9.8.16

O capital ista - Última parte

Foi quando começaram a surgir notícias de refugiados sírios a acorrer à Europa que se lembrou que essa era uma parte do mundo onde ainda não tinha estado. Que grande conhecedor de capitais se podia demitir de conhecer Damasco, talvez a mais antiga de todas? Quando anunciou o projeto nas redes sociais não faltou quem o avisasse de que o momento não parecia o mais propício, por causa da guerra e dos fanáticos do Daesh, e a verdade é que esteve mesmo a pontos de adiar a jornada, ah!, viagenzinha mais desconfortável e sem-graça!, mas a coisa tinha sido anunciada e desistir era dar parte de cagarola e, portanto, inaceitável! Tirando o voo até Chisinau (outra capital), evitaria os aviões que podiam ser alvo de mísseis terra-ar e faria um trajeto em S, a varrer: Macedónia, Arménia, Israel. A passagem pela Síria ia ser feita na esgalha, numa pick-up alugada no Irão, o que tinha o defeito de ter que voltar para trás por causa dos custos incomportáveis (meio ano a repor mantimentos) do drop-off, mas trazia a vantagem de subir o score com dois marcos importantes: a Jordânia e o Iraque (quem se não ele iria a Bagdade tirar um retrato?). Foi e viu tudo. Deve ter visto inclusive o Sukhoi-34 russo a aproximar-se e a largar a bojarda assassina em território inimigo. Ficou em papas. Ulisses partiu para a última viagem, aquela de que ninguém escapa, e agora deve andar a colecionar as capitais do paraíso celeste, se é que existem (as capitais)!


8.8.16

O capital ista - Parte 11

Nos anos que se seguiram andou pela Ásia e foi de Moscovo a Pequim de uma empreitada só! Conheceu o Cazaquistão e a Mongólia, regressou e limpou os restantes ões, incluindo o Afeganistão. Em Cabul fez de talibã e juntou-se a eles, mas não gostou desse estilo de vida e pôs-se a bulir. Quando deu por ela estava no topo do Evereste, arriou a bandeira do João Garcia e pôs lá outra maior junto da qual se fotografou. Bateu o recorde de “gostos” no Facebook, mas depois desceu tão rápido que, não só ia tendo uma síncope, como provocou uma avalancha que causou dezenas de mortos. Foi o ponto mais baixo da carreira e houve quem o alcunhasse de “Speedy Gonzalez dos Himalaias”, o que acabou por deixá-lo na mó de baixo durante algum tempo! Foi por essa altura, numa spring break, que fez o tal cruzeiro relaxante nas Caraíbas e visitou Havana e todas as capitais caribenhas. Fez a continência a Castro e lembrou-se emocionado de que, em certo sentido, também ele foi como o Che, que correu o continente de lés-a-lés, antes de enveredar pela carreira de revolucionário. Estava finalmente fechado o ciclo americano e foi com orgulho que anunciou que se sentia apto a dar todos os conselhos e emitir as opiniões mais definitivas no que diz respeito à maior parte do globo terrestre. Mais do que reposição de prateleiras ou segurança noturna, eram as viagens a sua verdadeira arte, e embora o planeta fosse vasto, tornara-se, num curto intervalo de tempo, demasiado pequeno para tão grande vontade de se fazer notar como o maior laracheiro turístico da História, uns furos acima até (quem diria?) de um Fernão Mendes Pinto!


7.8.16

Otimista, se!

Em modo moleza pegada, em plena silly season, em que tudo que implique canseira, a pachorra esgota-se fácil, só umas curtas análises para atualizar cenário aos índices europeus após uma semana de retrocessos e o que perspectivar mediante próximos comportamentos!

No PSI20 a Lta descendente (já com mais de 1 ano!) não facilitou e à mínima aproximação (a de segunda-feira) tratou de aviar o valor novamente para sul! As médias exponenciais aliadas à zona dos 4600 (anteriormente quebrada em alta) foram, como expectável, o suficiente para evitar deslizes maiores e não deixar ceder!


