14.8.16

Histórias de dinheiro

História nº 1 (quinta parte)

Se a maior parte do ouro permanecia no cofre imenso tempo sem ser levantada, com a invenção das notas de banco, o banqueiro ex-ourives conseguiu fazer com que os levantamentos fossem ainda mais raros e o ouro ficasse esquecido praticamente ad eternumÉ que, não só os depositantes não necessitavam de andar com metal pesado nas carteiras, pois podiam limitar-se a trocar pedaços de papel, como também a atividade de prestamista podia ser levada a cabo com notas do seu banco.

Claro que, para que isso fosse possível, era necessário que as pessoas tivessem a certeza de que, sempre que assim o entendessem, podiam pegar nas notas que possuíam e apresentar-se no banco para receber o ouro correspondente em troca, e que esse ouro seria entregue sem a mínima hesitação. A isso chamava-se confiança, um ingrediente sem o qual a atividade bancária estaria arruinada, como o nosso banqueiro não tardaria a perceber.

O ser-humano é, como sabemos, um animal estranho. Inicialmente, tem medo e mantém-se na defensiva, mas se o sucesso despontar, vem a confiança que, cedo, se transforma em ganância.

O banqueiro da nossa história, que é afinal uma imagem de todos os banqueiros da História, vivia angustiado com um problema. A quantidade total de ouro na posse dos seus clientes era, obviamente, bastante limitada. Afinal de contas, o ouro é um metal precioso, entre outros motivos, porque é bastante raro. De maneira que chegaria o momento em que, inevitavelmente, o seu negócio estagnaria, porque não haveria mais ouro para captar e, dessa forma, os empréstimos teriam que cessar. Tanto matutou sobre o assunto, tanto refletiu, que, a dada altura, a solução apareceu-lhe na forma de epifania. E se…

13.8.16

Histórias de dinheiro

História nº 1 (quarta parte)

O nosso ourives tinha deixado de existir e com ele o simples cofre-forte que tinha construído para guardar os materiais do seu ofício. Em seu lugar, surgiu um florescente banqueiro, cujo negócio corria de-vento-em-popa, e que contava com toda uma infraestrutura de transações financeiras a que, mais tarde, se viria a chamar Banca. Desde que houvesse estabilidade económica e a paz fosse mantida, o trabalho de prestamista do nosso amigo crescia ao ritmo a que aumentavam os depósitos que era capaz de captar. É que, quanto mais ouro emprestasse, mais investimentos eram feitos, maiores eram as transações de bens e matérias-primas, e maiores necessidades de financiamento existiam da parte empreendedora da sociedade.

A juntar a tudo isto, desde que a rede de balcões fosse suficientemente grande, até se podia dar o caso de o banqueiro emprestar ouro que, em última instância acabaria por nem sair do banco. É que quem pedia emprestado, acabava sempre por comprar alguma coisa e, desde que o vendedor fosse cliente do banco, o ouro envolvido na compra voltava para o cofre. E se o banco tivesse estabelecida uma rede internacional, além do lucro obtido com os juros cobrados, ainda era possível recolher proveitos com a manipulação das taxas de câmbio.

Por esta altura, o banqueiro ex-ourives apercebeu-se de que muitos dos seus depositantes procediam a pagamentos mais avultados entregando o recibo que o banco lhes dera, em vez de virem ao cofre levantar o ouro que tinham depositado. Isso deu-lhe a ideia de produzir recibos estandardizados, com valores bem definidos que permitissem aos depositantes proceder a pagamentos de qualquer montante, sem terem a necessidade de levantarem o ouro que estava depositado. Desde que houvesse confiança no mercado de que o valor marcado no recibo correspondia efetivamente a ouro depositado no cofre, os recibos eram transacionados como se de ouro se tratasse, deixando intacta a riqueza para que o banco procedesse a empréstimos. Mais tarde, os recibos do banqueiro viriam a receber o nome de notas de banco e estariam a caminho tempos em que as notas de banco nada mais teriam do que um valor fiduciário.

