O amigo Delmiro também pode estar
a pensar que o preço do milho vai descer. Vamos supor que o preço se encontra
nos 1000 dólares o alqueire quando o banco emite um warrant put (que dá o direito de vender por um preço previamente
estabelecido e se destina a quem quer ficar curto), com preço de exercício de
800 dólares, paridade 100:1, e maturidade a três meses. Claro que, em
princípio, ninguém vai querer esse warrant
porque ele confere o direito de vender a 800 o que está a ser vendido a 1000, o
que é nitidamente uma péssima opção. Contudo, como ainda há três meses até
chegarmos ao momento da verdade, o warrant tem razão de ser, ainda que valha apenas
o preço da expetativa, digamos 1 cêntimo. O amigo Delmiro é um fulano corajoso
e gosta de arriscar, pelo que compra destes produtos porque está convencido de
que pode haver uma hecatombe no preço do milho.
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1.5.17
30.4.17
Histórias de dinheiro
Quinta
parte
Não é exagero dizer-se que os
contratos de futuros e as opções são tão antigas quanto o comércio, mas com o
passar do tempo e, de forma especial, a partir do momento em que se deu o
surgimento do capitalismo, o número de players
no mercado foi subido de forma exponencial. A dada altura, cada um dos amigos
tinha imensos amigos com quem jogar e uma data de possibilidades ao seu dispor
para melhor rentabilizar o comércio que faziam. Chegou o tempo em que mesmo
gente que não tinha nada que ver com o negócio do milho ou das pipocas começou
a ter interesse em participar da jogatana com o intuito de lucrar com a
valorização das opções. Foi aí que todos esses amigos tiveram uma ajuda
preciosa de um amigo grande e supostamente endinheirado: a banca!
29.4.17
Histórias de dinheiro
Quarta
parte
O amigo Casimiro negociava com o
amigo Antonino a opção de compra de um determinado número de alqueires de
milho, numa dada data futura, por um preço pré-determinado. Por essa opção
pagava ao agricultor um valor acordado, o chamado prémio, e ficava de posse da
garantia de que na data de exercício podia comprar a mercadoria, mas também
podia optar por não o fazer, caso em que não exerceria a opção. Desta forma, o
amigo Casimiro tinha a garantia de que o preço máximo que pagaria pelo milho
era o prémio mais o estipulado no contrato, mas jamais pagaria mais do que
isso, estando livre para comprar milho que na altura da colheita estivesse mais
barato, perdendo apenas o valor gasto na opção.
28.4.17
Histórias de dinheiro
Terceira
parte
Do ponto de vista do amigo
Casimiro rapidamente surgiu um atrativo que tornou o negócio de intermediação
ainda mais aliciante. De posse dos dois contratos, podia assistir durante meses
à oscilação diária do preço da colheita futura de milho, sabendo que, na pior
das hipóteses, pagaria o valor estipulado em A e receberia o prescrito em B.
Mas podia dar-se o caso de os ventos da fortuna soprarem a seu favor e
começarem a surgir notícias favoráveis às posições que detinha, por exemplo, de
carestia de milho e de protestos contra o barulho dos mastigadores de pipocas
nos cinemas. A subida do preço do milho e a queda do preço das pipocas ia
valorizar os seus contratos e podia acontecer de ele conseguir alienar os
contratos em mercado secundário realizando uma mais-valia extra.
27.4.17
Histórias de dinheiro
Segunda
parte
Quando semeava milho, o amigo
Antonino contava com uma margem de lucro mínima para que o esforço valesse a
pena e ele se sentisse recompensado. Tudo o que viesse acima desse lucro mínimo
iria fazer crescer a excelência do ano a um ritmo exponencial. Do nível
definido para baixo entrávamos no terreno perigoso em que o ano dava para o
torto também a uma taxa assustadoramente crescente, até ao ponto em que se
começava a ter prejuízo. Havia ainda que contar com os anos trágicos em que um
vendaval ou um qualquer fenómeno extremo pusesse termo à colheita antes de esta
se fazer, pelo que o nível a que era estabelecida a margem de lucro mínima
tinha sempre que levar em linha de conta essa possibilidade.
