15.6.15

Programa para amanhã

Amanhã vigiar os 5530 no PSI20. Se lá for: reação convicta, compra; quebra em fecho, mau maria para o longo prazo (que no curto já ninguém o salva)! 

Opinião pessoal: vai regressar a especulação acerca de um acordo. Contaram no telejornal que a separação é de 2000 milhões anuais. Diabos os levem se não conseguirem encontrar esses trocos e pouparem o povo benévolo a uma experiência que pode ser bem desagradável! Lá para quarta, regressa o medo e na quinta há fumo branco! Que assim seja!


E onde pôr o dinheiro perguntam vocês? 

Vão levar a mal de certeza aquilo que eu vou dizer, mas sabem que voltei a deitar um olho à Pharol?! É o pior gráfico do PSI20, disso não há dúvida, mas já é o pior há imenso tempo (e quem não tem um gráfico feio depois da sessão de hoje?). O que é certo é que hoje a queda até foi módica relativamente aos últimos dias e quando a coisa parecia mais tesa noutros títulos neste apareceram compradores. Atribuo esse facto ao enorme gap entre o valor da Oi e a cotação deste farolim tuga: aos preços de fecho da Oi hoje, a Pharol deveria estar a cotar nos 0,47€, cerca de 30% acima do valor a que encerrou a sessão. Se isto nos deve levar a comprar à maluca? Na minha opinião deve! Até porque todos sabem onde pôr o stopzito ;))

Agora descansem e não pensem nos mercados. Afinal de contas, não se trata de dinheiro: são apenas números (e amanhã já temos outros diferentes)!

After all, it's Money for nothing...


Dias históricos

Este fim de semana li, já não vos sei dizer onde, que os chamados fundos abutre, que sempre se colocam para aproveitar as ocasiões em que o dinheiro flui com fartura num ou noutro sentido, têm estado posicionados de maneira a aproveitar um acordo de última hora na Grécia! 

Não pude deixar de pensar que esse tem sido, precisamente, o sentimento do mercado como um todo nestas últimas semanas ou mesmo meses. Toda a gente acha que o cenário de incumprimento de um país da zona euro tem consequências tão imprevisíveis que jamais os políticos deixarão que tal suceda. Depois do que se seguiu à falência do Lehman Brothers, em 2008, ninguém acredita que uma situação de falência descontrolada possa voltar a ser experimentada, quando está em causa uma instituição (neste caso, um país) cujo incumprimento leva, com toda a certeza, a uma reação em cadeia (bem sabemos que os principais credores dos gregos são o FMI, alguns países da zona euro e o FEEF, mas não deixa de ser verdade que um rombo deste tamanho tem sempre que ser compensado, e nunca há compensações sem danos colaterais).

A verdadeira tragédia grega é que começa a ser evidente que a situação está a escapar ao controlo dos políticos. Tanto do ponto de vista dos gregos, como do dos credores internacionais, um acordo comprado à base de cedências, ainda que mínimas, tem já, neste momento, fortíssimas probabilidades de ser rejeitado pelas respetivas opiniões públicas (veja-se o que se passa na Alemanha, com o vice chanceler a ter de vir ontem desmanchar as palavras apaziguadoras da chanceler na semana passada). Tanto para uns como para outros vai crescendo, pois, a tentação de experimentar o que seria, até há bem pouco tempo, inexperimentável. 

Ora é isto, justamente, que o mercado começa a incorporar. E acredito bem que haja posições bastante alavancadas, que pretendiam explorar um cenário de acordo de último minuto, cuja razão de ser começa a ser questionada. Quando e se essas posições começarem a ser desfeitas vamos pôr definitivamente os touros à prova. E ninguém me tira de mente a ideia de que estaremos muito próximos do momento da verdade!

Fiquem com o filme que a BBC produziu a propósito dos últimos dias do Lehman, enquanto aguardamos pelo documentário que hão de produzir sobre os dias históricos que estamos a viver.


12.6.15

Fim do ressalto

O ressalto a que fizemos referência aqui acabou quando se atingiram os valores que era suposto atingir-se e nem um milímetro a mais nos foi dado pelo mercado. Confiram, p.f.:

PSI20


DAX


O PSI20 está neste momento a testar a linha tracejada a preto (veremos se sustem o impacto ou se quebra). Quebrando, vamos outra vez a linha vermelha, a média móvel de 200 dias e o caso pode-se complicar significativamente se houver quebra em baixa. Para cima, o cenário está tão obstruído que diríamos que, mesmo em caso de acordo grego, só teríamos gás para um ou dois dias! Nesse caso, voltaremos a falar!