No tempo do ourives as pessoas só confiavam no ouro e davam por adquirido que os recibos em circulação correspondiam a metal físico, mas na banca moderna, o valor fiduciário de uma nota de banco chega ao ponto de ser assegurado pelo próprio Deus em pessoa (que religiosos nos tornamos!) que, evidentemente, tem o poder de engendrar in actum toda a riqueza que lhe corresponde.



12.8.16

Histórias de dinheiro

História nº 1 (terceira parte)

À medida que o tempo passava, o ourives foi-se apercebendo de que, desde que fizesse um estudo prévio dos clientes que lhe vinham pedir empréstimos e afinasse a taxa de juro com o risco de cada transação, podia reduzir a sinistralidade ao ponto de garantir um negócio bastante seguro e muito lucrativo.

Claro que, quanto mais emprestasse, maiores seriam os lucros, mas para emprestar com segurança, necessitava de captar a maior quantidade de depósitos possível. Por esse motivo, o ourives, que nesta altura do campeonato já se havia transformado naquilo a que mais tarde se viria a chamar um banqueiro, acabou com a cobrança de renda pelo espaço que os aforradores usavam no seu cofre, o que, evidentemente, convenceu mais gente a entregar-lhe as respetivas economias. Mais tarde, quando todos perceberem que o negócio é bom, e o ourives está a enriquecer, outros construírem cofres e a concorrência apertar, o nosso homem ver-se-á obrigado a partilhar parte dos lucros que obtiver com quem o escolher e passará igualmente a pagar juros. Mas por ora, tal ainda não é necessário.

Entretanto, com a riqueza que for acumulando, o ourives/banqueiro pode, não só construir outros cofres e expandir o negócio para outras cidades, mas também diversificar os produtos que comercializa, investindo em outros tipos de matérias-primas, financiando e tornando-se acionista de empreendimentos, ou criando redes de distribuição e transporte de dinheiro que lhe permitissem lucrar com taxas de câmbio. Quando chegar ao ponto de financiar o próprio rei e, por inerência, o estado, estará em condições de influenciar a situação política e terá caminho aberto para se tornar num magnata.

11.8.16

Histórias de dinheiro

História nº 1 (segunda parte)

Com o tempo, a fama de solidez e fiabilidade do cofre do ourives e a sua honestidade pessoal foram crescendo e mais e mais gente foi ganhando confiança para se decidir a confiar-lhe a guarda dos seus bens mais preciosos.

O nosso ourives, por outro lado, foi-se apercebendo de que havia sempre gente que vinha depositar ouro ou prata, ao mesmo tempo que outros vinham fazer levantamentos, mas, a maior parte das pessoas deixava o ouro e a prata no cofre por muito tempo, pois o que iam ganhando no trabalho do dia-a-dia chegava para fazer face às despesas correntes. De maneira que havia uma grande porção de ouro e prata que ficava pura e simplesmente guardada no cofre sem uso nem serventia.

Claro que o ourives não podia usar esse ouro para produzir produtos para vender, como fazia com o seu próprio fornecimento, e com o lucro comprar mais ouro, repondo o stock inicial, mas havia uma forma alternativa de rentabilizar toda aquela riqueza e que, ainda por cima, implicava muito menos esforço do que o necessário para produzir peças de ourivesaria: o ourives podia emprestar aquela parte dos metais precisos que ficava sempre imobilizada a quem necessitava de capital para avançar com compras ou proceder a investimentos, por um prazo pré-estabelecido, contra o pagamento de um juro previamente acordado. Desde que o ouro fosse devolvido no prazo acordado, ninguém daria pela falta dele e todos ficariam a ganhar!

10.8.16

Histórias de dinheiro

Em tempo de férias, repomos uma das nossas histórias didáticas, publicada pela primeira vez faz agora 2 anos.

História nº 1 (primeira parte)

Era uma vez um ourives que vivia numa cidade distante, há muito, muito tempo atrás. Nesse tempo, o mister do ourives era converter o ouro e a prata em adornos que lhe acrescentassem valor, de modo a que pudessem ser trocados, com lucro, por mais metais e pedras preciosas. Mas como lidava com produtos que toda a gente desejava ter, o ourives vivia numa permanente aflição, com medo de salteadores que lhe descobrissem o buraco onde escondia os bens que produzia e as matérias-primas que ia comprando. Foi por isso que, a dada altura, se decidiu a canalizar parte dos lucros que obtivera para a construção de um cofre sólido o suficiente para desanimar os ladrões.

