Como não se podia dar ao luxo de
ter grandes despesas, apesar de ser um fulano bem parecido todas as moças com
que ia namoriscando acabavam por lhe dar com os pés, porque não havia ninguém
mais forreta do que ele! Todas se encantavam com as aventuras que ele contava e
os lugares onde tinha estado, mas ao fim de algum tempo a pagarem as saídas não
admirava que voassem para longe! Um dia acordou e deu-se conta de que, mais
coisa menos coisa, a Europa estava vista e era necessário alongar o passo e
conhecer capitais de outros continentes. Os problemas que se colocavam eram
dois: a planificação da empreitada e o dinheiro para financiar a coisa. Arranjou
um biscate como segurança num armazém, quatro horas diárias das oito à meia-noite
e começou a correr de manhã cedo, antes de pegar ao serviço, para ficar em
forma. Um ano, na Páscoa, pegou na bicicleta e fez o Caminho de Santiago, só
para ver como se sentia. Sentiu-se bem: ir e vir num fim de semana sem ficar
com as pernas bambas!
3.8.16
2.8.16
O capital ista - Parte 4
Ulisses
arranjou emprego como repositor num hipermercado e passava a vida a esmifrar
para garantir que havia dinheiro para colecionar capitais. Metia-lhe um medo
tremendo andar de avião e era com uma preocupação enorme que encarava cada nova
saída, mas fazia questão de continuar a construir um currículo de viajante, um
conhecedor in loco de todos os locais
mundiais de que se ouve falar, mas apenas uns quantos privilegiados conhecem
realmente. Com um ordenado pequeno era-lhe difícil fazer mais do que uma surtida
anual, pelo que rapidamente se apercebeu de que jamais conseguiria atingir o
ritmo próprio dos grandes viajantes, daqueles que se podiam gabar de ser
“cidadãos do mundo”! Mesmo assim foi a Roma, Atenas e um ano, com enorme
sacrifício, não só porque o preço era alto, mas também por causa do medo que
tinha da água, meteu-se num cruzeiro (os enjoos quase deram cabo dele) e
conheceu, de uma assentada, todas as capitais nórdicas. Em Roma foi-se benzer,
deu com um casamento e acabou por se infiltrar na boda a beira do Tibre. Mais
tarde, contou como enfardou à larga e os italianos não deram por nada. Aliás,
conseguiu manter entretidos até os noivos, enquanto atacava nos salgados,
porque a verdade é que o italiano é muito parecido com o português. Era esse
tipo de histórias de que mais gostava, embora na maior parte das vezes a
história não tivesse sido mais do que sugerida por um acontecimento vulgar. Em
Roma foi benzer-se, ponto final!
O capital ista - Parte 3
No fim do curso, uma porcaria de
curso que não servia para nada, era lógico reconhecer que o que acabara por se
tornar relevante era a coleção de capitais por onde passara e o homem viajado
em que se havia tornado. Quando um conhecido se punha a falar em ir a algum
lado não perdia tempo e dizia logo “já lá estive” ou “conheço muito bem” e dava
sempre conselhos do género “em Amesterdão tens que ter cuidado com os
carteiristas, porque os holandeses andam sempre charrados e são uns larápios
dos diabos”, ou “não te aconselho a andar na London Eye porque sai-se de lá com
vontade de vomitar”, ou ainda “definitivamente Praga vale muito mais a pena do
que Budapeste, mas o que te aconselho a fazer é ires à Croácia porque é um país
muito mais autêntico”! Depois contava peripécias como daquela vez em que estava
tão bem bebido que se pôs aos berros em português com um polaco em Varsóvia a
ver se arranjava trocos para o elétrico, e o rapaz desatou a fugir cheio de
medo daquela linguagem estrangeira, ou quando encontrou uma pandeireta num
canto do jardim e se pôs a cantarolar na Stephenplatz e os turistas lhe
encheram um saco de moedas. Curiosamente, era quando as coisas corriam mal que
se ganhavam as melhores histórias para contar: um dia, alugou alhures um quarto
numa casa velha e veio um temporal tão grande que o barraco foi pelo ar, e ele
teve que se firmar às grades da cama até que a calma voltasse; doutra vez, ia
todo lampeiro e chispado a conduzir pela direita do aeroporto para o centro de
Dublin e, bem, é fácil imaginar os sustos por que passou! Que lorpa! No momento
era um caguefe infernal, mas depois quando podia encher o peito e contar como
se tinha desenvencilhado de forma tão heroica, acabava com vontade de se meter
em sarilhos.