No DAX ninguém nos tira de ideia um reteste aos 10900 que, em caso de negação, pode até conduzir a uma descida (intraday?) à linha vermelha nos 10500 pontos. Para cima, talvez a reconquista da LTa do início do ano, nos 11500 pontos, possa dar argumentos aos bulls para fazerem face à ursalhada. Mas, sou-vos franco, o cenário está bom para ir ao Santo António (ou, em alternativa, entrar curto)!

São assim os ressaltos: entramos mal nos apercebemos deles e batemos em retirada ao serem atingidos os nossos alvos. Se estes forem quebrados em alta e em fecho podemos sempre entrar de novo, mas que ninguém faça confusão entre um ressalto numa tendência de queda e um movimento ascendente definido! E façam o favor à vossa carteira de tirarem as notícias da equação: acreditem que estas estão plasmadas nos gráficos por antecipação!

9.6.15

Dois gráficos

Em paralelo com o que foi publicado há momentos deixo-vos dois gráficos. A Altri e a Mota Engil, embora na Altri o momento para possível ressalto tenha surgido hoje nos 3,35! Mas fica o gráfico. Vejam, analisem o momento e decidam se vale a pena. 



Boa noite. Bom feriado. But keep your eyes wide open! Non stop! 
Boas decisões!

 


E lá fomos testar a EMA200...

Se este mercado ainda está disponível para dar uma chance ao bull market, então hoje pode ter sido um bom dia para uma inversão de curto prazo!

O PSI20 fez um martelinho quando cheirou a SMA200 (costuma ser improvável uma quebra ao primeiro assalto e desta vez, também, a regra confirmou-se). Um nível com vários toques por volta dos 5550, a sobrevenda do índice e um certo pânico que se instalou, pelo menos, em alguns títulos, tornaram, pois, a reviravolta diária inevitável:


Uma subidinha agora já não será de descartar e deve ser levada em linha de conta por parte dos que estão menos doridos do campo de batalha. O problema é que o rácio ganho/risco genericamente não é lá grande coisa, uma vez que a queda deixou ali alguns valores com que vai ser necessário contar. Desde logo, tenham em atenção que o ressalto pode ficar-se pelos 5720, suporte que agora passou a resistência ou, com um pouco mais de gás, poderá ir aos 5800, EMA9 de curto prazo! Daí para cima, vai-nos obrigar a um outro post. Para baixo, é fácil: olhem para a média móvel e pirem-se se o artolas a quebrar em fecho (se assim for, será de esperar uma vinda pelo menos à linha tracejada vermelha).

A propósito de análise com médias móveis, vejam o que fez o IBEX:


O DAX, esse, fez em 2 dias o que prognosticamos aqui e também ressaltou como era de lei. Se isto fosse uma ciência exata, estaríamos a falar num spike até aos 11300/350. Mas não é, e nada obriga os vendedores a terem calma e os compradores a abrirem os cordões a bolsa, pelo que a descida pode seguir em marcha forçada como até aqui. Para baixo, a quebra dos 10800 coloca-o na rota da SMA200 (o facto de ainda lá não ter chegado pode ser motivo mais do que suficiente para um possível ressalto do DAX ser menos provável do que o de outros índices).


7.6.15

Jay Jay Johanson

Jay Jay Johanson fez parte da banda sonora dos meus dias de estudante universitário, estando incluído num lote restrito em que figuravam nomes como Tindersticks, dEUS, Morphine, Belle and Sebastian ou os Radiohead.

Depois de ter falhado por uma nesga o Primavera Sound, era inaceitável, portanto, não estar presente no concerto que o sueco vai dar logo à noite no Theatro Circo, em Braga. 

So tell the girls... do album de estreia Whiskey é um tema ao mesmo tempo tristonho e pleno de autoconfiança, que nos transmite uma sensação de bem-estar e de força como só conseguem criar aquelas músicas que ficam connosco para sempre.


Mais tarde, Johanson virou para uma corrente mais elétrica e dançável e, apesar de estar um pouco mais afastado da minha onda, o ritmo mantinha uma leveza que impedia a sua música de ser cansativa. Durante os 10 anos em que mantive um programa de autor numa rádio local foi, por isso, presença assídua no alinhamento.

6.6.15

Silly season

Com o mercado já em plena silly season a nós tem-nos parecido melhor estar a ver da bancada, que é como quem diz da praia, que era o sítio onde estaríamos se não andássemos debaixo de água com o serviço que o patrão achou que nós tínhamos arcaboiço para aguentar. 

Todos sabem que maio é mês para começar a gozar os proveitos da primeira metade do ano e estoirar dinheiro (fora da bolsa, bem entendido). Começarmos a tratar de nós, se é que me entendem, que é para isso que a gente compra e vende porcarias nos mercados que não têm outra serventia. Nos últimos anos, pelo menos, não houve exceção à regra de vender em inícios de maio e voltar ao affair apenas em setembro, por altura da vindima. Sinceramente, não vemos por que há de este ano ser diferente! Há um tempo para ganhar dinheiro na bolsa e há um tempo para o gastar. E é bom não confundir os tempos, para não termos chatices desnecessárias e não andarmos a bater com a cabeça pelas paredes quando podíamos estar descansados a desfrutar o pilim.