Otimista, se:

Não quebrar em baixa a zona dos 4600 pontos e (por enquanto) nos mantivermos por cima das médias móveis de curto prazo (a vermelho e a azul tracejado) mas sobretudo se for capaz de quebrar em alta a Lta descendente (a roxo tracejado)! A acontecer terá nova luta, quase sem respiro, pelos 4900 (mas aí, e se lá chegar, voltaremos a falar)!

No IBEX35, idêntico comportamento ao tuga! Quebra da Lta (também esta com mais de 1 ano) a ser negada mas também vimos o suporte a funcionar, a amparar a queda e de uma forma mais convicta a reagir, fechando em cima da Lta!

   
Otimista, se:

Não der para trás nas próximas sessões a ponto de quebrar negativamente os 8280! Mas sobretudo (aqui também) acima dos 8800 e de caras para a batalha da SMA200 (a preto tracejado) que a ser ganha dá ânimo para recuperação das perdas até ao final do ano - break-even point - demarcado pela seta azul!

No CAC40, o mesmo filme semanal com diferentes pivots! Zona dos 4480 pontos e SMA200 a fazer de resistências mas mais uma vez o nosso suporte a funcionar!


Otimista, se:

Quebrar os 4480 em alta! É sinal que a média móvel de longo prazo (SMA200) ficou para trás e vai com tudo para recuperar as perdas desde o inicio do ano!

No DAX30 - last but not the least - a mesma dose dos congéneres, segunda-feira a inverter movimento e, posteriormente, os valores anteriormente quebrados em alta a fazer de suporte!


Otimista, se:

Mantiver acima da SMA200 (linha volante a tracejado preto) e se quebrar os 10480 ficando a 2,5% do break-even anual! 

Num texto marcado pela condição para otimismo, uma breve nota:
  • Num ano fustigado pelas péssimas noticias - China, queda acentuada do preço do petróleo, brexit e banca europeia são alguns exemplos do que se escreveu e falou - ver uma recuperação no DAX30 de 20%, de 13,5% no CAC40 e 12% para o PSI20 e IBEX35 desde mínimos talvez espante muitos arautos da desgraça por muito que olhemos para os americanos e os vejamos em máximos! Máximos à custa, sobretudo, de uma politica monetária de longos anos que por cá ainda dá os primeiros passos! 
Tudo isto não invalida a nossa percepção do mercado e o cingirmo-nos ao curto/médio prazo e por isso mesmo cá estamos nós, semana após semana, a analisar o momento!

Esta foi a análise deste domingo para os próximos dias!

Boa semana!

O capital ista - Parte 10

Entretanto, deu com as redes sociais e investiu imenso tempo a arregimentar amigos virtuais para colocarem gostos nas fotos que ia publicando. Criou um blogue onde mandava todo o tipo de larachas sobre viagens, dava conselhos a quem os pedia e encheu a Internet de fotografias onde aparecia em locais emblemáticos. Foi-se tornando famoso, o tuga que correu a América em meia dúzia de dias, um Ulisses homérico dos tempos modernos, um viajante intrépido e destemido, um migrante temporário e voluntário, uma vítima da incapacidade do homem para estar quieto, enfim um profundo conhecedor do mundo e das suas nuances! No ano seguinte lambeu África! Bem, a verdade é que precisou de dois anos, porque no segundo foi para o lado do corno, trepou ao Quilimanjaro e depois veio por aí abaixo e só parou na capital da Austrália. Agora tinha um telemóvel mesmo bom, tirava imensas fotografias e postava tudo em tempo real. Tudo não! Só as que se aproveitavam e não estavam desfocadas pelo movimento perpétuo, mas jamais se esquecia de ser o primeiro a dar “gosto”. No Facebook era um campeão, no Instagram não tinha ninguém à altura e o blogue tinha-se transformado num local de peregrinação virtual. Depois de tantos quilómetros a correr, era o indivíduo mais espadaúdo do país, puro osso e músculo, um grande amigo do ambiente e da mãe-natureza, o primeiro viajante com uma pegada ecológica impercetível. Na Arábia nem de camelo lhe conseguiram deitar a mão e na Índia houve gente a interromper a chafurdice no Ganges para aplaudir a sua passagem. Quanto a capitais, mais umas dezenas para a coleta e, agora sim, estava em velocidade de cruzeiro no que ao conhecimento do mundo diz respeito! A verdade é que sentia uma urgência, porque Ulisses, como cada um de nós, não estava a ficar mais novo e tinha plena consciência da lei suprema da vida: tempo passado, corpo cansado!