1.8.16
O capital ista - parte 2
Na Universidade foi de Erasmus
para a Holanda, três meses de pouco estudo e muito dinheiro investido em
comboios e solas de sapatos. Aproveitou e conheceu Amesterdão, Bruxelas,
Berlim, Copenhaga, Luxemburgo, Praga, Viena, Budapeste, Berna, Vaduz,
Ljubljana, Bratislava, Varsóvia, Zagreb e Londres. Conhecer é capaz de ser um
pouco exagerado, porque às vezes mal dava tempo para pôr um pé fora da estação,
entrar num minimercado, traçar uma bucha e um pacote de leite achocolatado,
sentir o ambiente, cheirar o ar e voltar a abalar. Num assomo de loucura
embarcou para Reiquiavique e voltou no dia seguinte, maluco da cabeça por não ter
visto o pôr-do-sol, e com a pele gretada do frio polar para que não ia
preparado. Claro que havia localidades de que era fundamental trazer um
atestado de presença, como daquela vez em que teve de esgalhar da estação até
ao Manneken Pis só para tirar uma foto, ou quando subiu, a deitar os bofes, a
escadaria da Siegessäule para obter uma panorâmica de Berlim. Isso era uma
prova irrefutável de presença, um autorretrato com a landmark em pano de fundo.
O capital ista - parte 1
Na primária organizaram uma
visita de estudo e Ulisses foi a Lisboa. Do passeio pouco sobrou na memória, a
não ser os pesadelos noturnos por causa da Branca
de neve e os sete anões que foram ver ao cinema e a algazarra enorme que
todos fizeram no autocarro quando iam para baixo. Da cidade grande, nada! Mas
aquela viagem a Lisboa foi deveras importante, pois marcou o início da odisseia
de Ulisses pelas capitais.
Quando estava no secundário o
argumento foi avaliar o funcionamento de Almaraz e depois deram uma saltada a
Madrid, e a viagem de finalistas, em vez da praia e da festa do costume, foi um
passeio a Paris de autocarro que os pais aceitaram que todos fizessem. Torre
Eiffel, Louvre, Quartier Latin, etc., em pouquíssimo tempo tinha mais uma
capital no currículo, mas foi só na viagem de regresso, quando todos vinham
murchos do cansaço, que se apercebeu de como já conhecia tanto e, ainda tão
jovem, se podia gabar de já ter estado em três capitais europeias.
Mais tarde notou, não sem choque,
que não era a viagem em si o que mais lhe agradava, mas sim quando depois contava
a experiência por que passara aos que nunca viajavam. Era o máximo descrever
aos familiares aqueles lugares de que todos ouviam falar, mas que apenas conheciam
de ver na televisão, e ele sentia-se importante por ser um moço viajado.
31.7.16
BCP
É uma opinião não avalizada nem comprometida de quem detém zero BCP, mas os resultados do banco, publicados na sexta-feira, pareceram-me melhores que o esperado, se atendermos ao facto de a banca portuguesa estar a ser apontada por quase toda a gente como uma das mais problemáticas do mundo, tendo-me saltado à vista o grau de cobertura para crédito vencido há mais de 90 dias ter passado para quase 94%, o que pode significar que as provisões feitas à custa de prejuízo deixam margem para algum conforto (por comparação com o NB, por exemplo, o BCP parece bem melhor colocado). Já os números divulgados relativamente aos testes de stress, e que justificaram o reforço de provisões para que não se desse nenhuma desgraça, para além de fraquitos (vejam com quem compara), serviram para ajudar a amenizar o estrago de um prejuízo com que ninguém contava, mas a sua importância extinguir-se-à com a mesma velocidade com que se extinguiu das outras vezes.