Para enquadrar a presente situação pomos um gráfico do PSI20 (ou 18) e outro do DAX. Eles falam sozinhos.


Bear market de médio prazo claríssimo e, como tal, é deixá-lo pousar. Entrar com tudo, só acima dos 6400 pontos. Parece muito, mas são só 8% (a contar de hoje) e é o que precisamos para garantir que a ganância volta a estar por cima do medo! Até lá abstenham-se de pôr dinheiro e deixar ficar e restrinjam as jogadas a um módico que vos forneça a dose diária recomendada de adrenalina e nada mais do que isso. Chamarmo-nos burros de manhã, à tarde e a meio da noite, para além de não ser bom para a tripa, também não contribui para o correto funcionamento da hipófise. Não queiram!

No DAX a zona entre os 10800-10900 tem mel e não vai ser fácil evitar deslizar até lá. Daí para baixo é um sarilho dos antigos e podemos, com toda a tranquilidade, eliminar os ganhos do ano. Bull market outra vez, sinceramente, precisávamos de uma subida acima dos 12000 pontos, ainda que preferisse o PSI depois dos 6400. 


Do mundo real, destaque para a falência dos gregos. Se fizeram bem, ainda está por perceber, mas há já duas conclusões que podemos retirar sem corrermos grandes riscos de engano. A primeira é que o Renato tem razão quando aqui afirma que os do Syriza nada têm para oferecer numa negociação a não ser conversa fiada, e ninguém lhes tira de ideia preferir uma falência à austeridade. Se a escolha bater certo, mudamos de paradigma social e, quiçá pela primeira vez na história da humanidade, vamos ter países caloteiros a escaparem a anos de miséria. Obra do €, por certo. A segunda é que o Tsipras e os amigos se não são hábeis a negociar, são-no pelo menos a jogar. A jogada de adiar o pagamento ao FMI é mesmo boa e vai testando a tolerância dos mercados às pinguinhas, como convém a quem anda a bulir com onça armado de vara curta. Para já, houve necessidade de a Fitch vir assegurar que não se trata de incumprimento, por certo por ainda ter clientes distraídos e com grampo preso em terras helénicas, afirmação que não caiu bem nos mercados, que estavam a contar com um rallyzito de buy on the news, depois de semanas na expetativa do cumpre/incumpre. Se ainda não incumpriu, vamos ter que descer mais um pouco, com medo que incumpra. Se já incumpriu, podemos aliviar porque o passado não conta para a jogatina.

Mas o assunto para que devem verdadeiramente olhar nem é a situação grega, cujo desfecho está mais ou menos traçado e passará fundamentalmente por se saber se os gregos escafedem ou saem por cima! O assunto que mais mexeu com os mercados esta semana foi a inflação na zona euro, tópico a que já tínhamos feito referência aqui. Reparem como o euro ignorou completamente os gregos: subiu, e bem, por causa dos números da inflação na primeira metade da semana e desceu na sexta-feira quando os dados do desemprego americanos mostraram que pode haver subida de juros pagos em dólares ainda no decorrer deste ano. E se o euro continuar a ignorar a Grécia, não estaremos nós a sobrevalorizar esse assunto? 

Pensem nisso e aproveitem para ouvir a banda que mais teria gostado de ouvir no Primavera Sound. Musicalmente, sou um produto dos anos 80 e 90, é isso que eu sou!

4.6.15

O gato e o rato (plano A do Syriza)

Joga-se nas altas esferas europeias o tradicional jogo do gato e do rato, onde pontuam vários gatos e ratos mais ou menos familiares. Os nomes dos dois ratos principais são bem conhecidos: Tsipras e Varoufakis. Mas se na Natureza é normal que os gatos acabem por sair vencedores (é a lei da Vida), a cultura popular acabou por inverter esta lógica (o caso do Tom and Jerry é bem esclarecedor), o que é bem caraterístico da natureza humana.



Neste jogo perigoso, a que todos vamos assistindo ao longe, com fortes potenciais implicações para todos nós, os ratos, como nos desenhos animados, estão claramente a dominar. Pessoalmente não acredito que haja mais de uma fação no Syriza ou que o governo grego tenha andado a ziguezaguear (mudança de Varoufakis como líder das negociações) desde que foram eleitos. Tendo em conta os acontecimentos destes últimos dias, e o que vem sendo dito, começo a acreditar que o Syriza vem seguindo um plano rigidamente traçado há muito, sem se desviar um milímetro dele.


