantidade total de ouro na posse dos seus clientes era, obviamente, bastante limitada. Afinal de contas, o ouro é um metal precioso, entre outros motivos, porque é bastante raro. De maneira que chegaria o momento em que, inevitavelmente, o seu negócio estagnaria, porque não haveria mais ouro para captar e, dessa forma, os empréstimos teriam que cessar. Tanto matutou sobre o assunto, tanto refletiu, que, a dada altura, a solução apareceu-lhe na forma de epifania. E se…

8.5.15

Money


Pink Floyd, Dark side of the Moon, 1973

Histórias de dinheiro

História nº 1 (quarta parte)

O nosso ourives tinha deixado de existir e com ele o simples cofre-forte que tinha construído para guardar os materiais do seu ofício. Em seu lugar, surgiu um florescente banqueiro, cujo negócio corria de-vento-em-popa, e que contava com toda uma infraestrutura de transações financeiras a que, mais tarde, se viria a chamar Banca. Desde que houvesse estabilidade económica e a paz fosse mantida, o trabalho de prestamista do nosso amigo crescia ao ritmo a que aumentavam os depósitos que era capaz de captar. É que, quanto mais ouro emprestasse, mais investimentos eram feitos, maiores eram as transações de bens e matérias-primas, e maiores necessidades de financiamento existiam da parte empreendedora da sociedade.

A juntar a tudo isto, desde que a rede de balcões fosse suficientemente grande, até se podia dar o caso de o banqueiro emprestar ouro que, em última instância acabaria por nem sair do banco. É que quem pedia emprestado, acabava sempre por comprar alguma coisa e, desde que o vendedor fosse cliente do banco, o ouro envolvido na compra voltava para o cofre. E se o banco tivesse estabelecida uma rede internacional, além do lucro obtido com os juros cobrados, ainda era possível recolher proveitos com a manipulação das taxas de câmbio.

Por esta altura, o banqueiro ex-ourives apercebeu-se de que muitos dos seus depositantes procediam a pagamentos mais avultados entregando o recibo que o banco lhes dera, em vez de virem ao cofre levantar o ouro que tinham depositado. Isso deu-lhe a ideia de produzir recibos estandardizados, com valores bem definidos que permitissem aos depositantes proceder a pagamentos de qualquer montante, sem terem a necessidade de levantarem o ouro que estava depositado. Desde que houvesse confiança no mercado de que o valor marcado no recibo correspondia efetivamente a ouro depositado no cofre, os recibos eram transacionados como se de ouro se tratasse, deixando intacta a riqueza para que o banco procedesse a empréstimos. Mais tarde, os recibos do banqueiro viriam a receber o nome de notas de banco e estariam a caminho tempos em que as notas de banco nada mais teriam do que um valor fiduciário.

No tempo do ourives as pessoas só confiavam no ouro e davam por adquirido que os recibos em circulação correspondiam a metal físico, mas na banca moderna, o valor fiduciário de uma nota de banco chega ao ponto de ser assegurado pelo próprio Deus em pessoa (que religiosos nos tornamos!) que, evidentemente, tem o poder de engendrar in actum toda a riqueza que lhe corresponde.

7.5.15

S&P500

S&P500 a obedecer à base do canal. 

A negociação aqui é fácil: quebra o canal em fecho e é venda; mantém a reação e será de esperar um esticanço até máximos! 

Desta vez, confesso que estou um bocado desconfiado de que podemos ir mesmo para baixo, lá mais para o final da sessão ou amanhã. É que nota-se uma dificuldade crescente do índice em se afastar da base (a reação do dia 6 de abril foi a primeira que falhou novos máximos) e há uma fraqueza, denunciada pelas médias móveis, que a mim, pelo menos, me preocupa um bocado (do ponto de vista dos touros, claro!). 

Vamos acompanhar com interesse, porque a manobra promete!


Música para festejar os ganhos em bolsa

Parece um despropósito, mas na Bolsa há sempre quem tenha motivos para festejar!

Pelo sim e pelo não... festejemos!


Jamie xx - Loud Places (ft Romy)

Histórias de dinheiro

História nº 1 (terceira parte)

À medida que o tempo passava, o ourives foi-se apercebendo de que, desde que fizesse um estudo prévio dos clientes que lhe vinham pedir empréstimos e afinasse a taxa de juro com o risco de cada transação, podia reduzir a sinistralidade ao ponto de garantir um negócio bastante seguro e muito lucrativo.