Quando, finalmente, deu por finalizada a empreitada, o nosso ourives não se coibiu de fazer saber a todos os habitantes da cidade e arredores o quão inviolável era o cofre que tinha construído, de modo a que, chegando a notícia aos bandidos, estes desanimassem de o tentar assaltar.

Mas a publicidade teve um outro efeito que o ourives não antecipou: os bons cidadãos que tinham algumas economias guardadas em casa debaixo do colchão, também tinham medo de ser assaltados e perceberam que era ótimo se pudessem arrendar um espaço no cofre do ourives para lá as colocar em segurança. Foi assim que o ourives passou a receber as economias dos seus vizinhos, a quem passava um recibo sobre o peso do ouro e da prata que guardava e de quem recebia uma pequena renda pelo aluguer do espaço. Quando alguém precisava dos bens que o ourives guardava, para fechar um negócio, só tinha que se dirigir ao cofre e recebia a mercadoria contra a apresentação do recibo.

9.8.16

O capital ista - Última parte

Foi quando começaram a surgir notícias de refugiados sírios a acorrer à Europa que se lembrou que essa era uma parte do mundo onde ainda não tinha estado. Que grande conhecedor de capitais se podia demitir de conhecer Damasco, talvez a mais antiga de todas? Quando anunciou o projeto nas redes sociais não faltou quem o avisasse de que o momento não parecia o mais propício, por causa da guerra e dos fanáticos do Daesh, e a verdade é que esteve mesmo a pontos de adiar a jornada, ah!, viagenzinha mais desconfortável e sem-graça!, mas a coisa tinha sido anunciada e desistir era dar parte de cagarola e, portanto, inaceitável! Tirando o voo até Chisinau (outra capital), evitaria os aviões que podiam ser alvo de mísseis terra-ar e faria um trajeto em S, a varrer: Macedónia, Arménia, Israel. A passagem pela Síria ia ser feita na esgalha, numa pick-up alugada no Irão, o que tinha o defeito de ter que voltar para trás por causa dos custos incomportáveis (meio ano a repor mantimentos) do drop-off, mas trazia a vantagem de subir o score com dois marcos importantes: a Jordânia e o Iraque (quem se não ele iria a Bagdade tirar um retrato?). Foi e viu tudo. Deve ter visto inclusive o Sukhoi-34 russo a aproximar-se e a largar a bojarda assassina em território inimigo. Ficou em papas. Ulisses partiu para a última viagem, aquela de que ninguém escapa, e agora deve andar a colecionar as capitais do paraíso celeste, se é que existem (as capitais)!


8.8.16

O capital ista - Parte 11

Nos anos que se seguiram andou pela Ásia e foi de Moscovo a Pequim de uma empreitada só! Conheceu o Cazaquistão e a Mongólia, regressou e limpou os restantes ões, incluindo o Afeganistão. Em Cabul fez de talibã e juntou-se a eles, mas não gostou desse estilo de vida e pôs-se a bulir. Quando deu por ela estava no topo do Evereste, arriou a bandeira do João Garcia e pôs lá outra maior junto da qual se fotografou. Bateu o recorde de “gostos” no Facebook, mas depois desceu tão rápido que, não só ia tendo uma síncope, como provocou uma avalancha que causou dezenas de mortos. Foi o ponto mais baixo da carreira e houve quem o alcunhasse de “Speedy Gonzalez dos Himalaias”, o que acabou por deixá-lo na mó de baixo durante algum tempo! Foi por essa altura, numa spring break, que fez o tal cruzeiro relaxante nas Caraíbas e visitou Havana e todas as capitais caribenhas. Fez a continência a Castro e lembrou-se emocionado de que, em certo sentido, também ele foi como o Che, que correu o continente de lés-a-lés, antes de enveredar pela carreira de revolucionário. Estava finalmente fechado o ciclo americano e foi com orgulho que anunciou que se sentia apto a dar todos os conselhos e emitir as opiniões mais definitivas no que diz respeito à maior parte do globo terrestre. Mais do que reposição de prateleiras ou segurança noturna, eram as viagens a sua verdadeira arte, e embora o planeta fosse vasto, tornara-se, num curto intervalo de tempo, demasiado pequeno para tão grande vontade de se fazer notar como o maior laracheiro turístico da História, uns furos acima até (quem diria?) de um Fernão Mendes Pinto!


