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28.8.15

Back in business

Inevitavelmente chega um dia em que as férias acabam e temos que voltar à faina, sempre com a esperança de que o pagode possa continuar noutra altura. A nós, que temos no corpo este vício do investimento especulativo, (ainda que nesta casa também se pratique o investimento produtivo), cai-nos bem que a silly season nos mercados coincida com a altura em que botamos o pé na estrada e vamos por esse mundo fora ganhar arcaboiço para enfrentar as vicissitudes da arte. E a estação é silly precisamente porque há muitos que pensam como nós e se põem a milhas, deixando o mercado entregue a pessoal que entra em histeria em menos de um fósforo! Com o volume reduzido por a gente crescida andar a banhos, é habitual a ocorrência de movimentos completamente marados que já não temos pachorra para gramar! 

Claro que respeitamos quem opta por negociar à maluca e ninguém pode dizer que aqueles que puseram o dinheiro a trabalhar neste querido mês de Agosto possa ter queixa da despesa feita: emoções fortes não têm faltado!

Particularmente, incluo-me na lista daqueles que gostam de fazer férias à patrão (com tudo incluído e respetivos extras) e não pagar nada por isso. É disso que mais gosto e tenho um segredo bem fixe para vos contar se quiserem fazer parte desse seleto grupo. Tudo o que precisam é de fazer um lote de negócios bem assentes de setembro a meados de julho (ou até abril em anos de sell in may, como tem sido este) e depois não se incomodem com os gastos em agosto. Quando chegarem, vão perceber que ganharam dinheiro: é que se tivessem ficado a negociar, a bosta feita tinha-vos levado muito mais cacau do que aquele que investiram no vosso real prazer! Vão por mim porque no que levo de prática nunca falhou! De modo que gozamos todos cá em casa como se fôssemos jogadores da bola (de um clube modesto) e quando chegamos estávamos mais ricos do que se eu tivesse ficado em frente ao monitor a ver números verdes e vermelhos: pó diabo com eles! E nem me venham com a conversa de que se tinha ganho dinheiro à bruta entrando curto e depois longo, espremendo bem as oscilações brutais dos mercados porque nesse tipo de programa cai quem acha que negociar em bolsa é coisa fácil!


10.5.15

Seis livros sobre a II Guerra Mundial

O final da Segunda Guerra Mundial é o pretexto perfeito para vos sugerirmos 6 leituras que a nós muito nos têm ajudado a lidar diariamente com os desafios que a vida nos vai colocando. É que, estamos em crer, nunca como nessa época foi o ser humano sujeito a tão grandes provações, de uma forma tão sistemática e inovadora, nem jamais se atingiu um extremo tão grande de insanidade, de crença cega e de desumanidade como nesses seis anos. E julgamos que é nos extremos, nos Cisnes Negros (como diz Nassim Taleb no seu livro que fala de acontecimentos raros e de rutura), que devemos procurar os grandes ensinamentos.


O livro do recentemente falecido historiador britânico Martin Gilbert é a grande descrição das decisões dos diferentes governantes e do desenrolar das operações no terreno à medida que a guerra avança. Como introdução ao tema não há melhor, sendo Gilbert pormenorizado q.b., sem ser exaustivo, dando-nos uma perspetiva circunstanciada dos acontecimentos numa base diária, ainda que não entre em grandes pormenores acerca das motivações dos diferentes protagonistas, nem dos debates que antecederam as tomadas de decisões. Peca por uma natural parcialidade britânica e também por não nos dar qualquer vislumbre sobre a realidade concreta no terreno, o modo de vida das populações, os dramas das batalhas ou as consequências diretas na vida dos envolvidos que o desenrolar de acontecimentos tão dramáticos ia tendo. É um livro de relato e nesse sentido acaba por não ir muito mais longe do que documentários que possamos ver no Canal de História, mas mesmo assim, é leitura que se recomenda para aqueles que querem tomar contacto com o turbilhão de acontecimentos históricos. 