Toda esta conversa com que o Tsipras e o Varoufakis têm vindo a entreter os outros líderes europeus é (como diz a maravilhosa expressão brasileira) “conversa para boi dormir”. Eles nunca quiseram, nem querem, um acordo com os termos que os europeus lhes querem impor. É mais do que evidente (e eu espero que os líderes europeus estejam a perceber isso) que toda a retórica com que nos têm brindado faz parte de uma estratégia bem montada: por um lado, dizendo que um acordo está sempre prestes para ser alcançado, ficam na fotografia como aqueles que sempre quiseram um acordo e se esforçaram por ele, ao contrário dos outros; por outro lado, a um nível mais subtil, é uma manobra para dar a entender ao povo grego que os seus governantes estão mais que habilitados para ludibriar os outros. E têm conseguido os seus intentos, já que a popularidade do Syriza não diminui na Grécia, nem a Nova Democracia aumenta a sua.


O Syriza tem um único trunfo, no entanto, na eficácia do qual acreditam piamente. Podem ter acreditado ao início que talvez não precisassem de o jogar, mas chegados a este este ponto, e o que se tem lido e ouvido nos últimos dois dias pode ser disso indiciador, parecem dispostos a jogá-lo. O trunfo é o (eventual) tumulto que um incumprimento grego pode causar nos mercados financeiros, com eventuais repercussões na integridade do euro e até da união europeia. O medo é o elemento chave no jogo. Vai ganhar o jogo que for mais capaz de dominar o medo, quem os “tiver mais no sítio”. Neste momento o jogo corre mais a favor da Europa, e parece claro, por isso, que o Syriza vai tentar um incumprimento (que pode ser já na amanhã). Jogado o trunfo é esperar para ver. Se o tumulto for grande (o que não acredito) esperam eles que os europeus estendam a mão para se salvarem todos, mas na realidade ganham os ratos a partida. Se não houver tumulto o jogo acabará rapidamente por xeque-mate.


É mais do que evidente que a Grécia nunca mais pagará a monstruosa dívida que tem. O Syriza quer, no entanto, que os gregos mantenham o nível de vida que experimentaram desde que aderiram ao euro, o que exige, agora, que alguém comparticipe o seu orçamento anual. Vamos a ver quem ganha e o que daí se segue.

3.6.15

A indisciplina de Maio


Escrevia já anteriormente à minha última publicação sobre o mercado Português que o melhor era estar quietinho. Tudo o que pareça uma boa oportunidade esbarrava na indefinição do nosso Psi20. Escrevia ainda o Maio não tinha começado! Pena que nem sempre levamos a sério aquilo que escrevemos. E eu que o diga! A disciplina para quem anda nestas andanças manda dizer que na incerteza é cair fora. Começamos a primeira semana de Maio nos 6100 e terminamos, semana após semana, no mesmo valor. Completa lateralização. Completa dúvida! Para quem a negociou nem a disciplina lhe acudiu. Nem tão pouco havia!! Era lançar os dados. Saía par ou ímpar! Por conseguinte, nada bonito, nada razoável!!
Entravamos na última semana e a malta cá da casa já antevia, definitivamente, bom tempo para estender a toalha à beira mar! A semana fechava com o índice a desvalorizar 4,5%! Ainda há quem diga que estando de papo para o ar não se ganha dinheiro! Bem, até pode nem ser bem assim, mas pelo menos não se perde e quem nos acompanha já se deve ter apercebido que preservamos muito o capital para as boas ondas e essas, até este momento em que escrevo, só junto à costa!! Pois assim sendo, esperemos pelos Gregos! Esperemos por essa boa onda!
Se a espera for curtinha e voltarmos a ter a nossa praia de volta, sempre se pode, pelo anoitecer dentro, manter o papo para o ar em pleno Parque da Cidade, em plena Primavera a apreciar o Antony! Entenda-se o apreciar!!! 
Quem sabe não nos vejamos por lá. A curtir milhões! 




27.5.15

O irmão bêbado


            Há poucos dias atrás um comentador americano de assuntos económicos (que não me lembra o nome) apelidou a Grécia de “O Irmão Bêbado”. Como se a zona euro fosse uma daquelas famílias respeitáveis que têm no seu seio um elemento que estraga as festas de família, e que todos estão sempre à espera que não apareça para não passarem vergonha frente aos outros – “o irmão bêbado”.

            Para uma família respeitável é sempre muito chato ter que expulsar “o irmão bêbado” dos encontros sociais de família, pois afinal de contas... é da família, e a consciência pesa sempre nesses casos. A Europa encontra-se nesse dilema. “O Irmão Bêbado” vocifera, diz disparates, chantageia porque sabe que a família não o irá expulsar; ele sabe bem que os outros são mais razoáveis que ele próprio. O álcool não dá inteligência mas também não tira o instinto.