7.8.16

Otimista, se!

Em modo moleza pegada, em plena silly season, em que tudo que implique canseira, a pachorra esgota-se fácil, só umas curtas análises para atualizar cenário aos índices europeus após uma semana de retrocessos e o que perspectivar mediante próximos comportamentos!

No PSI20 a Lta descendente (já com mais de 1 ano!) não facilitou e à mínima aproximação (a de segunda-feira) tratou de aviar o valor novamente para sul! As médias exponenciais aliadas à zona dos 4600 (anteriormente quebrada em alta) foram, como expectável, o suficiente para evitar deslizes maiores e não deixar ceder!


Otimista, se:

Não quebrar em baixa a zona dos 4600 pontos e (por enquanto) nos mantivermos por cima das médias móveis de curto prazo (a vermelho e a azul tracejado) mas sobretudo se for capaz de quebrar em alta a Lta descendente (a roxo tracejado)! A acontecer terá nova luta, quase sem respiro, pelos 4900 (mas aí, e se lá chegar, voltaremos a falar)!

No IBEX35, idêntico comportamento ao tuga! Quebra da Lta (também esta com mais de 1 ano) a ser negada mas também vimos o suporte a funcionar, a amparar a queda e de uma forma mais convicta a reagir, fechando em cima da Lta!

   
Otimista, se:

Não der para trás nas próximas sessões a ponto de quebrar negativamente os 8280! Mas sobretudo (aqui também) acima dos 8800 e de caras para a batalha da SMA200 (a preto tracejado) que a ser ganha dá ânimo para recuperação das perdas até ao final do ano - break-even point - demarcado pela seta azul!

No CAC40, o mesmo filme semanal com diferentes pivots! Zona dos 4480 pontos e SMA200 a fazer de resistências mas mais uma vez o nosso suporte a funcionar!


Otimista, se:

Quebrar os 4480 em alta! É sinal que a média móvel de longo prazo (SMA200) ficou para trás e vai com tudo para recuperar as perdas desde o inicio do ano!

No DAX30 - last but not the least - a mesma dose dos congéneres, segunda-feira a inverter movimento e, posteriormente, os valores anteriormente quebrados em alta a fazer de suporte!


Otimista, se:

Mantiver acima da SMA200 (linha volante a tracejado preto) e se quebrar os 10480 ficando a 2,5% do break-even anual! 

Num texto marcado pela condição para otimismo, uma breve nota:
  • Num ano fustigado pelas péssimas noticias - China, queda acentuada do preço do petróleo, brexit e banca europeia são alguns exemplos do que se escreveu e falou - ver uma recuperação no DAX30 de 20%, de 13,5% no CAC40 e 12% para o PSI20 e IBEX35 desde mínimos talvez espante muitos arautos da desgraça por muito que olhemos para os americanos e os vejamos em máximos! Máximos à custa, sobretudo, de uma politica monetária de longos anos que por cá ainda dá os primeiros passos! 
Tudo isto não invalida a nossa percepção do mercado e o cingirmo-nos ao curto/médio prazo e por isso mesmo cá estamos nós, semana após semana, a analisar o momento!

Esta foi a análise deste domingo para os próximos dias!

Boa semana!

