25.5.15

PSI20

Cremos que não vos daremos novidade nenhuma se dissermos que o PSI20 ficou hoje tente não caias para se esbardalhar todo. Uma ida aos 5940 estará dentro dos conformes e ratificará aquele mini-suporte que tem vindo a funcionar na zona imediatamente abaixo dos 6000 pontos. Estamos, pois, em zona de compras, onde os caçadores de pechinchas andam a coca dos mais medrosos para faturar num possível ressalto, mas se o virem fechar daqui para baixo (e não precisa de ser já amanhã) ponham-se à tabela, porque os que compram no suporte vão ser os primeiros a largá-las e vão fazê-lo sem contemplações, havendo argumentos para levar a coisa à zona dos 5700-5750! 


Os gráficos dos principais índices continuam a dizer que a situação grega vai evoluir de forma atinada e sem hecatombe, e hoje o PSI20 parece ter reagido mais às eleições espanholas que à laracha do ministro helénico, mas com o combate a toques de chegar ao dia D tudo pode evoluir muito rapidamente num ou noutro sentido. Se gostam de emoções fortes, então este mercado é a vossa cara; se são propensos à azia, se puderem, prefiram a praia!

24.5.15

Incumprimento na Grécia

Com que então, de acordo com declarações do ministro do interior, os gregos vão mesmo experimentar incumprir. Tal como os venezuelanos do tempo de Chavez, que se ofereceram benignos para repetir pela enésima vez experiências económicas demagógicas, que desde sempre deram errado, também os gregos comandados pelo Syriza vão entrar de peito feito nessa aventura tantas vezes tentada (e outras tantas falhada), ao longo da história da humanidade, que é o incumprimento de compromissos financeiros.

Cremos, pois, que vamos ter uma semana animada, com os políticos de olhos postos na reação dos mercados e a agir em consonância. O facto de a notícia estar a ser avançada sem grande impacto nos media (até agora) e vir cá para fora através de um personagem menos evidente que o Tsipras ou o Varoufakis tem tudo que ver com a estratégia de deixar espaço para um possível desmentido, se a reação for brutal. E não devemos esperar menos do que turbulência assustadora (aliás, o gap no euro/dólar na sexta-feira já fazia prever que algo de decisivo se iria passar no fim-de-semana). A verdade é que não precisávamos de mais nada para termos montado o cenário para assistirmos a uma situação histórica, mas se juntarmos esta notícia e se os resultados das eleições municipais em Espanha confirmarem as previsões de subida do Podemos e do Ciudadanos, então teremos matéria para repetir pela quarta vez um verão quente (depois da quase falência da república em 2012, do irrevogável episódio de 2013 e do colapso do BES em 2014), sendo que desta vez a tramóia já não é paroquial, mas sim global!

Se o incumprimento com o FMI se confirmar, deixa de fazer sentido prolongar as negociações com os gregos de modo a evitar o incumprimento global, pelo que se passará a uma fase de tentar resgatar o máximo que for possível, com um acordo que evite que eles não paguem nada a ninguém. É provável que se torne incontrolável a fuga de depósitos da Grécia (e é possível que também de outros países, como Portugal, pois muitos dos que perderem dinheiro com os gregos vão ter que sacar de outros países para fazer face ao desfalque!) e não nos admiraríamos que o governo grego tivesse que congelar as contas bancárias e impor uma espécie de corralito. A emissão de moeda própria ou de outro tipo de títulos para pagar os salários e pensões é outro passo que muito provavelmente se vai seguir. 

Claro que poderíamos pensar que a comunidade internacional e, de forma especial, a União Europeia, pressionadas pelo arrojo grego tudo tentariam fazer para forçarem um qualquer tipo de acordo de última hora que evitasse o pior, mas ao olhar para os desenvolvimentos dos últimos dias, fica-se com a ideia de que toda a gente já está farta de negociar e se mostra desejosa de experimentar a solução mais radical. Portanto, dado o primeiro passo de rutura por parte dos gregos, não parece plausível que se volte atrás (a não ser que ocorra um desmentido) e será sensato passar a contar com o pior. Aliás, só o facto de se assumir que não se paga ao FMI, cujos recursos, é bom recordar, resultam das contribuições dos países membros, coloca a comunidade internacional na contingência de ter que reagir de forma exemplar, de modo a desincentivar o incumprimento.

Estamos perante, pois, um cisne negro, um acontecimento improvável e disruptivo, que tem o potencial de mudar as regras do jogo e que cria grandes doses de incerteza. Nos mercados este tipo de acontecimento costuma destruir e criar fortunas consoante estamos do lado certo ou errado da barricada. Vamos ver se desta vez é diferente!