6.8.16

O capital ista - Parte 9

Essa arte de viajar pelo mundo continuava a ter o seu lado desconfortável e até assustador e, bem vistas as coisas, antes de sair pensava sempre que ficava bem mais tranquilo e sossegado em casa, mas depois de meter pés ao caminho só se preocupava em não perder nada do manancial de conhecimentos a que estaria exposto, e com viver sofregamente as aventuras infinitas de que depois podia lançar mão numa mesa de conversa. Quando regressou da América tratou logo de explanar todo o seu poder de fogo perante os amigos (que os tinha e muitos), mas foi com horror que verificou que ninguém queria saber de Georgetown ou de Assunção e todos falavam de Havana ou de Santo Domingo, sítios onde, lamentavelmente, se esquecera de ir!  Claro que havia sempre a hipótese de forjar uma montagem com um retrato enquadrado numa paisagem retirada da net, mas, por Deus, Cuba é uma ilha cercada de tubarões e nem ele teria o arrojo de enfiar a patranha de que tinha nadado até lá. Demais a mais, pensava, se não queremos perder o prestígio que nos deu tanto trabalho a conquistar não podemos correr o risco de nos apanharem em falta de uma forma tão saloia! Um Cidadão do Mundo tem que ser, acima de tudo, impecavelmente honesto. Faria um cruzeiro nas Caraíbas noutra altura.


5.8.16

O capital ista - Parte 8

Do Suriname virou para o Pacífico, entrou na Amazónia, que atravessou à catanada, e mergulhou nas águas do rio negro em Barcelos, subiu a Bogotá e foi raptado por traficantes que o confundiram com um atleta de renome mundial, tão rico que tinha vindo para os Andes preparar a maratona das olimpíadas. Quando perceberam que se tratava de um pé rapado e que não tinham sequer a quem pedir resgate, soltaram-no em Quito, o que foi um duplo favor que lhe fizeram! Desceu a costa oeste, curvou na Argentina e subiu até Brasília. Nem uma capital falhou e agora podia dizer que tinha passado por todas e tinha visto tudo! Do Brasil apanhou um avião para casa com escala em Otava, onde esteve um par de horas: aeroporto, cidade, aeroporto, na gáspia, a penantes, em busca da foto certificadora. Conseguiu-a. Quando chegou cá era um homem feliz: Ulisses o conquistador da América! Fizera o roteiro das capitais em quinze dias de jornada, mas tinha visto tudo e sobre tudo tinha mais do que legitimidade para opinar. O Canadá é um assombro, uma terra de cultura e delícias, as Honduras de cortar à faca e têm sorte se não vos fizerem às postas, se gostam de praia, não é bom pensarem em ir à Bolívia, e de Buenos Aires a Montevideu a melhor forma de passar é a nado, através do Río de la Plata, pois evitam engarrafamentos bastante enfadonhos!


4.8.16

O capital ista - Parte 7

Sempre sem parar passou por todas as capitais da América central, entortou para Caracas e foi direto a Paramaribo. Em todas elas tirou fotografias (mais tarde arrependeu-se de não ter parado, porque a maioria ficou desfocada) e mesmo nos mercados e nas roulotes de enchiladas havia alguma coisa dentro dele que o impedia de parar e ficar quieto. Numa fila na Venezuela acabou mesmo por levar um par de estalos por ter passado à frente das donas de casa, mas no geral, a passo de corrida, a viagem fazia-se de uma forma que evitava vários inconvenientes que o afligiam nas alternativas mais convencionais: não estava sujeito a horários, não gastava dinheiro em bilhetes nem em combustíveis, não vivia sobressaltado com a incompetência de um qualquer condutor adepto da pinga, etc. 