O capital ista - Parte 10

Entretanto, deu com as redes sociais e investiu imenso tempo a arregimentar amigos virtuais para colocarem gostos nas fotos que ia publicando. Criou um blogue onde mandava todo o tipo de larachas sobre viagens, dava conselhos a quem os pedia e encheu a Internet de fotografias onde aparecia em locais emblemáticos. Foi-se tornando famoso, o tuga que correu a América em meia dúzia de dias, um Ulisses homérico dos tempos modernos, um viajante intrépido e destemido, um migrante temporário e voluntário, uma vítima da incapacidade do homem para estar quieto, enfim um profundo conhecedor do mundo e das suas nuances! No ano seguinte lambeu África! Bem, a verdade é que precisou de dois anos, porque no segundo foi para o lado do corno, trepou ao Quilimanjaro e depois veio por aí abaixo e só parou na capital da Austrália. Agora tinha um telemóvel mesmo bom, tirava imensas fotografias e postava tudo em tempo real. Tudo não! Só as que se aproveitavam e não estavam desfocadas pelo movimento perpétuo, mas jamais se esquecia de ser o primeiro a dar “gosto”. No Facebook era um campeão, no Instagram não tinha ninguém à altura e o blogue tinha-se transformado num local de peregrinação virtual. Depois de tantos quilómetros a correr, era o indivíduo mais espadaúdo do país, puro osso e músculo, um grande amigo do ambiente e da mãe-natureza, o primeiro viajante com uma pegada ecológica impercetível. Na Arábia nem de camelo lhe conseguiram deitar a mão e na Índia houve gente a interromper a chafurdice no Ganges para aplaudir a sua passagem. Quanto a capitais, mais umas dezenas para a coleta e, agora sim, estava em velocidade de cruzeiro no que ao conhecimento do mundo diz respeito! A verdade é que sentia uma urgência, porque Ulisses, como cada um de nós, não estava a ficar mais novo e tinha plena consciência da lei suprema da vida: tempo passado, corpo cansado!


6.8.16

O capital ista - Parte 9

Essa arte de viajar pelo mundo continuava a ter o seu lado desconfortável e até assustador e, bem vistas as coisas, antes de sair pensava sempre que ficava bem mais tranquilo e sossegado em casa, mas depois de meter pés ao caminho só se preocupava em não perder nada do manancial de conhecimentos a que estaria exposto, e com viver sofregamente as aventuras infinitas de que depois podia lançar mão numa mesa de conversa. Quando regressou da América tratou logo de explanar todo o seu poder de fogo perante os amigos (que os tinha e muitos), mas foi com horror que verificou que ninguém queria saber de Georgetown ou de Assunção e todos falavam de Havana ou de Santo Domingo, sítios onde, lamentavelmente, se esquecera de ir!  Claro que havia sempre a hipótese de forjar uma montagem com um retrato enquadrado numa paisagem retirada da net, mas, por Deus, Cuba é uma ilha cercada de tubarões e nem ele teria o arrojo de enfiar a patranha de que tinha nadado até lá. Demais a mais, pensava, se não queremos perder o prestígio que nos deu tanto trabalho a conquistar não podemos correr o risco de nos apanharem em falta de uma forma tão saloia! Um Cidadão do Mundo tem que ser, acima de tudo, impecavelmente honesto. Faria um cruzeiro nas Caraíbas noutra altura.


5.8.16

O capital ista - Parte 8

Do Suriname virou para o Pacífico, entrou na Amazónia, que atravessou à catanada, e mergulhou nas águas do rio negro em Barcelos, subiu a Bogotá e foi raptado por traficantes que o confundiram com um atleta de renome mundial, tão rico que tinha vindo para os Andes preparar a maratona das olimpíadas. Quando perceberam que se tratava de um pé rapado e que não tinham sequer a quem pedir resgate, soltaram-no em Quito, o que foi um duplo favor que lhe fizeram! Desceu a costa oeste, curvou na Argentina e subiu até Brasília. Nem uma capital falhou e agora podia dizer que tinha passado por todas e tinha visto tudo! Do Brasil apanhou um avião para casa com escala em Otava, onde esteve um par de horas: aeroporto, cidade, aeroporto, na gáspia, a penantes, em busca da foto certificadora. Conseguiu-a. Quando chegou cá era um homem feliz: Ulisses o conquistador da América! Fizera o roteiro das capitais em quinze dias de jornada, mas tinha visto tudo e sobre tudo tinha mais do que legitimidade para opinar. O Canadá é um assombro, uma terra de cultura e delícias, as Honduras de cortar à faca e têm sorte se não vos fizerem às postas, se gostam de praia, não é bom pensarem em ir à Bolívia, e de Buenos Aires a Montevideu a melhor forma de passar é a nado, através do Río de la Plata, pois evitam engarrafamentos bastante enfadonhos!