            A situação na zona euro é delicada e podemos estar prestes a assistir à tomada de decisões importantes. O ministro das finanças grego, até há pouco tempo tido como uma espécie de herói da BD, veio mais uma vez avisar: se a Grécia sai do euro, o euro está condenado. Pela minha parte acho que a situação é a oposta. Uma moeda é uma criação muito complexa e delicada (ler “O poder do Dinheiro”, Milton Friedmann), onde, por vezes, flutuações mínimas nas regras que regem a moeda podem ter efeitos bruscos e tremendos. É como se a nossa família tivesse ao seu dispor sempre, e apenas, porcelana chinesa da mais exótica, e tivesse todos os dias que se servir dela. Um “irmão bêbado” no meio de tais delicadas preciosidades pode constituir um sério risco à integridade delas. A saída da Grécia da zona euro poderá a curto prazo levantar poeira, mas será apenas isso.

            A verdadeira intenção do governo grego para os últimos dias de negociação foi, ingenuamente, transmitida, por um membro do Syriza que se encontra em Lisboa, numa entrevista na rádio no dia 26. Disse ele que o objetivo é conseguir, para já, um acordo provisório. Para que em setembro se inicie a discussão do acordo final, esse sim que irá resolver a situação do problema Grego de uma vez por todas, já que haverão outros países do sul da Europa (não disse quais, mas imagina-se) que irão secundar a visão que o governo grego tem dele.

            Eles estão a ver o PODEMOS a ganhar a eleições em Espanha. Se isso acontecesse iríamos ter não um mas dois irmãos bêbados, e este último bem mais violento e pesado. Então não haveria salvação para a porcelana chinesa e o euro já era. Mas não acredito que vá ocorrer esse cenário. Em Espanha aconteceu com as eleições municipais o que já tinha ocorrido com as europeias no Reino Unido, onde o UKIP se destacou para depois, nas legislativas, ter eleito apenas um deputado.

            As eleições que verdadeiramente contam, em qualquer país, são as que decidem o governo. As outras podem servir para muita coisa, entre elas como protesto. E num país, como Espanha, com o desemprego que tem, muito têm eles que protestar. Mas daí a entregarem o governo a um punhado de aventureiros de esquerda radical que os vão enterrar vivos no tempo e mandá-los para meados do século XX, é outra história.

            Os gregos fizeram isso, poderão dizer. É verdade! Mas, até agora, o que ganharam? E será que estamos a vislumbrar, pelo menos, trabalho para garantir um melhor futuro para os gregos? O governo grego é campeão pelo menos numa coisa; eles falam, falam, falam... e a credibilidade do país afunda-se na lama, afunda-se, afunda-se...

            Os próximos dias poderão trazer desenvolvimentos decisivos. Ou então vai-se adiar a solução mais uma vez... para setembro como eles querem.

25.5.15

PSI20

Cremos que não vos daremos novidade nenhuma se dissermos que o PSI20 ficou hoje tente não caias para se esbardalhar todo. Uma ida aos 5940 estará dentro dos conformes e ratificará aquele mini-suporte que tem vindo a funcionar na zona imediatamente abaixo dos 6000 pontos. Estamos, pois, em zona de compras, onde os caçadores de pechinchas andam a coca dos mais medrosos para faturar num possível ressalto, mas se o virem fechar daqui para baixo (e não precisa de ser já amanhã) ponham-se à tabela, porque os que compram no suporte vão ser os primeiros a largá-las e vão fazê-lo sem contemplações, havendo argumentos para levar a coisa à zona dos 5700-5750! 


Os gráficos dos principais índices continuam a dizer que a situação grega vai evoluir de forma atinada e sem hecatombe, e hoje o PSI20 parece ter reagido mais às eleições espanholas que à laracha do ministro helénico, mas com o combate a toques de chegar ao dia D tudo pode evoluir muito rapidamente num ou noutro sentido. Se gostam de emoções fortes, então este mercado é a vossa cara; se são propensos à azia, se puderem, prefiram a praia!

24.5.15

Incumprimento na Grécia

Com que então, de acordo com declarações do ministro do interior, os gregos vão mesmo experimentar incumprir. Tal como os venezuelanos do tempo de Chavez, que se ofereceram benignos para repetir pela enésima vez experiências económicas demagógicas, que desde sempre deram errado, também os gregos comandados pelo Syriza vão entrar de peito feito nessa aventura tantas vezes tentada (e outras tantas falhada), ao longo da história da humanidade, que é o incumprimento de compromissos financeiros.