26.4.17
Histórias de dinheiro
Primeira
parte
O amigo Antonino tinha umas
terras e produzia milho. Como acontecia (e acontece) com todas as
matérias-primas, também o preço dos grãos estava sujeito à influência de um sem
número de variáveis, de maneira que todos os anos, por altura da sementeira,
o amigo Antonino enfrentava o problema de não saber com que margem de lucro podia contar,
partindo do princípio de que teria produto final para vender. Depois de deitar
os grãos à terra havia uma parte ínfima do seu futuro que ele conseguia controlar, mas a maior parte do que se seguiria até ter o produto final
para vender permanecia completamente fora de controlo, e estava ligado a uma
quantidade tão grande de variáveis que todos os dias oscilava entre a fortuna e
a desgraça.
30.1.17
8-8-8
Quando lhe disseram que aquele trabalho implicaria refazer
tarefas que não fossem consideradas de execução a contento, pensou na sua
máxima: "Uma das características dos obsessivos-compulsivos é desejar que
os outros também o sejam".
Saiu, na manhã seguinte, fingindo-se desconhecedor da nova filosofia pós-new age: "Oito, oito, oito: oito para dormir, outras tantas para viver e... oito para trabalhar.".
Rapidamente percebeu que a insciência e a obsessão-compulsão podem, inesperadamente, casar-se: tornou-se obsessivo com a compulsão de dormir à hora exacta; compulsivo com a obsessão de viver com horas marcadas e... Insciente da hora de saída do trabalho.
Saiu, na manhã seguinte, fingindo-se desconhecedor da nova filosofia pós-new age: "Oito, oito, oito: oito para dormir, outras tantas para viver e... oito para trabalhar.".
Rapidamente percebeu que a insciência e a obsessão-compulsão podem, inesperadamente, casar-se: tornou-se obsessivo com a compulsão de dormir à hora exacta; compulsivo com a obsessão de viver com horas marcadas e... Insciente da hora de saída do trabalho.
Estava
criada a obsessão-insciência-compulsão como nova teoria quântica a observar no seu quotidiano, sendo determinante a quânti(c)a de oxigénio que o recibo do multibanco indicasse após os dois pontos
da palavrinha... "saldo".
21.8.16
Histórias de dinheiro
História nº 1 (última parte)
A crise que se iniciou em
2007, e viria a agravar-se em setembro de 2008 com a falência do Lehman
Brothers, é uma crise de sobreavaliação das reservas do sistema bancário.
Durante a fase de
crescimento explosivo do mercado imobiliário os bancos andaram a constituir
massivas reservas não com ouro ou prata, mas com hipotecas de crédito à
habitação.
O crescimento económico no ocidente
nas décadas finais do século XX criou uma sociedade em que os rendimentos
crescentes não encontravam escoamento nos produtos tradicionais do mercado, ao
mesmo tempo que as políticas sociais conduziram a uma sensação de segurança que
desincentivou a poupança tradicional. Na ótica do ourives/banqueiro da nossa
história, o que começou a passar-se no final do século XX foi paradoxal: havia
mais riqueza para depositar no cofre, mas, devido ao crescente consumo, os
valores circulavam entre os cofres dos diferentes concorrentes a uma velocidade
tal que obrigava a elevar o rácio de constituição de reservas seguras, ao mesmo
tempo que reduzia o negócio prestamista da Banca.
A solução surgiu na forma de
crédito a habitação, tradicionalmente um crédito de longo prazo, o que
significava que a reserva constituída pela hipoteca seria mantida no cofre por
muito tempo. Para além disso, o crédito à habitação vinha com uma panóplia de
extras que, em conjunto, rebentavam com o espaço no cofre do ourives mais
extravagante: crédito aos construtores, aos fornecedores de todo o tipo de
materiais, aos fabricantes de mobiliário, de eletrodomésticos, e de tudo o mais
que uma casa pudesse conter e, até, artigos não relacionados, como automóveis e
respetivos fabricantes. E para todos esses créditos eram produzidas hipotecas
que se amontoavam no cofre do banco, prontas a serem liquidadas, se alguém se
apresentasse para fazer levantamentos. E o mais incrível era que o valor das
próprias hipotecas no mercado subia, não só porque havia o registo histórico de
a habitação nunca ter desvalorizado, mas também porque eram valorizadas
enquanto reservas de capital. No fundo era como se o vosso empréstimo de 1000€
ao Amílcar valorizasse e vocês o pudessem vender ao Zeferino, ao fim de algum
tempo, por, digamos, 1500€. Uma loucura!