Ian Kershaw ficou famoso com a biografia de Hitler que publicou em 2001 e que é considerado como o documento definitivo sobre a vida do fuhrer e a construção da mentalidade nazi. O livro que vos recomendamos começa no dia D (6 de junho de 1944), dia que nas palavras do autor marca o princípio do fim do Terceiro Reich, embora no decorrer da obra percebamos que o fim já estava traçado desde a derrota de Estalinegrado, em fevereiro de 1943, e acaba com a rendição alemã. É a descrição, com detalhe, dos acontecimentos que precipitaram a queda e a desgraça da Alemanha, das decisões cada vez mais irracionais da cúpula nazi, do drama da população alemã vinculada, por um lado, ao líder que seguiu cegamente durante tanto tempo, mas cada vez mais consciente de que a derrota e a vingança dos vencedores seria inevitável. É a história do fecho da tenaz em torno dos cada vez mais isolados nazis, com os russos selváticos por um lado e os aliados implacáveis por outro, numa espiral de brutalidade como nunca antes sucedera.


Antony Beevor é outro profundo conhecedor do tema, com diversas obras publicadas, entre as quais esta sobre os dias do fim da capital do Reich. O livro começa em Berlim, no dia de Natal de 1944, e podemos dizer que se trata de uma visão amplificada da obra de Ian Kershaw. Aqui é o drama das populações que constitui o assunto central e a verdade é que o livro não poupa nos pormenores. A brutalidade da vida dos alemães nesses meses de 1945, quando o feitiço se virou contra eles e se tornam alvo da vingança de ingleses, franceses e, acima de tudo, do exército vermelho, ao mesmo tempo que são massacrados pela própria Wehrmacht ou presos pela Gestapo quando mostram hesitação (ficaram para a história os populares que eram enforcados com letreiros pendurados em que se lia "fui enforcado por ter sido covarde"). É a descrição da loucura final dos dirigentes nazis que impõem uma luta até à destruição final, mesmo quando todos percebem que a derrota é inevitável, e o relato de como muitos não hesitaram em tentar, pura e simplesmente, salvar a pele (veja-se o caso de Himmler), mesmo que para isso tivessem de impor sacrifícios ainda maiores àqueles que durante tanto tempo neles confiaram cegamente.


Como funcionava a Alemanha nazi do ponto de vista económico? Como é que durante uma grande parte da Segunda Guerra Mundial foi feito o saque e a distribuição do despojos de guerra de modo a manter o povo satisfeito e os índices de popularidade de Hitler e dos dirigentes nazis tão elevados? Quais foram as motivações económicas para a guerra? Como é a economia de um estado totalitário, conquistador e esclavagista? É este o assunto do livro do historiador alemão Gotz Aly, que tem a grande mais-valia de nos explicar os desafios que se continuam a colocar mesmo à economia de uma nação que extrai tantos recursos, a um ritmo tão avassalador, a um número grande de países ou a uma parte tão rica da população europeia como eram, por exemplo, os judeus (o caso da Grécia, por exemplo, a que se referem agora os governantes daquele país, com os já famosos pedidos de indemnização, é descrito com detalhe). A forma como se lidou com a moeda, como foi feito o pagamento aos soldados, como a corrupção levou a um acelerar do fim ou como o sistema de favores mútuos entre a população contribuiu para que rapidamente todos estivessem comprometidos com máquina de guerra nazi.


No que diz respeito a obras de ficção sobre a Segunda Guerra Mundial é difícil bater Vida e destino de Vassili Grossman, que juntamente com Kaputt de Malaparte (de que já falamos aqui e aqui), são os grandes relatos da experiência no terreno por quem a viveu. Grossman era soviético e relata-nos as vicissitudes da vida sob o regime de Estaline e os dramas dos combatentes do exército vermelho durante o cerco de Estalinegrado. Perceber o efeito criado na imensa soldadesca pela impossibilidade de recuar, sob pena de Gulag, e o enorme desafio de lutar com um exército nazi aparentemente invencível é o grande trunfo que nos dá este livro monumental que, não sendo de leitura fácil (é colossal, por exemplo, o número de personagens e é fácil perdermo-nos nos nomes e diminutivos russos) acaba por ser pedagogicamente imbatível, por nos dar a conhecer a enorme capacidade de resistência e de adaptação do ser humano.