Cremos, pois, que vamos ter uma semana animada, com os políticos de olhos postos na reação dos mercados e a agir em consonância. O facto de a notícia estar a ser avançada sem grande impacto nos media (até agora) e vir cá para fora através de um personagem menos evidente que o Tsipras ou o Varoufakis tem tudo que ver com a estratégia de deixar espaço para um possível desmentido, se a reação for brutal. E não devemos esperar menos do que turbulência assustadora (aliás, o gap no euro/dólar na sexta-feira já fazia prever que algo de decisivo se iria passar no fim-de-semana). A verdade é que não precisávamos de mais nada para termos montado o cenário para assistirmos a uma situação histórica, mas se juntarmos esta notícia e se os resultados das eleições municipais em Espanha confirmarem as previsões de subida do Podemos e do Ciudadanos, então teremos matéria para repetir pela quarta vez um verão quente (depois da quase falência da república em 2012, do irrevogável episódio de 2013 e do colapso do BES em 2014), sendo que desta vez a tramóia já não é paroquial, mas sim global!

Se o incumprimento com o FMI se confirmar, deixa de fazer sentido prolongar as negociações com os gregos de modo a evitar o incumprimento global, pelo que se passará a uma fase de tentar resgatar o máximo que for possível, com um acordo que evite que eles não paguem nada a ninguém. É provável que se torne incontrolável a fuga de depósitos da Grécia (e é possível que também de outros países, como Portugal, pois muitos dos que perderem dinheiro com os gregos vão ter que sacar de outros países para fazer face ao desfalque!) e não nos admiraríamos que o governo grego tivesse que congelar as contas bancárias e impor uma espécie de corralito. A emissão de moeda própria ou de outro tipo de títulos para pagar os salários e pensões é outro passo que muito provavelmente se vai seguir. 

Claro que poderíamos pensar que a comunidade internacional e, de forma especial, a União Europeia, pressionadas pelo arrojo grego tudo tentariam fazer para forçarem um qualquer tipo de acordo de última hora que evitasse o pior, mas ao olhar para os desenvolvimentos dos últimos dias, fica-se com a ideia de que toda a gente já está farta de negociar e se mostra desejosa de experimentar a solução mais radical. Portanto, dado o primeiro passo de rutura por parte dos gregos, não parece plausível que se volte atrás (a não ser que ocorra um desmentido) e será sensato passar a contar com o pior. Aliás, só o facto de se assumir que não se paga ao FMI, cujos recursos, é bom recordar, resultam das contribuições dos países membros, coloca a comunidade internacional na contingência de ter que reagir de forma exemplar, de modo a desincentivar o incumprimento.

Estamos perante, pois, um cisne negro, um acontecimento improvável e disruptivo, que tem o potencial de mudar as regras do jogo e que cria grandes doses de incerteza. Nos mercados este tipo de acontecimento costuma destruir e criar fortunas consoante estamos do lado certo ou errado da barricada. Vamos ver se desta vez é diferente!

20.5.15

Histórias de dinheiro

História nº 1 (última parte)

A crise que se iniciou em 2007, e viria a agravar-se em setembro de 2008 com a falência do Lehman Brothers, é uma crise de sobreavaliação das reservas do sistema bancário.

Durante a fase de crescimento explosivo do mercado imobiliário os bancos andaram a constituir massivas reservas não com ouro ou prata, mas com hipotecas de crédito à habitação.

O crescimento económico no ocidente nas décadas finais do século XX criou uma sociedade em que os rendimentos crescentes não encontravam escoamento nos produtos tradicionais do mercado, ao mesmo tempo que as políticas sociais conduziram a uma sensação de segurança que desincentivou a poupança tradicional. Na ótica do ourives/banqueiro da nossa história, o que começou a passar-se no final do século XX foi paradoxal: havia mais riqueza para depositar no cofre, mas, devido ao crescente consumo, os valores circulavam entre os cofres dos diferentes concorrentes a uma velocidade tal que obrigava a elevar o rácio de constituição de reservas seguras, ao mesmo tempo que reduzia o negócio prestamista da Banca.

A solução surgiu na forma de crédito a habitação, tradicionalmente um crédito de longo prazo, o que significava que a reserva constituída pela hipoteca seria mantida no cofre por muito tempo. Para além disso, o crédito à habitação vinha com uma panóplia de extras que, em conjunto, rebentavam com o espaço no cofre do ourives mais extravagante: crédito aos construtores, aos fornecedores de todo o tipo de materiais, aos fabricantes de mobiliário, de eletrodomésticos, e de tudo o mais que uma casa pudesse conter e, até, artigos não relacionados, como automóveis e respetivos fabricantes. E para todos esses créditos eram produzidas hipotecas que se amontoavam no cofre do banco, prontas a serem liquidadas, se alguém se apresentasse para fazer levantamentos. E o mais incrível era que o valor das próprias hipotecas no mercado subia, não só porque havia o registo histórico de a habitação nunca ter desvalorizado, mas também porque eram valorizadas enquanto reservas de capital. No fundo era como se o vosso empréstimo de 1000€ ao Amílcar valorizasse e vocês o pudessem vender ao Zeferino, ao fim de algum tempo, por, digamos, 1500€. Uma loucura!