Nem para dormir parava, pois tinha desenvolvido uma inovadora capacidade para adormecer nas retas, embalado pelos solavancos das suas pernas hiperativas. Calculava mentalmente o tempo que podia cochilar, com base na extensão do percurso, e encostava a cabeça a um amparo próprio que entalava entre o ombro e as orelhas. Para tomar banho e fazer a higiene pessoal usava os rios, que fazia questão de passar a nado.


3.8.16

O capital ista - Parte 6

No verão mandou-se para Nova Iorque, comprou uma bicicleta num garagista e meteu-se ao caminho até Washington, onde dormiu num banco de jardim coberto pelo ar puro da noite! Casa Branca, Capitólio, memoriais, umas voltas pela cidade e estava o assunto arrumado. Não se esqueceu do autorretrato nos sítios interessantes, mas ao meio-dia estava despachado e abalou, a pedal, para a Cidade do México. Vários dias depois, com algumas boleias pelo caminho e uns trajetos de comboio, meteu na cabeça que queria uma foto no Grand Canyon e foi até lá. Na Strip de Vegas fotografou-se nos néons, mas não chegou a entrar nos casinos porque teve medo de acabar na miséria. Depois atravessou o deserto para se fotografar com o letreiro de Hollywood em pano de fundo e sempre a pedalar desceu em direção à fronteira mexicana. Tinha sido uma excentricidade, mas atravessara a grande nação americana de costa a costa e o feito valia-lhe uma entrada direta na galeria dos mais ilustres viajantes do mundo. Jack Kerouac não fez melhor! 

Em Tijuana quase lhe rebentaram o canastro para lhe roubar a bicla e os acepipes, mas a coisa deu uma volta engraçada porque apareceu um grupo rival e os mexicanos mataram-se uns aos outros à facada e aos tiros e, no final, só sobrou ele. Como teve o bom-senso de revistar os cadáveres, acabou com uns pesos a mais no bolso e deu-se ao luxo de trocar a pedaleira por uma acelera. Os tacos e os nachos é que quase deitavam tudo a perder e foi semidesidratado pela diarreia que se apresentou na grande praça da Constituição da antiga capital Azteca. Despachou-se e abalou rumo a sul. Numa curva da estrada nasceu-lhe uma furgoneta em contramão, levou uma trombada e escangalhou a motoreta. Antes que os índios tivessem tempo de arrear a ver o estrago pôs-se a pé, achou-se ok, e deitou a correr por ali a baixo. 


O capital ista - Parte 5

Como não se podia dar ao luxo de ter grandes despesas, apesar de ser um fulano bem parecido todas as moças com que ia namoriscando acabavam por lhe dar com os pés, porque não havia ninguém mais forreta do que ele! Todas se encantavam com as aventuras que ele contava e os lugares onde tinha estado, mas ao fim de algum tempo a pagarem as saídas não admirava que voassem para longe! Um dia acordou e deu-se conta de que, mais coisa menos coisa, a Europa estava vista e era necessário alongar o passo e conhecer capitais de outros continentes. Os problemas que se colocavam eram dois: a planificação da empreitada e o dinheiro para financiar a coisa. Arranjou um biscate como segurança num armazém, quatro horas diárias das oito à meia-noite e começou a correr de manhã cedo, antes de pegar ao serviço, para ficar em forma. Um ano, na Páscoa, pegou na bicicleta e fez o Caminho de Santiago, só para ver como se sentia. Sentiu-se bem: ir e vir num fim de semana sem ficar com as pernas bambas!


2.8.16

O capital ista - Parte 4

Ulisses arranjou emprego como repositor num hipermercado e passava a vida a esmifrar para garantir que havia dinheiro para colecionar capitais. Metia-lhe um medo tremendo andar de avião e era com uma preocupação enorme que encarava cada nova saída, mas fazia questão de continuar a construir um currículo de viajante, um conhecedor in loco de todos os locais mundiais de que se ouve falar, mas apenas uns quantos privilegiados conhecem realmente. Com um ordenado pequeno era-lhe difícil fazer mais do que uma surtida anual, pelo que rapidamente se apercebeu de que jamais conseguiria atingir o ritmo próprio dos grandes viajantes, daqueles que se podiam gabar de ser “cidadãos do mundo”! Mesmo assim foi a Roma, Atenas e um ano, com enorme sacrifício, não só porque o preço era alto, mas também por causa do medo que tinha da água, meteu-se num cruzeiro (os enjoos quase deram cabo dele) e conheceu, de uma assentada, todas as capitais nórdicas. Em Roma foi-se benzer, deu com um casamento e acabou por se infiltrar na boda a beira do Tibre. Mais tarde, contou como enfardou à larga e os italianos não deram por nada. Aliás, conseguiu manter entretidos até os noivos, enquanto atacava nos salgados, porque a verdade é que o italiano é muito parecido com o português. Era esse tipo de histórias de que mais gostava, embora na maior parte das vezes a história não tivesse sido mais do que sugerida por um acontecimento vulgar. Em Roma foi benzer-se, ponto final!