Do lado menos bom, a confirmação de que a rentabilidade é baixíssima (prejuízo em Portugal no 2º trimestre), e um resultado líquido que praticamente garante que o banco ou realiza um aumento de capital ou falha o pagamento das obrigações convertíveis em capital (CoCos) na data prevista. Recorde-se que o BCP tem que devolver 750 M€ (tem a entrega de 250 M€ em curso e pendente de aprovação) que ainda deve até junho de 2017, sob pena de as obrigações se transformarem em capital detido pelo estado com um desconto de 35%. Como esta alternativa seria o fim do banco como entidade privada (à cotação atual significaria que o estado ficaria dono de 49,2% do banco), o BCP está mesmo condenado a reforçar-se, mesmo que não houvesse outros motivos (e há: atenção aos baixos rácios de capital).
Ora, é neste contexto que surge a oferta da Fosun. Sobre ela o que temos a dizer é o que se segue. 16,7% a 2 cêntimos não chegam a 237 M€ o que é chicha para a cova de um dente (QED), pelo que o negócio só fará sentido se os chineses estiverem dispostos a injetar bastante mais cacau. Dizem que querem chegar aos 30%. Evidentemente, não os estamos a ver a entrar no BCP para depois deixarem que o estado se torne acionista daqui por menos de 1 ano, pelo que podemos fazer um exercício académico engraçado: assumindo que o BCP só precisa de 500 M€ para liquidar os CoCos e que é a Fosun que os vai fornecer, teríamos que aumentar o resto do capital (13,3%) a 0,0280€! Interessante!
À primeira vista, do lado chino, o negócio parece bom de mais para ser verdade, ainda por cima se compararmos com os valores de que se falou no ano passado sobre as propostas que fizeram para a compra do NB. Mesmo que o BCP tenha que fazer a seguir um AC de 2000 M€, valores que têm sido apontados em alguma imprensa, o facto de se posicionarem já com 16,7% do capital a preço de uva mijona garante-lhes que conseguirão a posição pretendida gastando pouco mais de 500 milhas. Para uma empresa com uma capitalização de mais de 11 mM de dólares não parece grande espiga! É o chamado negócio da China!
Aliás, o negócio é tão interessante que, apesar dos pesares, pode ser que apareça oferta concorrente, visto o fim-de-semana ter mostrado que, mesmo para o pior do teste há gente disposta a acudir, desde que o preço seja o adequado, evidentemente. E é possível que a caminhada feita em bolsa pelo BCP este ano (queda de 60%) tenha tornado o preço adequado!
Posto isto, que dizer relativamente ao futuro da cotação?
Um AC é mau porque dilui a posição dos acionistas uma vez que são produzidas novas ações. No caso do BCP, não só havia a quase certeza de que o AC teria que ser feito, como persistia também a dúvida sobre se existiriam interessados em acudir ao peditório, uma vez que, como toda a gente sabe, o BCP é campeão no que toca a trucidar quem vai aos seus aumentos de capital! Ora esta segunda dúvida cai por terra com o avanço chinês, ao mesmo tempo que parece desaparecer o risco de entrada do estado no capital. Quanto ao problema da diluição, julgamos que quem tinha medo de ver a posição percentual diminuída teve mais do que tempo para abandonar o barco, pelo que sair agora parece um sell on the news muito pouco racional (a menos daqueles que não gostam de capital chinês e preferem fugir a sete pés). Portanto, estamos em crer que estão reunidas as condições para que se dê uma subida de jeito nas cotações, uma espécie de buy on the news (uma nota que é apenas curiosa para dizer que o BCP subiu 50% na semana a seguir ao anúncio do último AC em junho de 2014 - claro que, entretanto, caiu 86%, mas isso agora não interessa para nada)!
Do ponto de vista técnico, houve sinal de compra na sexta-feira, mas vamos precisar de fechar acima dos 0,0216, para ativar uma possível ida aos 3 cêntimos (há ali um canal com topo nos 0,0264 que em caso de panic buy e short squeeze não nos parece relevante). Para baixo, não vemos referências de maior e é possível que um fecho muito negativo amanhã seja o prenúncio de novos mínimos. Seja como for, vai ser interessante de ver!
Nas próximas semanas estarei de férias e só virei aqui larachar se a situação me deixar mesmo cheio de vontade. De qualquer das formas, deixo para publicação automática, ao longo da primeira metade do mês de agosto, dois textos que vão saindo em fascículos. Um é um texto de ficção que escrevi quando não tinha nada melhor para fazer, chamado "O capital ista", mas que não tem nada que ver com capital. O outro é a reposição da primeira "história de dinheiro" que publicamos originalmente há dois anos.
Votos de boas férias para todos!