20.5.15

Histórias de dinheiro

História nº 1 (última parte)

A crise que se iniciou em 2007, e viria a agravar-se em setembro de 2008 com a falência do Lehman Brothers, é uma crise de sobreavaliação das reservas do sistema bancário.

Durante a fase de crescimento explosivo do mercado imobiliário os bancos andaram a constituir massivas reservas não com ouro ou prata, mas com hipotecas de crédito à habitação.

O crescimento económico no ocidente nas décadas finais do século XX criou uma sociedade em que os rendimentos crescentes não encontravam escoamento nos produtos tradicionais do mercado, ao mesmo tempo que as políticas sociais conduziram a uma sensação de segurança que desincentivou a poupança tradicional. Na ótica do ourives/banqueiro da nossa história, o que começou a passar-se no final do século XX foi paradoxal: havia mais riqueza para depositar no cofre, mas, devido ao crescente consumo, os valores circulavam entre os cofres dos diferentes concorrentes a uma velocidade tal que obrigava a elevar o rácio de constituição de reservas seguras, ao mesmo tempo que reduzia o negócio prestamista da Banca.

A solução surgiu na forma de crédito a habitação, tradicionalmente um crédito de longo prazo, o que significava que a reserva constituída pela hipoteca seria mantida no cofre por muito tempo. Para além disso, o crédito à habitação vinha com uma panóplia de extras que, em conjunto, rebentavam com o espaço no cofre do ourives mais extravagante: crédito aos construtores, aos fornecedores de todo o tipo de materiais, aos fabricantes de mobiliário, de eletrodomésticos, e de tudo o mais que uma casa pudesse conter e, até, artigos não relacionados, como automóveis e respetivos fabricantes. E para todos esses créditos eram produzidas hipotecas que se amontoavam no cofre do banco, prontas a serem liquidadas, se alguém se apresentasse para fazer levantamentos. E o mais incrível era que o valor das próprias hipotecas no mercado subia, não só porque havia o registo histórico de a habitação nunca ter desvalorizado, mas também porque eram valorizadas enquanto reservas de capital. No fundo era como se o vosso empréstimo de 1000€ ao Amílcar valorizasse e vocês o pudessem vender ao Zeferino, ao fim de algum tempo, por, digamos, 1500€. Uma loucura!

A sensação de segurança de que a sociedade gozava tornou a compra de casa compulsiva e os bancos começaram a ter lucros incríveis com os juros que recebiam, ao mesmo tempo que acumulavam reservas de capital verdadeiramente imparáveis. Com o negócio a carburar dessa forma, não admira que as cotações das ações da banca voassem em Bolsa, arrastando na subida empresas de todo o tipo e feitio, algumas das quais não valiam um vintém furado.

Como os salários e bónus dos conselhos de administração estavam indexados aos resultados obtidos que, por sua vez, influenciavam as cotações em Bolsa e dependiam das reservas de capital, chegou-se a um ponto em que o único objetivo da Banca passou a ser adquirir hipotecas, que eram avaliadas segundo o pretenso valor de mercado do imobiliário, ignorando a capacidade de pagamento de quem pedia o crédito. Em meados da primeira década do século XXI, muito do verdadeiro crédito à habitação estava esgotado e começou a crescer um segmento designado como subprime: uma espécie de crédito de baixa categoria que no limite era concedido a pessoas que recebiam a designação de NINJA (no income, no job or asset). Está tudo dito! Os banqueiros sabiam que essas hipotecas nunca seriam pagas, e também sabiam que os colaterais (as casas hipotecadas) desvalorizariam de forma acentuada quando o mercado fosse inundado de incumprimentos, mas tinham no recibo do salário o incentivo certo para acumularem reservas de lixo nos respetivos cofres.

E sabiam que no dia em que aqueles que neles confiaram para guardar os seus valores lhos viessem pedir de volta, eles não os teriam no cofre, porque tudo o que lá existia era hipotecas de casas que tinham gente dentro que não podia pagar o crédito e, se fossem vendidas, valiam muito menos do que o valor hipotecado. Por esse motivo, os banqueiros começaram a titularizar essas hipotecas e a vendê-las a retalho sob a forma de fundos com nomes pomposos, contando com a cumplicidade das mais tarde famosas agências de rating. No fim, houve países inteiros, como a Islândia ou a Irlanda que, por intermédio dos seus próprios bancos, acabaram por adquirir quantidades colossais desses títulos vendidos como filet mignon, mas que não passavam de chicha cinzenta e com bicho.