4.8.16

O capital ista - Parte 7

Sempre sem parar passou por todas as capitais da América central, entortou para Caracas e foi direto a Paramaribo. Em todas elas tirou fotografias (mais tarde arrependeu-se de não ter parado, porque a maioria ficou desfocada) e mesmo nos mercados e nas roulotes de enchiladas havia alguma coisa dentro dele que o impedia de parar e ficar quieto. Numa fila na Venezuela acabou mesmo por levar um par de estalos por ter passado à frente das donas de casa, mas no geral, a passo de corrida, a viagem fazia-se de uma forma que evitava vários inconvenientes que o afligiam nas alternativas mais convencionais: não estava sujeito a horários, não gastava dinheiro em bilhetes nem em combustíveis, não vivia sobressaltado com a incompetência de um qualquer condutor adepto da pinga, etc. 

Nem para dormir parava, pois tinha desenvolvido uma inovadora capacidade para adormecer nas retas, embalado pelos solavancos das suas pernas hiperativas. Calculava mentalmente o tempo que podia cochilar, com base na extensão do percurso, e encostava a cabeça a um amparo próprio que entalava entre o ombro e as orelhas. Para tomar banho e fazer a higiene pessoal usava os rios, que fazia questão de passar a nado.


3.8.16

O capital ista - Parte 6

No verão mandou-se para Nova Iorque, comprou uma bicicleta num garagista e meteu-se ao caminho até Washington, onde dormiu num banco de jardim coberto pelo ar puro da noite! Casa Branca, Capitólio, memoriais, umas voltas pela cidade e estava o assunto arrumado. Não se esqueceu do autorretrato nos sítios interessantes, mas ao meio-dia estava despachado e abalou, a pedal, para a Cidade do México. Vários dias depois, com algumas boleias pelo caminho e uns trajetos de comboio, meteu na cabeça que queria uma foto no Grand Canyon e foi até lá. Na Strip de Vegas fotografou-se nos néons, mas não chegou a entrar nos casinos porque teve medo de acabar na miséria. Depois atravessou o deserto para se fotografar com o letreiro de Hollywood em pano de fundo e sempre a pedalar desceu em direção à fronteira mexicana. Tinha sido uma excentricidade, mas atravessara a grande nação americana de costa a costa e o feito valia-lhe uma entrada direta na galeria dos mais ilustres viajantes do mundo. Jack Kerouac não fez melhor! 

Em Tijuana quase lhe rebentaram o canastro para lhe roubar a bicla e os acepipes, mas a coisa deu uma volta engraçada porque apareceu um grupo rival e os mexicanos mataram-se uns aos outros à facada e aos tiros e, no final, só sobrou ele. Como teve o bom-senso de revistar os cadáveres, acabou com uns pesos a mais no bolso e deu-se ao luxo de trocar a pedaleira por uma acelera. Os tacos e os nachos é que quase deitavam tudo a perder e foi semidesidratado pela diarreia que se apresentou na grande praça da Constituição da antiga capital Azteca. Despachou-se e abalou rumo a sul. Numa curva da estrada nasceu-lhe uma furgoneta em contramão, levou uma trombada e escangalhou a motoreta. Antes que os índios tivessem tempo de arrear a ver o estrago pôs-se a pé, achou-se ok, e deitou a correr por ali a baixo. 