27.7.16
Sortido de linhas bem feitas
O título dispensa prelúdio e sem mais vamos a elas!
Na Altri, quebra, confirma de seguida, ao terceiro dia atesta valor e avança! Veremos se atinge projecção do que foi aqui dito! Agora, confiram:
Na Mota Engil a SMA200 a fazer de resistência (lógica)! Portanto mantemos a ideia da nossa linha ligeiramente acima da dita média (preto tracejado)! Coisa boa nesta linearidade é que quebra em alta a nossa Lta descendente e obedece há sete sessões consecutivas! Quem ganhará? Aqui está o braço de ferro:
No BCP (péssimo dia para falar nele! Mas lá terá que ser) a saltada que demos ao face com uma Lta mais justificada não podia ser! Quebrou, tentou recuperá-la, andou lá mas não mais para cima dela voltou! Hoje crucificou quem não foi disciplinado! Resta saber se o pânico tem razão de ser e o CEO Amado anda a ganhar coragem (tempo, também pode ser) para contar a história ou não é nada disto e o mercado simplesmente acagaçou-se que nem dona de casa desesperada! Fica o boneco, pouco simpático:
A concluir as nossas linhas mestras, os índices!
No PSI20 dissemos aqui e no DAX30, em zona chave, foi escrito aqui! Ambas, minuciosamente, a justificar a nossa visita em plena sessão!
Fiquem com o fecho de ontem do alemão (marcado com uma esfera, minúscula, a verde no valor com que findou hoje pelos 10320):
E com música nova! Jessy Lanza!
21.7.16
Resultados do 1º Semestre
BPI - 26 de julho - AF
EDPr - 26 de julho
Jerónimo Martins - 27 de julho - AF
BCP - 27 de julho - AF
NOS - 27 de julho
Altri - 28 de julho
EDP - 28 de julho - AF
Galp - 29 de julho - AA
Sonae - 18 de agosto
Mota Engil - 30 de agosto
EDPr - 26 de julho
Jerónimo Martins - 27 de julho - AF
BCP - 27 de julho - AF
NOS - 27 de julho
Altri - 28 de julho
EDP - 28 de julho - AF
Galp - 29 de julho - AA
Sonae - 18 de agosto
Mota Engil - 30 de agosto
20.7.16
PSI20
No nosso gráfico, o PSI20 está justo na fronteira bear/bull de curto prazo! As médias móveis de curto prazo também estão a ensaiar um cruzamento positivo que já não acontece desde abril, e temos a descrença em níveis bastante elevados (vejam o nosso post de ontem sobre a Sonae), o que também costuma jogar a favor. Por outro lado, está à porta a silly season e a malta está mais para ir a banhos do que para se meter em aflições!
19.7.16
Sonae
Movimento interessante hoje na Sonae. Foi à base do canal de curto prazo numa situação de sobrevenda e sofreu o correspondente efeito mola. O volume está bom e parece existir força compradora, mas, muito francamente, se fosse para ficar com um lote agora, teria bastante medo. É que a SON já não fecha acima da EMA9 (linha verde) há imenso tempo e, bem vistas as coisas, o topo do canal também está mesmo ali. Pode ser que valha o risco, até porque o PSI20 continua a hesitar imenso, mas parecem existir mais argumentos para vender do que comprar!
18.7.16
Curtas do dia
Ontem estive para vir aqui falar-vos das três que se seguem mas com o tempo que se faz sentir não há força de vontade que supere a moleza em pleno findar de fim-de-semana! Salve-se que nada do que vos ia dizer aconteceu hoje e o propósito continua de pé! Veremos para que lado cai!
Altri em zona de possível activação de duplo fundo! Caso confirme projecta-a para a zona dos 3,65! Pelo caminho terá um máximo relativo para superar nos 3,42! O resto está aqui:
Na Mota Engil, ficou assim:
E agora? Pois, não sei! Talvez esperar pela quebra nos 1,76 com vista ao anterior máximo relativo pelos 1,93!
Tanto uma como noutra estão em zona de definições (tipo o jogador que faz o passe para o golo ou - diacho - faz o passe para o contra-ataque do adversário) portanto...isso, é melhor seguir o lance! Fica a jogada!