O estouro das hipotecas subprime, com a correção fortemente em baixa das reservas do sistema bancário, atirou por terra toda a confiança que existia a nível internacional nos cofres dos ourives/banqueiros dos nossos dias e criou uma crise de liquidez de proporções históricas. A dada altura, quem tinha em mãos títulos de dívida de proveniência mal-afamada tudo o que queria era arranjar quem com eles ficasse, desde que pudesse salvar uma fração do que tinha emprestado. Foi assim que nós, os portugueses, nos transformamos no Amílcar da nossa história e, não só ficamos sem gente para nos emprestar, como aqueles que nos tinham emprestado entregavam por tuta e meia a nossa dívida aos Zeferinos de serviço, fazendo subir os nossos juros nos chamados mercados secundários.

Mas que ninguém se queixe dos gananciosos banqueiros e dos loucos do subprime porque nas democracias é o povo quem mais ordena… mas é também o povo quem paga.

19.5.15

Dar o corpo ao manifesto

A jogada do duplo fundo na PHarol a que fiz referência aqui acabou quando vi o fecho de ontem: hoje, pela matina, entreguei a carga a outro que lhe tenha mais amor. Se agora sobe ou desce deixou de me interessar, uma vez que os pressupostos que me levaram a ir a jogo deixaram de existir. A verdade é que estava definida uma perda máxima de 0,2% para a carteira e nem mais um cêntimo tolerei: na bolsa às vezes investe-se e outras vezes joga-se como se fôssemos catraios, mas no jogo há que ser parcimonioso porque de casino, muito francamente, não gosto! Notem que um negócio deste género não se fecha porque ficamos convencidos de que vai cair (tal como vós, não tenho bola de cristal); um negócio deste, em que não acreditamos na empresa e o gráfico manda fugir, fecha-se porque foi atingido o nosso valor limite. Damos, portanto, o corpo ao manifesto! Nas perdas há que cortar cerce na zona que marcamos com antecedência e se subir a seguir engolimos em seco, insultamo-nos do piorio e depois, com toda a tranquilidade, seguimos em frente. De cabeça erguida e sem más disposições desnecessárias. 

Agora vamos calmamente ver onde há oportunidade de colocar os batalhões: a bolsa o dá, a bolsa o tira, a bolsa o dá. O problema é que não há definições no horizonte e muito francamente dá a ideia de que se anda um bocado a apanhar bonés desde abril e, se for para isso, mantenho-me ao sol que se está melhor!

Hoje o DAX voltou para cima da EMA21, quebrou ali os 11700 e foi direto para a zona de batalha pela conquista dos 12 mil. Pelo que vi, consta que o Varoufakis voltou para mais uma partida do joguito a que se tem entregue nas últimas semanas e reafirmou que há acordo para breve, de maneira que o mercado voltou a explorar outra vez essa possibilidade, à procura de um sell on the news quando e se acabarem com a novela. Por outro lado, o membro francês do conselho de governadores do BCE veio reafirmar que o QE é para implementar a todo o vapor, apesar das dúvidas levantadas pelo surgimento de inflação! Para verificarmos se o mercado acredita é ver se o euro continua a cair amanhã. Se sim, sou sujeito para me virar para a Altri (infelizmente, só depois do fecho vi o gráfico certeiro que o Nuno Cortez colocou aqui). 

O pagamento da dízima


Peter Brueghel (o jovem), Fisher Museum of Art, 1615

Histórias de dinheiro

História nº 1 (décima parte)

Como é evidente, a possibilidade de o nosso ourives/banqueiro manter apenas 10% de reservas relativamente ao valor que tinha depositado no cofre, colocando os restantes 90% a circular em empréstimos, embora estivesse alicerçado num registo histórico alargado que garantia alguma segurança, não era isento de riscos. Claro que se por algum motivo se gerasse medo nos depositantes, podia ocorrer uma corrida ao cofre e o ourives pura e simplesmente não teria ouro disponível para satisfazer todos os legítimos pedidos de quem nele confiou. Nessa altura, na impossibilidade de reaver imediatamente o ouro que emprestou, seria certa a liquidação do banco e a venda total do seu património que, mesmo assim, não chegaria para reembolsar todos os arrendatários do cofre. O mais provável, portanto, seria que o nosso ourives, a menos que se pusesse ao fresco, aparecesse morto numa valeta de estrada!