O capital ista - Parte 3

No fim do curso, uma porcaria de curso que não servia para nada, era lógico reconhecer que o que acabara por se tornar relevante era a coleção de capitais por onde passara e o homem viajado em que se havia tornado. Quando um conhecido se punha a falar em ir a algum lado não perdia tempo e dizia logo “já lá estive” ou “conheço muito bem” e dava sempre conselhos do género “em Amesterdão tens que ter cuidado com os carteiristas, porque os holandeses andam sempre charrados e são uns larápios dos diabos”, ou “não te aconselho a andar na London Eye porque sai-se de lá com vontade de vomitar”, ou ainda “definitivamente Praga vale muito mais a pena do que Budapeste, mas o que te aconselho a fazer é ires à Croácia porque é um país muito mais autêntico”! Depois contava peripécias como daquela vez em que estava tão bem bebido que se pôs aos berros em português com um polaco em Varsóvia a ver se arranjava trocos para o elétrico, e o rapaz desatou a fugir cheio de medo daquela linguagem estrangeira, ou quando encontrou uma pandeireta num canto do jardim e se pôs a cantarolar na Stephenplatz e os turistas lhe encheram um saco de moedas. Curiosamente, era quando as coisas corriam mal que se ganhavam as melhores histórias para contar: um dia, alugou alhures um quarto numa casa velha e veio um temporal tão grande que o barraco foi pelo ar, e ele teve que se firmar às grades da cama até que a calma voltasse; doutra vez, ia todo lampeiro e chispado a conduzir pela direita do aeroporto para o centro de Dublin e, bem, é fácil imaginar os sustos por que passou! Que lorpa! No momento era um caguefe infernal, mas depois quando podia encher o peito e contar como se tinha desenvencilhado de forma tão heroica, acabava com vontade de se meter em sarilhos.


1.8.16

O capital ista - parte 2

Na Universidade foi de Erasmus para a Holanda, três meses de pouco estudo e muito dinheiro investido em comboios e solas de sapatos. Aproveitou e conheceu Amesterdão, Bruxelas, Berlim, Copenhaga, Luxemburgo, Praga, Viena, Budapeste, Berna, Vaduz, Ljubljana, Bratislava, Varsóvia, Zagreb e Londres. Conhecer é capaz de ser um pouco exagerado, porque às vezes mal dava tempo para pôr um pé fora da estação, entrar num minimercado, traçar uma bucha e um pacote de leite achocolatado, sentir o ambiente, cheirar o ar e voltar a abalar. Num assomo de loucura embarcou para Reiquiavique e voltou no dia seguinte, maluco da cabeça por não ter visto o pôr-do-sol, e com a pele gretada do frio polar para que não ia preparado. Claro que havia localidades de que era fundamental trazer um atestado de presença, como daquela vez em que teve de esgalhar da estação até ao Manneken Pis só para tirar uma foto, ou quando subiu, a deitar os bofes, a escadaria da Siegessäule para obter uma panorâmica de Berlim. Isso era uma prova irrefutável de presença, um autorretrato com a landmark em pano de fundo. 

O capital ista - parte 1

Na primária organizaram uma visita de estudo e Ulisses foi a Lisboa. Do passeio pouco sobrou na memória, a não ser os pesadelos noturnos por causa da Branca de neve e os sete anões que foram ver ao cinema e a algazarra enorme que todos fizeram no autocarro quando iam para baixo. Da cidade grande, nada! Mas aquela viagem a Lisboa foi deveras importante, pois marcou o início da odisseia de Ulisses pelas capitais.