E deixamos para o fim aquele que, estamos em crer, é o melhor livro de ficção sobre a Segunda Guerra Mundial. Ainda que escrito por um escritor que não viveu os acontecimentos (nasceu apenas em 1967) as Benevolentes de Jonathan Littell tem a força de um registo biográfico. "Irmãos humanos, deixem-me contar-vos como foi que se passou", assim começa o relato na primeira pessoa de Max Aue, oficial das SS, desde que começa a sua formação militar até ao dia em que as Benevolentes descobriram o seu rasto numa Berlim destruída e conquistada pelos soviéticos. A escrita magnífica de Littell (como é que um jovem que na altura tinha menos de 40 anos conseguiu escrever aquilo é algo que ainda estou para perceber!) torna a leitura das quase 900 páginas do livro um prazer raro e, apesar de sermos confrontados com uma realidade cada vez mais violenta, crua, sangrenta e irracional nada há no livro que seja excessivo ou inacreditável. Como é que os nazis justificavam para si próprios os seus atos, como conseguiam aguentar o peso da consciência e de que forma lidavam com o horror diário em que se encontravam atolados é-nos explicado de forma límpida e precisa por Max Aue nas suas deambulações e aventuras. Um livro absolutamente obrigatório se queremos compreender a natureza humana, se gostamos de literatura de grande nível e se nos interessamos pela história e, já agora e porque não, pelos negócios e por negociar em bolsa. Pode não vos dizer muito, mas digo-vos que este livro se encontra no 5º lugar num top pessoal que contém mais de 400 entradas. Vale bem a pena! 

Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.*

Agora, que assinalamos os 70 anos sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, vale a pena rever as imagens das paradas militares de Berlim, em 1940, numa altura em que a guerra relâmpago dava aos alemães o controlo sobre uma grande parte da Europa (a do vídeo que apresentamos teve lugar a 18 de julho e celebra a anexação da França, no apogeu do III Reich).

As imagens da celebração histérica da multidão contêm, quanto a mim, mais pedagogia sobre o assunto principal deste blogue do que a leitura de infinitos livros sobre bolsa e negociação nos mercados financeiros.

Nos 5 anos que se seguiram, todos os que vemos no filme estarão desgraçados ou mortos.


* Nietzsche

26.4.15

Um ano a negociar em bolsa

O tempo é uma coisa marada! 

No nosso tempo de crianças um ano era uma eternidade e dentro desse intervalo estava contida tanta aprendizagem, tantas novidades e experiências inovadoras, tantos desafios superados, tanto crescimento... tanta velocidade! É a Relatividade de Einstein (é Física, como não podia deixar de ser): quanto maior for a velocidade, mais o tempo estica! O tempo é, pois, relativo: depende não apenas da nossa velocidade como um todo (Mecânica), mas também da velocidade das partículas que nos constituem (Termodinâmica).

Porquê a lição de Física? 

Porque já não somos crianças!

Porque o tempo continua a passar, mas agora muito mais depressa!

Porque todos os dias aprendemos incomparavelmente menos do que aprendíamos dantes!

Porque se não partilhamos conhecimentos não vamos ter tempo!

Porque se não procuramos entender e ficamos pelo superficial vamos falhar! E falhar! E falhar...

Porque se falhamos e não aprendemos vamos desistir!

E se desistimos não vivemos... sobrevivemos!

Porque já se passou um ano!


Para quem anda nos mercados, infelizmente, o tempo passa ainda mais depressa e temo bem que fiquemos velhos antes dos outros. 

Mas vale a pena! Curtimos à brava, vivemos por inteiro, com força, com alma e com os sentidos sempre apurados. Às vezes andamos perdidos de cagaço, mas depois há as alturas em que somos os gajos mais bonitos da festa! Oh, se somos! E é tudo passageiro e louco, apenas números!

Perdemos dinheiro como se fôssemos milionários, mas não desistimos; ganhamo-lo como se ele crescesse nas árvores e não ficamos satisfeitos. E compreendemos! Acima de tudo, compreendemos! Apesar de na maior parte das vezes só compreendermos depois de nos termos enganado. 

Aprendemos a ignorar o que não interessa e a focarmo-nos no essencial, garantimos que pensamos sempre pela nossa cabeça, apesar de ouvirmos os outros, assumimos as nossas decisões até ao fim, pagamos pelos erros, aprendemos e seguimos em frente. Vivemos!