Com o tempo, a própria dinâmica da sociedade levou a que o ouro, a prata ou as pedras preciosas deixassem de ser as únicas reservas de valor, o que tornou possível acrescentar ao cofre valores das mais variadas proveniências, incluindo, como vimos, reservas de própria dívida. Isso deu aos banqueiros a possibilidade de criar dinheiro (recibos) a partir dos empréstimos que faziam. Visto com os olhos do nosso ourives/banqueiro, o que acontecia é que, de cada vez que um depositante se apresentasse para levantar ouro que tinha depositado no cofre, tudo o que havia a fazer era vender hipotecas que aí estavam e transforma-las em ouro para entregar ao cliente, uma vez que as hipotecas eram mercadoria que podia ser transformada em outro valor qualquer!

Claro que, para que as hipotecas fossem realmente uma reserva de valor, era necessário que estivessem bem avaliadas. Evidentemente, se o banco dizia que tinha uma hipoteca que valia 1000, mas só a conseguia vender por 100, então ia ter um problema em satisfazer pedidos de levantamento dos clientes. Para impedir a sobrevalorização das hipotecas e a correspondente constituição de reservas fictícias foi sendo desenvolvida legislação regulatória e foram criadas entidades supervisoras cuja missão era zelar para que não houvesse risco de desvalorização súbita das reservas do sistema bancário. E durante muito tempo, o sistema permaneceu sólido e robusto porque havia um equilíbrio conservador entre reservas e empréstimos.

Nos finais do século XX, toda essa estrutura de regulação começou a ser desmantelada nos EUA, no mandato do presidente Clinton, porque tornou-se norma uma ideia liberal de que o mercado se encarregaria de castigar com a falência quem constituísse reservas insuficientes ou avaliasse por cima as reservas que possuía e isso seria suficiente para manter o sistema saudável. O processo de desregulação continuou durante o consolado de Bush filho, numa época que coincidiu com o boom do mercado imobiliário e, por volta de 2007, já nenhum banqueiro se preocupava verdadeiramente com a fiabilidade da avaliação das hipotecas que tinha no cofre. Nessa altura, a maioria das hipotecas provinha, pois, de crédito a avaliação, para casas que valiam x, eram vendidas por 3x e avaliadas por 5x, aumentando de forma automática as reservas do banco em 5x tendo por colateral real x (permitindo ao banco fazer novos empréstimos numa espiral verdadeiramente louca e imparável). 

Cedo se perceberia que as reservas estavam inacreditavelmente sobreavaliadas. E o pior foi que todos entraram em pânico quando compreenderam que não estavam ao abrigo das péssimas reservas dos todos os outros. No fundo foi como se o ourives tivesse descoberto que tinha armazenado ouro no cofre que subitamente ganhara ferrugem, ao mesmo tempo que se apercebeu de que o ouro que ele próprio tinha depositado em cofres de concorrentes também podia ter sido confundido com ferro!

18.5.15

Bad news are good news are bad news

O mercado segue tendências que são definidas pelo confronto diário entre as expectativas do passado, a realidade do presente e as expectativas quanto ao futuro.

Enquanto a maior parte de nós, investidores caseiros, andamos prá'qui a tentar acertar no que vai dar dinheiro logo que possível, uns mais escarmentas com investimentos ruinosos de longo prazo e outros armados em especuladores de algibeira, aqueles que têm por modo de vida a arte de gerir fortunas não se podem dar ao luxo de fazer opções assentes em meros palpites ou puramente na análise técnica de gráficos. A esses cabe-lhes, como é evidente, meter mesmo a mão na massa e perspectivar, em cada momento, a evolução das diversas variáveis que podem influenciar o andamento da economia de um ponto de vista macro e também o desempenho relativo das diferentes áreas de negócio. E são esses, claro, que acabam por inevitavelmente traçar a tendência dos mercados, ao reagir às expectativas que vão criando.

Graças ao bom desempenho global da economia americana foi-se criando, ao longo dos últimos meses, a expectativa de que as taxas de juro subiriam inevitavelmente no decorrer deste ano, marcando o início de um ciclo de maior restrição em termos de crédito que evitasse a formação de bolhas especulativas. Maiores restrições em termos de crédito significam geralmente menos recursos para investir nos mercados financeiros, o que aliado a uma possibilidade real de as empresas investirem menos e ganharem menos dinheiro costuma levar a que a bolsa corrija em baixa. Acontece que juntamente com a crise grega e com o QE do BCE a expectativa de subida de juros na América levou a uma subida do dólar face ao euro o que acabou por prejudicar as exportações americanas, contribuindo para uma descida das encomendas industriais, para um crescimento anémico do PIB trimestral e um ligeiro aumento do desemprego. Esses dados económicos maus reduziram, por sua vez, as expectativas de que a Fed suba os juros a breve prazo para arrefecer uma economia que não parece muito quente, o que levou a que, entre outras coisas, a bolsa retomasse a subida. É que aqueles que tinham a expectativa de que haveria descida foram levados a encarar a possibilidade de estarem enganados. Portanto, as más notícias da economia foram boas notícias para os mercados, que estão a marcar máximos históricos.