A sensação de segurança de que a sociedade gozava tornou a compra de casa compulsiva e os bancos começaram a ter lucros incríveis com os juros que recebiam, ao mesmo tempo que acumulavam reservas de capital verdadeiramente imparáveis. Com o negócio a carburar dessa forma, não admira que as cotações das ações da banca voassem em Bolsa, arrastando na subida empresas de todo o tipo e feitio, algumas das quais não valiam um vintém furado.

Como os salários e bónus dos conselhos de administração estavam indexados aos resultados obtidos que, por sua vez, influenciavam as cotações em Bolsa e dependiam das reservas de capital, chegou-se a um ponto em que o único objetivo da Banca passou a ser adquirir hipotecas, que eram avaliadas segundo o pretenso valor de mercado do imobiliário, ignorando a capacidade de pagamento de quem pedia o crédito. Em meados da primeira década do século XXI, muito do verdadeiro crédito à habitação estava esgotado e começou a crescer um segmento designado como subprime: uma espécie de crédito de baixa categoria que no limite era concedido a pessoas que recebiam a designação de NINJA (no income, no job or asset). Está tudo dito! Os banqueiros sabiam que essas hipotecas nunca seriam pagas, e também sabiam que os colaterais (as casas hipotecadas) desvalorizariam de forma acentuada quando o mercado fosse inundado de incumprimentos, mas tinham no recibo do salário o incentivo certo para acumularem reservas de lixo nos respetivos cofres.

E sabiam que no dia em que aqueles que neles confiaram para guardar os seus valores lhos viessem pedir de volta, eles não os teriam no cofre, porque tudo o que lá existia era hipotecas de casas que tinham gente dentro que não podia pagar o crédito e, se fossem vendidas, valiam muito menos do que o valor hipotecado. Por esse motivo, os banqueiros começaram a titularizar essas hipotecas e a vendê-las a retalho sob a forma de fundos com nomes pomposos, contando com a cumplicidade das mais tarde famosas agências de rating. No fim, houve países inteiros, como a Islândia ou a Irlanda que, por intermédio dos seus próprios bancos, acabaram por adquirir quantidades colossais desses títulos vendidos como filet mignon, mas que não passavam de chicha cinzenta e com bicho.

O estouro das hipotecas subprime, com a correção fortemente em baixa das reservas do sistema bancário, atirou por terra toda a confiança que existia a nível internacional nos cofres dos ourives/banqueiros dos nossos dias e criou uma crise de liquidez de proporções históricas. A dada altura, quem tinha em mãos títulos de dívida de proveniência mal-afamada tudo o que queria era arranjar quem com eles ficasse, desde que pudesse salvar uma fração do que tinha emprestado. Foi assim que nós, os portugueses, nos transformamos no Amílcar da nossa história e, não só ficamos sem gente para nos emprestar, como aqueles que nos tinham emprestado entregavam por tuta e meia a nossa dívida aos Zeferinos de serviço, fazendo subir os nossos juros nos chamados mercados secundários.

Mas que ninguém se queixe dos gananciosos banqueiros e dos loucos do subprime porque nas democracias é o povo quem mais ordena… mas é também o povo quem paga.

19.5.15

Dar o corpo ao manifesto

A jogada do duplo fundo na PHarol a que fiz referência aqui acabou quando vi o fecho de ontem: hoje, pela matina, entreguei a carga a outro que lhe tenha mais amor. Se agora sobe ou desce deixou de me interessar, uma vez que os pressupostos que me levaram a ir a jogo deixaram de existir. A verdade é que estava definida uma perda máxima de 0,2% para a carteira e nem mais um cêntimo tolerei: na bolsa às vezes investe-se e outras vezes joga-se como se fôssemos catraios, mas no jogo há que ser parcimonioso porque de casino, muito francamente, não gosto! Notem que um negócio deste género não se fecha porque ficamos convencidos de que vai cair (tal como vós, não tenho bola de cristal); um negócio deste, em que não acreditamos na empresa e o gráfico manda fugir, fecha-se porque foi atingido o nosso valor limite. Damos, portanto, o corpo ao manifesto! Nas perdas há que cortar cerce na zona que marcamos com antecedência e se subir a seguir engolimos em seco, insultamo-nos do piorio e depois, com toda a tranquilidade, seguimos em frente. De cabeça erguida e sem más disposições desnecessárias. 

Agora vamos calmamente ver onde há oportunidade de colocar os batalhões: a bolsa o dá, a bolsa o tira, a bolsa o dá. O problema é que não há definições no horizonte e muito francamente dá a ideia de que se anda um bocado a apanhar bonés desde abril e, se for para isso, mantenho-me ao sol que se está melhor!