Claro que, quanto mais emprestasse, maiores seriam os lucros, mas para emprestar com segurança, necessitava de captar a maior quantidade de depósitos possível. Por esse motivo, o ourives, que nesta altura do campeonato já se havia transformado naquilo a que mais tarde se viria a chamar um banqueiro, acabou com a cobrança de renda pelo espaço que os aforradores usavam no seu cofre, o que, evidentemente, convenceu mais gente a entregar-lhe as respetivas economias. Mais tarde, quando todos perceberem que o negócio é bom, e o ourives está a enriquecer, outros construírem cofres e a concorrência apertar, o nosso homem ver-se-á obrigado a partilhar parte dos lucros que obtiver com quem o escolher e passará igualmente a pagar juros. Mas por ora, tal ainda não é necessário.

Entretanto, com a riqueza que for acumulando, o ourives/banqueiro pode, não só construir outros cofres e expandir o negócio para outras cidades, mas também diversificar os produtos que comercializa, investindo em outros tipos de matérias-primas, financiando e tornando-se acionista de empreendimentos, ou criando redes de distribuição e transporte de dinheiro que lhe permitissem lucrar com taxas de câmbio. Quando chegar ao ponto de financiar o próprio rei e, por inerência, o estado, estará em condições de influenciar a situação política e terá caminho aberto para se tornar num magnata.

Retrato de um mercador


Jan Gossart, National Gallery of Art, 1530

6.5.15

Histórias de dinheiro

História nº 1 (segunda parte)

Com o tempo, a fama de solidez e fiabilidade do cofre do ourives e a sua honestidade pessoal foram crescendo e mais e mais gente foi ganhando confiança para se decidir a confiar-lhe a guarda dos seus bens mais preciosos.

O nosso ourives, por outro lado, foi-se apercebendo de que havia sempre gente que vinha depositar ouro ou prata, ao mesmo tempo que outros vinham fazer levantamentos, mas, a maior parte das pessoas deixava o ouro e a prata no cofre por muito tempo, pois o que iam ganhando no trabalho do dia-a-dia chegava para fazer face às despesas correntes. De maneira que havia uma grande porção de ouro e prata que ficava pura e simplesmente guardada no cofre sem uso nem serventia.

Claro que o ourives não podia usar esse ouro para produzir produtos para vender, como fazia com o seu próprio fornecimento, e com o lucro comprar mais ouro, repondo o stock inicial, mas havia uma forma alternativa de rentabilizar toda aquela riqueza e que, ainda por cima, implicava muito menos esforço do que o necessário para produzir peças de ourivesaria: o ourives podia emprestar aquela parte dos metais precisos que ficava sempre imobilizada a quem necessitava de capital para avançar com compras ou proceder a investimentos, por um prazo pré-estabelecido, contra o pagamento de um juro previamente acordado. Desde que o ouro fosse devolvido no prazo acordado, ninguém daria pela falta dele e todos ficariam a ganhar!

5.5.15

The banker and his wife


Quentin Metsys, Musée du Louvre, 1514

Histórias de dinheiro

Ainda no seguimento do nosso primeiro aniversário, repomos a primeira série de textos "Histórias de dinheiro" publicada originalmente neste blogue faz agora 1 ano.

História nº 1 (primeira parte)

Era uma vez um ourives que vivia numa cidade distante, há muito, muito tempo atrás. Nesse tempo, o mister do ourives era converter o ouro e a prata em adornos que lhe acrescentassem valor, de modo a que pudessem ser trocados, com lucro, por mais metais e pedras preciosas. Mas como lidava com produtos que toda a gente desejava ter, o ourives vivia numa permanente aflição, com medo de salteadores que lhe descobrissem o buraco onde escondia os bens que produzia e as matérias-primas que ia comprando. Foi por isso que, a dada altura, se decidiu a canalizar parte dos lucros que obtivera para a construção de um cofre sólido o suficiente para desanimar os ladrões.

Quando, finalmente, deu por finalizada a empreitada, o nosso ourives não se coibiu de fazer saber a todos os habitantes da cidade e arredores o quão inviolável era o cofre que tinha construído, de modo a que, chegando a notícia aos bandidos, estes desanimassem de o tentar assaltar.

Mas a publicidade teve um outro efeito que o ourives não antecipou: os bons cidadãos que tinham algumas economias guardadas em casa debaixo do colchão, também tinham medo de ser assaltados e perceberam que era ótimo se pudessem arrendar um espaço no cofre do ourives para lá as colocar em segurança. Foi assim que o ourives passou a receber as economias dos seus vizinhos, a quem passava um recibo sobre o peso do ouro e da prata que guardava e de quem recebia uma pequena renda pelo aluguer do espaço. Quando alguém precisava dos bens que o ourives guardava, para fechar um negócio, só tinha que se dirigir ao cofre e recebia a mercadoria contra a apresentação do recibo.