Só que a mudança de expectativa para uma subida menos expedita de juros americana fez tombar o dólar face ao euro, o que criou a expectativa de que as empresas exportadoras europeias saiam prejudicadas, coisa que, de resto, já parece estar a acontecer, atendendo a alguns números que têm saído. De maneira que a más notícias americanas se transformaram, por ora, nas boas notícias para os índices do lado de lá, e nas más para os de cá que têm ainda que contar com o lastro grego.

Dissemos aqui que tínhamos a expectativa de que o S&P500 pudesse quebrar em baixa o canal de longo prazo no último assalto. Não o fez e como tal invertemos a expectativa (já andamos nisto há tempo suficiente para perceber de que não há nada que seja mais devastador nos mercados do que entrarmos num dado movimento antes do tempo). Hoje fez máximos, mas o volume não foi famoso o que costuma ser sinal de alguma dificuldade em progredir. Mas máximos históricos têm sempre muita força, e ainda que haja naturais correções, é preciso ser realista porque a tendência é clara! Para cima há um valor a vigiar no topo do canal (hoje nos 2200 pontos)*; para baixo, o gráfico manda olhar para a base nos 2090. 


*Da última vez que fez máximos vindo da base do canal, em fevereiro último, o S&P500 não conseguiu atingir o topo ficando a 1% desse valor.

Histórias de dinheiro

História nº 1 (nona parte)

Apesar de os empréstimos que nós fazemos poderem ser considerados bens com valor intrínseco, ninguém no seu perfeito juízo vai fazer empréstimos só para ter mercadoria dentro de loja e poder realizar capital com vendas. É que os empréstimos implicam que nós abdiquemos de uma parte da nossa riqueza e, apesar de as dívidas trazerem o bónus dos juros que acordamos, a não ser que incorramos no pecado da usura, é altamente improvável que uma dívida valorize ao ponto de a atividade de prestamista ser interessante. No fundo, um empréstimo é a troca direta de tempo por juros: abdicamos de um bem no imediato, em troca de um suplemento para o mesmo bem ao fim de algum tempo. No final, acaba por ser uma espécie de jogo de soma nula.

Mas agora vejam a atividade de prestamista do ponto de vista da Banca. Quando um banco empresta dinheiro tudo o que faz é colocar um número, que representa o tal recibo do antigo banqueiro/ourives, na conta bancária do cliente. Com esse número, o cliente pode fazer os pagamentos que entender, mas nunca haverá verdadeiro valor a sair do sistema bancário porque, em princípio, nunca sucederá que todos os possuidores de “recibos” emitidos pelo banco (números em contas bancárias, notas ou cheques) acudam a reclamar pelo valor que eles representam. Em troca da escrita do número na conta bancária do cliente, o banco recebe uma hipoteca que assegura o retorno do recibo ao banco sob a forma de efetivo valor (porque sairá do trabalho e do engenho do cliente), acrescentado do juro acertado, com a garantia de que, caso ocorra incumprimento, passará para a posse do banco um bem de valor fidedigno que substitui a palavra do cliente.

Portanto, ao contrário do que se passa com cada um de nós, o banco não tem que abdicar de nada para poder emprestar. E é aqui que está o toque de Midas da banca. Os empréstimos são verdadeira mercadoria que acrescentam valor real ao que existe no cofre (uma vez que são feitos sem que exista saída de valor do cofre, ao contrário do que sucede com cada um de nós). Na banca, os empréstimos não são de soma nula.

Vamos supor um banco (um banquinho) que tem valores no cofre correspondentes a 1000€ de capital. Como, em princípio, ninguém vem reclamar esses valores (porque os clientes passam a vida a trocar entre si os recibos que o banco emitiu), o banco pode emprestar esses 1000€ e cobrar juros sobre eles.

Mas não faz exatamente isso.