Hoje o DAX voltou para cima da EMA21, quebrou ali os 11700 e foi direto para a zona de batalha pela conquista dos 12 mil. Pelo que vi, consta que o Varoufakis voltou para mais uma partida do joguito a que se tem entregue nas últimas semanas e reafirmou que há acordo para breve, de maneira que o mercado voltou a explorar outra vez essa possibilidade, à procura de um sell on the news quando e se acabarem com a novela. Por outro lado, o membro francês do conselho de governadores do BCE veio reafirmar que o QE é para implementar a todo o vapor, apesar das dúvidas levantadas pelo surgimento de inflação! Para verificarmos se o mercado acredita é ver se o euro continua a cair amanhã. Se sim, sou sujeito para me virar para a Altri (infelizmente, só depois do fecho vi o gráfico certeiro que o Nuno Cortez colocou aqui). 

O pagamento da dízima


Peter Brueghel (o jovem), Fisher Museum of Art, 1615

Histórias de dinheiro

História nº 1 (décima parte)

Como é evidente, a possibilidade de o nosso ourives/banqueiro manter apenas 10% de reservas relativamente ao valor que tinha depositado no cofre, colocando os restantes 90% a circular em empréstimos, embora estivesse alicerçado num registo histórico alargado que garantia alguma segurança, não era isento de riscos. Claro que se por algum motivo se gerasse medo nos depositantes, podia ocorrer uma corrida ao cofre e o ourives pura e simplesmente não teria ouro disponível para satisfazer todos os legítimos pedidos de quem nele confiou. Nessa altura, na impossibilidade de reaver imediatamente o ouro que emprestou, seria certa a liquidação do banco e a venda total do seu património que, mesmo assim, não chegaria para reembolsar todos os arrendatários do cofre. O mais provável, portanto, seria que o nosso ourives, a menos que se pusesse ao fresco, aparecesse morto numa valeta de estrada!

Com o tempo, a própria dinâmica da sociedade levou a que o ouro, a prata ou as pedras preciosas deixassem de ser as únicas reservas de valor, o que tornou possível acrescentar ao cofre valores das mais variadas proveniências, incluindo, como vimos, reservas de própria dívida. Isso deu aos banqueiros a possibilidade de criar dinheiro (recibos) a partir dos empréstimos que faziam. Visto com os olhos do nosso ourives/banqueiro, o que acontecia é que, de cada vez que um depositante se apresentasse para levantar ouro que tinha depositado no cofre, tudo o que havia a fazer era vender hipotecas que aí estavam e transforma-las em ouro para entregar ao cliente, uma vez que as hipotecas eram mercadoria que podia ser transformada em outro valor qualquer!

Claro que, para que as hipotecas fossem realmente uma reserva de valor, era necessário que estivessem bem avaliadas. Evidentemente, se o banco dizia que tinha uma hipoteca que valia 1000, mas só a conseguia vender por 100, então ia ter um problema em satisfazer pedidos de levantamento dos clientes. Para impedir a sobrevalorização das hipotecas e a correspondente constituição de reservas fictícias foi sendo desenvolvida legislação regulatória e foram criadas entidades supervisoras cuja missão era zelar para que não houvesse risco de desvalorização súbita das reservas do sistema bancário. E durante muito tempo, o sistema permaneceu sólido e robusto porque havia um equilíbrio conservador entre reservas e empréstimos.

Nos finais do século XX, toda essa estrutura de regulação começou a ser desmantelada nos EUA, no mandato do presidente Clinton, porque tornou-se norma uma ideia liberal de que o mercado se encarregaria de castigar com a falência quem constituísse reservas insuficientes ou avaliasse por cima as reservas que possuía e isso seria suficiente para manter o sistema saudável. O processo de desregulação continuou durante o consolado de Bush filho, numa época que coincidiu com o boom do mercado imobiliário e, por volta de 2007, já nenhum banqueiro se preocupava verdadeiramente com a fiabilidade da avaliação das hipotecas que tinha no cofre. Nessa altura, a maioria das hipotecas provinha, pois, de crédito a avaliação, para casas que valiam x, eram vendidas por 3x e avaliadas por 5x, aumentando de forma automática as reservas do banco em 5x tendo por colateral real x (permitindo ao banco fazer novos empréstimos numa espiral verdadeiramente louca e imparável). 

Cedo se perceberia que as reservas estavam inacreditavelmente sobreavaliadas. E o pior foi que todos entraram em pânico quando compreenderam que não estavam ao abrigo das péssimas reservas dos todos os outros. No fundo foi como se o ourives tivesse descoberto que tinha armazenado ouro no cofre que subitamente ganhara ferrugem, ao mesmo tempo que se apercebeu de que o ouro que ele próprio tinha depositado em cofres de concorrentes também podia ter sido confundido com ferro!