Quando estava no secundário o argumento foi avaliar o funcionamento de Almaraz e depois deram uma saltada a Madrid, e a viagem de finalistas, em vez da praia e da festa do costume, foi um passeio a Paris de autocarro que os pais aceitaram que todos fizessem. Torre Eiffel, Louvre, Quartier Latin, etc., em pouquíssimo tempo tinha mais uma capital no currículo, mas foi só na viagem de regresso, quando todos vinham murchos do cansaço, que se apercebeu de como já conhecia tanto e, ainda tão jovem, se podia gabar de já ter estado em três capitais europeias.


Mais tarde notou, não sem choque, que não era a viagem em si o que mais lhe agradava, mas sim quando depois contava a experiência por que passara aos que nunca viajavam. Era o máximo descrever aos familiares aqueles lugares de que todos ouviam falar, mas que apenas conheciam de ver na televisão, e ele sentia-se importante por ser um moço viajado. 

31.7.16

BCP

É uma opinião não avalizada nem comprometida de quem detém zero BCP, mas os resultados do banco, publicados na sexta-feira, pareceram-me melhores que o esperado, se atendermos ao facto de a banca portuguesa estar a ser apontada por quase toda a gente como uma das mais problemáticas do mundo, tendo-me saltado à vista o grau de cobertura para crédito vencido há mais de 90 dias ter passado para quase 94%, o que pode significar que as provisões feitas à custa de prejuízo deixam margem para algum conforto (por comparação com o NB, por exemplo, o BCP parece bem melhor colocado). Já os números divulgados relativamente aos testes de stress, e que justificaram o reforço de provisões para que não se desse nenhuma desgraça, para além de fraquitos (vejam com quem compara), serviram para ajudar a amenizar o estrago de um prejuízo com que ninguém contava, mas a sua importância extinguir-se-à com a mesma velocidade com que se extinguiu das outras vezes. 

Do lado menos bom, a confirmação de que a rentabilidade é baixíssima (prejuízo em Portugal no 2º trimestre), e um resultado líquido que praticamente garante que o banco ou realiza um aumento de capital ou falha o pagamento das obrigações convertíveis em capital (CoCos) na data prevista. Recorde-se que o BCP tem que devolver 750 M€ (tem a entrega de 250 M€ em curso e pendente de aprovação) que ainda deve até junho de 2017, sob pena de as obrigações se transformarem em capital detido pelo estado com um desconto de 35%. Como esta alternativa seria o fim do banco como entidade privada (à cotação atual significaria que o estado ficaria dono de 49,2% do banco), o BCP está mesmo condenado a reforçar-se, mesmo que não houvesse outros motivos (e há: atenção aos baixos rácios de capital).

Ora, é neste contexto que surge a oferta da Fosun. Sobre ela o que temos a dizer é o que se segue. 16,7% a 2 cêntimos não chegam a 237 M€ o que é chicha para a cova de um dente (QED), pelo que o negócio só fará sentido se os chineses estiverem dispostos a injetar bastante mais cacau. Dizem que querem chegar aos 30%. Evidentemente, não os estamos a ver a entrar no BCP para depois deixarem que o estado se torne acionista daqui por menos de 1 ano, pelo que podemos fazer um exercício académico engraçado: assumindo que o BCP só precisa de 500 M€ para liquidar os CoCos e que é a Fosun que os vai fornecer, teríamos que aumentar o resto do capital (13,3%) a 0,0280€! Interessante!

À primeira vista, do lado chino, o negócio parece bom de mais para ser verdade, ainda por cima se compararmos com os valores de que se falou no ano passado sobre as propostas que fizeram para a compra do NB. Mesmo que o BCP tenha que fazer a seguir um AC de 2000 M€, valores que têm sido apontados em alguma imprensa, o facto de se posicionarem já com 16,7% do capital a preço de uva mijona garante-lhes que conseguirão a posição pretendida gastando pouco mais de 500 milhas. Para uma empresa com uma capitalização de mais de 11 mM de dólares não parece grande espiga! É o chamado negócio da China!