Quanto à terceira fizemos hoje, ainda em pleno jogo (isto é o efeito do fartote que foi o campeonato da Europa!), um pontual reparo no nosso FB e agora deixo-vos o fecho do dia! Na linha! Veremos se segura!
A habitual nota musical não é do dia mas podem confirmar qualidade clicando aqui! Nós atestamos! Boa semana! Este foi o curtas do dia!
16.7.16
Uma conspiração de estúpidos 1
O livro estava para ali na estante há já bastante tempo, e já não sei onde vi uma resenha que me levou a pô-lo na fila de espera, até que há menos de uma semana lhe deitei finalmente a mão. Refiro-me a Uma conspiração de estúpidos, de John Kennedy Toole, um título que remete para um conjunto de personagens que, cada um à sua maneira, tem uma visão peculiar, mas estranhamente familiar, da forma como deve ser encarado o mundo.
No centro da trama está Ignatius Reilly, um balofo de 30 anos da Nova Orleães dos anos 50, mestre em história medieval, que vive em casa da mãe alcoólica e é o fulano mais auto-confiante, mais preguiçoso, racista, manipulador, narcisista e misantropo que se possa imaginar. Um estúpido. Quando a mãe também fica desempregada e com uma dívida às costas, Ignatius lá se decide a sair de casa e tentar arranjar um choio:
Resolvi passar a chegar ao escritório uma hora mais tarde. Assim, estou muito mais descansado e fresco quando lá chego e evito aquela primeira hora desconsoladora do dia de trabalho, durante a qual o meu sistema nervoso, ainda lento, e o meu corpo fazem de todas as pequenas tarefas um tormento. Descobri que, se chegar mais tarde, o trabalho que executo é de muito melhor qualidade.
Ignatius passa a vida entre os biscates que vai encontrando e as teorias da conspiração que urde e deixa registadas num diário intelectualóide e na correspondência bastante agreste que mantém com uma ex-comparsa de luta na faculdade com quem, entretanto, se incompatibilizou. Pelo meio, empanturra-se de cachorros quentes, alimenta uma relação no fio da navalha com a mãe, brinca na banheira com barquinhos e vê sucessivos episódios do Teddy Bear.
Mas a confederação de estúpidos tem muitos mais membros: um industrial falido, cuja mulher alimenta o projeto de psicanalisar uma velha caquética, a dona de um bar manhoso na baixa da cidade, a braços com projetos de novos números para animar as noites e um negócio paralelo de tráfico de estupefacientes, um sargento da polícia que impõe aos seus homens quotas de detenções ou um tal de Dr. Talc, um professor universitário medíocre a quem Ignatius, em vez da tese, entregara um papel de bloco de apontamentos com as seguintes considerações:
A sua ignorância acerca do que afirma ensinar merece a pena de morte. Duvido de que saiba que S. Cassiano de Imola foi apunhalado até à morte pelos seus alunos com os buris destes. A sua morte, uma morte honrosa para um mártir, transformou-o no santo patrono dos professores.
Reze-lhe, seu idiota iludido, seu golfista enganado, seu pseudopedante engolidor de cocktails, porque precisa mesmo de um patrono celeste. Embora os seus dias estejam contados, não morrerá como mártir - porque não persegue nenhuma coisa sagrada -, mas como o burro que realmente é.
O que mais impressiona no livro nem é a história e a barrigada de risos com que nos presenteia, mas si a escrita límpida e escorreita de J. K. Toole. O livro transforma-se numa novela picaresca dos tempos modernos graças à forma como é usada a linguagem, sempre perto de resvalar para o non-sense ou o vulgar, mas escapando justamente no momento de transformar o produto final numa vitória. Toole consegue evitar que as suas personagens caiam na maldade ou pareçam maliciosas, mas joga com elas de uma maneira tão hábil que resultam, na sua estupidez, estranhamente realistas!
Não admira que o livro contenha referências autobiográficas. Afinal de contas, Toole suicida-se aos 31 anos, mergulhado na depressão e na paranóia, depois de ver o livro que escreveu rejeitado em sete editoras diferentes. Foi um estúpido, tal como estúpidos foram os que o rejeitaram, porque o livro é mesmo bom e mereceu o Pulitzer que ganhou postumamente, depois de a mãe do escritor ter conseguido que o publicassem, onze anos depois da sua morte. E estúpido também fui eu (só um bocadinho) por só agora o ter lido.
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