Em primeiro lugar, é necessário garantir alguma margem de segurança (reservas), porque é sempre possível que alguns clientes reclamem os valores depositados! Digamos que é sensato reter 10% do valor do cofre. Dessa forma, o nosso banquinho pode dispor de 900€. Agora imaginem que um cliente se apresenta para solicitar um empréstimo nesse valor. O banco inscreve na conta bancária do cliente os 900€ e recebe em troca uma hipoteca que, em princípio, terá o mesmo valor, e que é colocada no cofre, passando a dispor de valores de 1900€. Agora, já pode fazer um novo empréstimo, nos mesmos moldes, de 810€, que levará o valor no cofre para 2710€ e lhe permitirá fazer outro empréstimo de 729€ e assim sucessivamente. No final, o valor inicial de 1000€ vai permitir ao banco fazer empréstimos de 10000€ mantendo as reservas de 10%, sendo o valor criado pelas hipotecas que, por sua vez, são cobertas pelo trabalho do cliente ou pelo bem dado como garantia. O próprio Senhor não faria milagre maior!

Portanto, quantos mais empréstimos o banco fizer, mais valoriza o cofre, se estiver cotado em Bolsa mais as suas ações valorizam e mais dinheiro ganha e dá a ganhar! E ainda é possível fazer alguns truques como, por exemplo, sobreavaliar as hipotecas: se o empréstimo de 900€ for avaliado como 1000€, o banco poderá dispor logo de mais dinheiro para emprestar. No meio disto tudo, é evidente que a taxa de juro cobrada no empréstimo pode ser bastante inferior ao que seria normal. Se vocês têm 1000€ e só podem emprestar esses 1000€ a taxa de juro é primordial: entre 5 e 10% há uma diferença relevante (50 ou 100€ por ano). Mas, se com esses 1000€ podem emprestar 10000€, passam a obter o mesmo rendimento com taxas de 0,5 ou 1%. E depois a concorrência encarregar-se-á de baixar ainda mais as taxas cobradas.

Agora já sabem por que motivo a casa de tanta gente foi avaliada como se tivesse sanitas de ouro e o vosso spread, se for suficientemente antigo, é tão baixo. E como é que houve tanta fartura e facilidade e mesmo assim os bancos tiveram lucros fabulosos.

The Parable of the Rich Fool


Rembrandt, Gemaldegalerie, 1627

15.5.15

Histórias de dinheiro

História nº 1 (oitava parte)

Claro que no século XX, já ninguém vê nas notas que leva na carteira recibos que o banco está obrigado a converter em ouro. De facto, tanto o dinheiro como o metal precioso tornaram-se mercadorias cujo valor relativo é assegurado pela velhíssima lei da oferta e da procura, como sucede, aliás, com tudo quanto existe. E isso sucede até com as dívidas, que acabaram por ser transformadas em mercadoria, já que têm também um valor relativo, podendo ser transacionadas no mercado através de títulos (titularização das dívidas). Trata-se de uma ideia não tem nada de especial e aplica-se frequentemente no nosso dia-a-dia.

Imaginem que o vosso amigo Amílcar (bem sabemos que não têm um amigo chamado Amílcar, mas vamos fazer de conta que têm) vos pede emprestado 1000 €, por um prazo de 5 anos, comprometendo-se a pagar 10% de juros ao ano: no final de cada ano recebem 100€ do Amílcar, e ao completar o quinto ano irão receber 1100€.

Acontece que, logo depois de receberem a segunda prestação de juros, vem a notícia de que o Amílcar tem as contas lá de casa no vermelho e já nem paga luz, nem água e corre o risco de ser despejado. Vocês ficam aflitos, a ver a vossa vida andar para trás, com medo de que o Amílcar, não só deixe de pagar os juros, como renegue o empréstimo.

É nesta altura que entra em cena o Zeferino, que é um indivíduo que não se importa de arriscar, desde que esteja em causa uma pechincha. O Zeferino propõe-se comprar-vos a dívida do Amílcar, caso vocês estejam dispostos a fazer um desconto. No fim, lá chegam a acordo e o Zeferino entrega-vos 500€, assumindo a titularidade da dívida.

É evidente que para vós, o negócio foi uma caca. Receberam 200€ de juros mais os 500€ que o Zeferino pagou pela dívida: 700€, ao fim de 2 anos, em troca de terem dado 1000€. Perderam dinheiro mas, pelo menos, o negócio de venda da dívida livrou-vos de perdas maiores. A dívida foi uma mercadoria que puderam transacionar.

Para o Zeferino, se as coisas correrem bem, pode ser um negócio muito interessante. Paga 500€ à cabeça, mas pode receber 1300€ (300€ de juros mais 1000€ da liquidação). Incrivelmente, uma taxa de juro inicial de 10% transformou-se numa taxa anual de 53%. A desvalorização da dívida do Amílcar, por ele estar a passar por dificuldades, traduziu-se num aumento da taxa de juro dos seus títulos. Da próxima vez que o Amílcar tiver que pedir emprestado, já é bem capaz de não chegar 10% do empréstimo para o serviço de dívida.