O capital ista - Parte 5

Como não se podia dar ao luxo de ter grandes despesas, apesar de ser um fulano bem parecido todas as moças com que ia namoriscando acabavam por lhe dar com os pés, porque não havia ninguém mais forreta do que ele! Todas se encantavam com as aventuras que ele contava e os lugares onde tinha estado, mas ao fim de algum tempo a pagarem as saídas não admirava que voassem para longe! Um dia acordou e deu-se conta de que, mais coisa menos coisa, a Europa estava vista e era necessário alongar o passo e conhecer capitais de outros continentes. Os problemas que se colocavam eram dois: a planificação da empreitada e o dinheiro para financiar a coisa. Arranjou um biscate como segurança num armazém, quatro horas diárias das oito à meia-noite e começou a correr de manhã cedo, antes de pegar ao serviço, para ficar em forma. Um ano, na Páscoa, pegou na bicicleta e fez o Caminho de Santiago, só para ver como se sentia. Sentiu-se bem: ir e vir num fim de semana sem ficar com as pernas bambas!


2.8.16

O capital ista - Parte 4

Ulisses arranjou emprego como repositor num hipermercado e passava a vida a esmifrar para garantir que havia dinheiro para colecionar capitais. Metia-lhe um medo tremendo andar de avião e era com uma preocupação enorme que encarava cada nova saída, mas fazia questão de continuar a construir um currículo de viajante, um conhecedor in loco de todos os locais mundiais de que se ouve falar, mas apenas uns quantos privilegiados conhecem realmente. Com um ordenado pequeno era-lhe difícil fazer mais do que uma surtida anual, pelo que rapidamente se apercebeu de que jamais conseguiria atingir o ritmo próprio dos grandes viajantes, daqueles que se podiam gabar de ser “cidadãos do mundo”! Mesmo assim foi a Roma, Atenas e um ano, com enorme sacrifício, não só porque o preço era alto, mas também por causa do medo que tinha da água, meteu-se num cruzeiro (os enjoos quase deram cabo dele) e conheceu, de uma assentada, todas as capitais nórdicas. Em Roma foi-se benzer, deu com um casamento e acabou por se infiltrar na boda a beira do Tibre. Mais tarde, contou como enfardou à larga e os italianos não deram por nada. Aliás, conseguiu manter entretidos até os noivos, enquanto atacava nos salgados, porque a verdade é que o italiano é muito parecido com o português. Era esse tipo de histórias de que mais gostava, embora na maior parte das vezes a história não tivesse sido mais do que sugerida por um acontecimento vulgar. Em Roma foi benzer-se, ponto final!


O capital ista - Parte 3

No fim do curso, uma porcaria de curso que não servia para nada, era lógico reconhecer que o que acabara por se tornar relevante era a coleção de capitais por onde passara e o homem viajado em que se havia tornado. Quando um conhecido se punha a falar em ir a algum lado não perdia tempo e dizia logo “já lá estive” ou “conheço muito bem” e dava sempre conselhos do género “em Amesterdão tens que ter cuidado com os carteiristas, porque os holandeses andam sempre charrados e são uns larápios dos diabos”, ou “não te aconselho a andar na London Eye porque sai-se de lá com vontade de vomitar”, ou ainda “definitivamente Praga vale muito mais a pena do que Budapeste, mas o que te aconselho a fazer é ires à Croácia porque é um país muito mais autêntico”! Depois contava peripécias como daquela vez em que estava tão bem bebido que se pôs aos berros em português com um polaco em Varsóvia a ver se arranjava trocos para o elétrico, e o rapaz desatou a fugir cheio de medo daquela linguagem estrangeira, ou quando encontrou uma pandeireta num canto do jardim e se pôs a cantarolar na Stephenplatz e os turistas lhe encheram um saco de moedas. Curiosamente, era quando as coisas corriam mal que se ganhavam as melhores histórias para contar: um dia, alugou alhures um quarto numa casa velha e veio um temporal tão grande que o barraco foi pelo ar, e ele teve que se firmar às grades da cama até que a calma voltasse; doutra vez, ia todo lampeiro e chispado a conduzir pela direita do aeroporto para o centro de Dublin e, bem, é fácil imaginar os sustos por que passou! Que lorpa! No momento era um caguefe infernal, mas depois quando podia encher o peito e contar como se tinha desenvencilhado de forma tão heroica, acabava com vontade de se meter em sarilhos.