Desde o início investimos essencialmente no que é nosso, na nossa pobre bolsa de valores, e justificamos muitas vezes porquê. Na bolsa tudo sobe e tudo desce e podemos ganhar com a subida e com a descida, mas há uma máxima de que não abdicamos: se complicarmos, vai correr mal!


No dia em que começamos, o PSI20 abriu nos 7342 pontos. Subiria até um máximo de 7596, para depois descer aos 4602 e em seguida recuperar até aos atuais 6038 pontos. Pelo caminho ficou o BES (logo no primeiro ano levamos com uma falência, coisa a que nunca tínhamos assistido no nosso tempo nos mercados), e assistimos à destruição da PT. O gráfico seguinte sintetiza o que se passou no PSI20 nas 247 sessões que passaram desde que abrimos portas:


Agora é tempo de olhar em frente porque um ano não é nada! Queremos continuar a partilhar a nossa visão do mercado e a usar nos nossos negócios aquilo que outros como nós estão dispostos a partilhar connosco. 

A partir de hoje, para além de mim próprio, David Ferreira, do Fernando Pereira e do Renato Ribeiro passamos a contar com o contributo do João Duarte, um jovem com formação em marketing, chegado há relativamente pouco tempo aos mercados, mas que tem feito um percurso bastante sólido em termos de desempenho bolsista, alicerçado fortemente na componente de análise técnica de gráficos, mas também numa atenção muito apurada aos factos do quotidiano que fazem mexer com as cotações.

Nos próximos dias, vamos também republicar alguns dos nossos posts pedagógicos que ficaram esquecidos na avalanche de publicações deste nosso primeiro ano de atividade.

Uma palavra de agradecimento para todos aqueles que nos acompanharam e nos visitam! É a vossa visita que nos dá a motivação para perdermos algum tempo todas as semanas com o fornecimento de material para esta casa. Esperamos ter contribuído para que ganhem dinheiro! 

Permitam-nos que realcemos o contributo dos amigos do Colégio onde leciono e que são grandes conhecedores de bolsa e de investimentos: Fernando Pereira, Nuno Marques, Rui Figueiras, Agostinho Mota, Tiago Barbosa, Miguel Oliveira, Damião Porto, António Ferraz, António Coelho e José Gonçalves. Outra menção especial para os amigos dos grupos Bulls & Bears e Bolsa - Stock Market..., de forma especial o Nuno Filipe Alves e o Nuno Cortez. Sem a vossa partilha, estávamos mais pobres!

Continuemos...

31.7.14

Para memória futura

Que me perdoem aqueles que hoje viram o património fortemente reduzido à conta da incrível história de incompetência e falta de vergonha que envolve o BES, mas há uma lição a retirar de tudo isto e que nos interessa particularmente a todos nós que estamos dispostos a arriscar o fruto do nosso trabalho nos mercados de capitais. Guardei-a, à lição, sob a forma de uma frase que o The Mechanic, um excelente forista do Caldeirão de Bolsa, usa quase como se fosse um lema:

"Os que hesitam, são atropelados pela retaguarda"

Evidentemente, a frase aparece num contexto de guerra, no caso as guerras napoleónicas, no magnífico livro de Stendhal, a Cartuxa de Parma, escrito em 1830, e cuja leitura deveria ser mandatória. Mas aplica-se, ipsis verbis, a esse autêntico campo de batalha que é a bolsa. 

No dia 8 de julho, quando surgiram notícias de que empresas ligadas ao BES tinham falhado pagamentos na Suiça, escrevemos no nosso FB: "Só mais uma achega sobre o incumprimento do GES: se estivéssemos nos EUA ontem o BES tinha caído pelo menos 50% e hoje estava, de facto, em situação de ter de pedir proteção contra credores. E olhem que estou a falar do BES e não do GES. É que um incumprimento, por menor que seja, tem um custo reputacional que atira qualquer empresa ao tapete. A situação só não é dramática porque estamos em Portugal." O BES cotava a 70 cêntimos e quem anda nisto há muito tempo sabe que os mercados não perdoam e costumam ser crueis!

Para não nos esquecermos do dia em que acabaram mais de 150 anos de história do BES e muitos foram atropelados porque hesitaram, deixo-vos a imagem do stream em fecho no Activobank.