Mas é possível que a coisa ainda sofra um outro volte-face. Imaginem que, ao fim de mais um ano, o Amílcar ganha o euromilhões e resolve liquidar todas as dívidas de uma só vez. O Zeferino receberá 1100€ para liquidar uma dívida de 500€. A taxa de juro passou para 120% ao ano. Grande negócio!

Na verdade, pois, a dívida sempre foi uma mercadoria transacionável e sujeita às regras da convivência em sociedade. O que acabou por tornar o processo insólito foi a possibilidade de a dívida, por si só, permitir fazer dinheiro. Mas disso falaremos no próximo episódio.

A goldsmith in his shop


Petrus Christus, Metropolitan Museum of Art, 1449

14.5.15

O Dax. A volatilidade. E a mola da volatilidade do Dax!

A base do canal parece pelar! E é a mola do titulo acima! É a volatilidade das quintas! E é o semanal do Dax! 


Boa sexta! Bom fim-de-semana!





13.5.15

Histórias de dinheiro

História nº 1 (sétima parte)

Vamos voltar ao ponto em que deixamos o nosso recém-banqueiro que lutava para tornar o negócio mais rentável e teve a epifania de rentabilizar a própria dívida.

Quando o banco nos empresta dinheiro, digamos para comprar uma casa, coloca-nos na mão um recibo (notas de banco, cheque ou simplesmente um número na conta bancária) com o qual nós, em princípio, poderíamos levantar ouro do cofre do banco, para entregar ao vendedor como pagamento da casa. Em troca, entregamos ao banco uma hipoteca em que nos comprometemos a liquidar o capital mais os juros acordados, num prazo definido, sob pena de a nossa compra ser executada e entregarmos um bem de uma só vez.

Só que, em vez de procedermos ao levantamento do ouro do cofre, pegamos no recibo e passamo-lo para as mãos do vendedor que, muito provavelmente, o voltará a depositar no banco, aumentando o quinhão de ouro a que teria direito, mas deixando o metal intacto nos cofres do banco. Claro que o vendedor pode depositar o recibo noutro banco, obrigando o nosso ourives a transferir ouro para a concorrência. Antigamente, este problema resolvia-se de espada em punho; hoje em dia, optamos por uma solução menos sangrenta: um banco central!

Mas a genialidade do nosso banqueiro veio ao de cima quando ele compreendeu que a hipoteca que  lhe tínhamos entregue tinha um valor intrínseco. Embora não fosse metal precioso, quem não gostaria de possuir hipotecas de outros a nosso favor. Afinal de contas, uma hipoteca garante o pagamento de uma renda, ao mesmo tempo que assegura que, em caso de incumprimento, temos direito a uma indemnização. Portanto, é, em si mesmo, um valor. Os empréstimos que os bancos fazem são património que detêm, ao passo que os depósitos dos clientes são dívidas. No fundo, as hipotecas acrescentam valor ao ouro que o banqueiro tem no cofre (porque para as adquirir, o banqueiro não prescindiu de ouro, mas emitiu notas - dinheiro). E é aqui que a coisa começa a carburar: ao acrescentar hipotecas ao cofre, sem retirar ouro, o banqueiro aumenta as suas reservas e pode, dessa forma, fazer novas hipotecas.

Quantas mais hipotecas fizer, mais juros recebe, mais reservas possui e mais hipotecas pode fazer. Elementar e genial!

No final, se quiser manter a regra de possuir reservas de 10% do valor que põe a circular, pode operar a magia de multiplicar por 10 as reservas de capital efetivo.

12.5.15

PHarol

Pode ser só impressão minha, e inverto 180º já amanhã de manhã se vir que o caldo entornou, mas sou moço para achar que o PSI20 se anda a comportar de forma muito correta e tem sido um regalo vê-lo resistir todo pinoca quando por essa Europa fora tudo arreia com medo de que aos gregos lhes dê o fanico capital. E olhem que por muito inacreditável que possa parecer, fica-se com a ideia de que se não escafederem vai ser porque alguém lhes vai pôr a mão por baixo. E eu acho bem. É que se há coisa que todos aprendemos in vivo nos últimos anos é que uma falência deixa o mercado de pantanas e só é agradável para quem acerta estar bem curto, o que, manifestamente, não é o meu caso neste final de tarde.