Aliás, o negócio é tão interessante que, apesar dos pesares, pode ser que apareça oferta concorrente, visto o fim-de-semana ter mostrado que, mesmo para o pior do teste há gente disposta a acudir, desde que o preço seja o adequado, evidentemente. E é possível que a caminhada feita em bolsa pelo BCP este ano (queda de 60%) tenha tornado o preço adequado!

Posto isto, que dizer relativamente ao futuro da cotação?

Um AC é mau porque dilui a posição dos acionistas uma vez que são produzidas novas ações. No caso do BCP, não só havia a quase certeza de que o AC teria que ser feito, como persistia também a dúvida sobre se existiriam interessados em acudir ao peditório, uma vez que, como toda a gente sabe, o BCP é campeão no que toca a trucidar quem vai aos seus aumentos de capital! Ora esta segunda dúvida cai por terra com o avanço chinês, ao mesmo tempo que parece desaparecer o risco de entrada do estado no capital. Quanto ao problema da diluição, julgamos que quem tinha medo de ver a posição percentual diminuída teve mais do que tempo para abandonar o barco, pelo que sair agora parece um sell on the news muito pouco racional (a menos daqueles que não gostam de capital chinês e preferem fugir a sete pés). Portanto, estamos em crer que estão reunidas as condições para que se dê uma subida de jeito nas cotações, uma espécie de buy on the news (uma nota que é apenas curiosa para dizer que o BCP subiu 50% na semana a seguir ao anúncio do último AC em junho de 2014 - claro que, entretanto, caiu 86%, mas isso agora não interessa para nada)!

Do ponto de vista técnico, houve sinal de compra na sexta-feira, mas vamos precisar de fechar acima dos 0,0216, para ativar uma possível ida aos 3 cêntimos (há ali um canal com topo nos 0,0264 que em caso de panic buy e short squeeze não nos parece relevante). Para baixo, não vemos referências de maior e é possível que um fecho muito negativo amanhã seja o prenúncio de novos mínimos. Seja como for, vai ser interessante de ver!


Nas próximas semanas estarei de férias e só virei aqui larachar se a situação me deixar mesmo cheio de vontade. De qualquer das formas, deixo para publicação automática, ao longo da primeira metade do mês de agosto, dois textos que vão saindo em fascículos. Um é um texto de ficção que escrevi quando não tinha nada melhor para fazer, chamado "O capital ista", mas que não tem nada que ver com capital. O outro é a reposição da primeira "história de dinheiro" que publicamos originalmente há dois anos.

Votos de boas férias para todos!

27.7.16

Sortido de linhas bem feitas

O título dispensa prelúdio e sem mais vamos a elas!

Na Altri, quebra, confirma de seguida, ao terceiro dia atesta valor e avança! Veremos se atinge projecção do que foi aqui dito! Agora, confiram:


Na Mota Engil a SMA200 a fazer de resistência (lógica)! Portanto mantemos a ideia da nossa linha ligeiramente acima da dita média (preto tracejado)! Coisa boa nesta linearidade é que quebra em alta a nossa Lta descendente e obedece há sete sessões consecutivas! Quem ganhará? Aqui está o braço de ferro:

   
No BCP (péssimo dia para falar nele! Mas lá terá que ser) a saltada que demos ao face com uma Lta mais justificada não podia ser! Quebrou, tentou recuperá-la, andou lá mas não mais para cima dela voltou! Hoje crucificou quem não foi disciplinado! Resta saber se o pânico tem razão de ser e o CEO Amado anda a ganhar coragem (tempo, também pode ser) para contar a história ou não é nada disto e o mercado simplesmente acagaçou-se que nem dona de casa desesperada! Fica o boneco, pouco simpático:



A concluir as nossas linhas mestras, os índices!

No PSI20 dissemos aqui e no DAX30, em zona chave, foi escrito aqui! Ambas, minuciosamente, a justificar a nossa visita em plena sessão! 

Fiquem com o fecho de ontem do alemão (marcado com uma esfera, minúscula, a verde no valor com que findou hoje pelos 10320):


E com música nova! Jessy Lanza!


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Resultados