Sabeis o que meti ao saco hoje? Não ides acreditar, mas podeis fazer fé porque é verdade e eu justifico! Pois bem, ensaquei umas quantas PHarol! A ver se ponho mais um pouco de luz na carteirinha (trocadilho fácil!). Creio que sabeis que a farol com PH (à antiga) é a PT e, ainda que o nome não tenha sido ainda homologado, como remete para uma empresa de navios mercantes, eu gostei da inovação e por isso, uso-o já (até porque PT deixou de fazer sentido).


Pois bem, a PHarol é uma caquinha, tal como é o Banif (que por acaso também tenho no saco), mas eu gostei de a ver ir a mínimos fazer o célebre duplo fundo. Claro que a ativação só se dá na quebra do máximo intermédio, por volta dos 0,62, mas eu virei-me para mim próprio e disse: carago, por que diabo havemos de esperar pela ativação se se pode comprar já com um rácio ganho/risco tão favorável? 

Se der para torto vende-se na quebra consistente do mínimo e perde-se uma ninharia. 

Se surtir efeito e for para cima, na ativação do dito já estou com uma maquia engraçada no bolso e ainda posso ficar à espera que venham outros acudir para levar o trambolho até lá acima à projeção, por volta dos 0,73€. É bem pensado ou não é? Claro que nós já sabemos que a PHarol (ou lá o que é) depende da Oi que anda tão parida quanto é possível estar uma empresa parida, mas a análise técnica não se compadece com preciosismos: se for para ir para cima, acreditem que os compradores aparecem e os vendedores aguardam!

Fiquem com o gráfico e confiram.


11.5.15

The banker's private room


John Callcott Horsley, Chrysler Museum of Art, 1870

Histórias de dinheiro

História nº 1 (sexta parte)

O negócio que permitiu ao ourives mudar de vida começou, se bem se recordam, com a construção de um cofre-forte que caiu no goto dos vizinhos que começaram a arrendar espaço para guardar os seus valores. O ourives começou, portanto, por se tornar senhorio.

A atividade de prestamista, o primeiro passo para se converter num banqueiro, só se pôde iniciar quando o ourives deu conta de que uma parte do ouro permanecia muito tempo no cofre sem ser levantado pelos seus donos, e podia ser emprestado a quem dele necessitasse, dando-lhe o direito a receber juros (com ouro que, no fundo, não possuía). Por isso, a primeira tarefa do banqueiro foi calcular a probabilidade de uma determinada quantidade de ouro ser reclamada pelos legítimos donos enquanto decorresse o prazo de empréstimo a terceiros. Se essa probabilidade fosse, digamos, 50%, isso significava que o banqueiro só poderia dispor de metade das reservas que se encontram guardadas no cofre para emprestar e arrecadar os juros, sem correr o risco de ter de dizer a algum depositante que não possuía o ouro que lhe foi confiado (o que, evidentemente, seria a desgraça do banco).

Com a introdução do papel-moeda, a quantidade de ouro que permanecia intocada no banco subiu em flecha, o que deu azo a que o nosso banqueiro dispusesse de uma percentagem maior para emprestar, aumentando os proveitos da sua atividade. No limite chegou-se ao ponto em que as reservas do banco deveriam corresponder a apenas 10% do valor emprestado (atualmente, são estes rácios de capital que têm vindo, sistematicamente a ter que ser reforçados).

Para o banqueiro, os problemas começaram quando as vantagens do negócio atraíram competidores, e obrigaram o banco a distribuir pelos depositantes parte dos juros que recebia dos devedores, diminuindo o resultado líquido. No final, o negócio puro da banca acabaria por até nem ser muito atrativo, porque se tratava de receber juros sobre 90% do capital detido, contra o pagamento aos depositantes sobre 100% do montante depositado. E mesmo que houvesse um diferencial significativo entre as taxas cobradas e a taxas oferecidas, o lucro final nunca seria famoso porque havia todo o conjunto de despesas de funcionamento e o risco mais ou menos elevado da atividade de prestamista. Isto, para além do facto já apontado de a riqueza a depositar ser por natureza finita. Mesmo assim, é evidente que ninguém no seu perfeito juízo enjeitaria a possibilidade de deter tamanho poder quanto o que estaria ao dispor dos que dominavam grandes quantidades de capital. Nas mãos certas, a atividade bancária tinha um potencial que estava muito para além da tarefa de canalizar o dinheiro de quem o tinha para aqueles que dele precisavam.

E foi neste ponto que o nosso banqueiro ex-ourives teve a tal ideia epifanense que viria a tornar o negócio dos banqueiros verdadeiramente fabuloso: criar dinheiro a partir da dívida.