A sensação de segurança de
que a sociedade gozava tornou a compra de casa compulsiva e os bancos começaram
a ter lucros incríveis com os juros que recebiam, ao mesmo tempo que acumulavam
reservas de capital verdadeiramente imparáveis. Com o negócio a carburar dessa
forma, não admira que as cotações das ações da banca voassem em Bolsa,
arrastando na subida empresas de todo o tipo e feitio, algumas das quais não
valiam um vintém furado.
Como os salários e bónus dos
conselhos de administração estavam indexados aos resultados obtidos que, por
sua vez, influenciavam as cotações em Bolsa e dependiam das reservas de
capital, chegou-se a um ponto em que o único objetivo da Banca passou a ser
adquirir hipotecas, que eram avaliadas segundo o pretenso valor de mercado do
imobiliário, ignorando a capacidade de pagamento de quem pedia o crédito. Em
meados da primeira década do século XXI, muito do verdadeiro crédito à
habitação estava esgotado e começou a crescer um segmento designado como
subprime: uma espécie de crédito de baixa categoria que no limite era concedido
a pessoas que recebiam a designação de NINJA (no income, no job or asset). Está tudo dito! Os banqueiros sabiam
que essas hipotecas nunca seriam pagas, e também sabiam que os colaterais (as
casas hipotecadas) desvalorizariam de forma acentuada quando o mercado fosse
inundado de incumprimentos, mas tinham no recibo do salário o incentivo certo
para acumularem reservas de lixo nos respetivos cofres.
E sabiam que no dia em que
aqueles que neles confiaram para guardar os seus valores lhos viessem pedir de
volta, eles não os teriam no cofre, porque tudo o que lá existia era hipotecas
de casas que tinham gente dentro que não podia pagar o crédito e, se fossem
vendidas, valiam muito menos do que o valor hipotecado. Por esse motivo, os
banqueiros começaram a titularizar essas hipotecas e a vendê-las a retalho sob
a forma de fundos com nomes pomposos, contando com a cumplicidade das mais
tarde famosas agências de rating. No fim,
houve países inteiros, como a Islândia ou a Irlanda que, por intermédio dos
seus próprios bancos, acabaram por adquirir quantidades colossais desses
títulos vendidos como filet mignon,
mas que não passavam de chicha cinzenta e com bicho.
O estouro das hipotecas
subprime, com a correção fortemente em baixa das reservas do sistema bancário,
atirou por terra toda a confiança que existia a nível internacional nos cofres
dos ourives/banqueiros dos nossos dias e criou uma crise de liquidez de proporções
históricas. A dada altura, quem tinha em mãos títulos de dívida de proveniência
mal-afamada tudo o que queria era arranjar quem com eles ficasse, desde que
pudesse salvar uma fração do que tinha emprestado. Foi assim que nós, os
portugueses, nos transformamos no Amílcar da nossa história e, não só ficamos
sem gente para nos emprestar, como aqueles que nos tinham emprestado entregavam
por tuta e meia a nossa dívida aos Zeferinos de serviço, fazendo subir os
nossos juros nos chamados mercados secundários.
20.8.16
Histórias de dinheiro
História nº 1 (décima parte)
Como é evidente, a possibilidade de o
nosso ourives/banqueiro manter apenas 10% de reservas relativamente ao valor
que tinha depositado no cofre, colocando os restantes 90% a circular em
empréstimos, embora estivesse alicerçado num registo histórico alargado que
garantia alguma segurança, não era isento de riscos. Claro que se por algum
motivo se gerasse medo nos depositantes, podia ocorrer uma corrida ao cofre e o
ourives pura e simplesmente não teria ouro disponível para satisfazer todos os
legítimos pedidos de quem nele confiou. Nessa altura, na impossibilidade de
reaver imediatamente o ouro que emprestou, seria certa a liquidação do banco e
a venda total do seu património que, mesmo assim, não chegaria para reembolsar
todos os arrendatários do cofre. O mais provável, portanto, seria que o nosso ourives, a
menos que se pusesse ao fresco, aparecesse morto numa valeta de estrada!
Com o tempo, a própria dinâmica da
sociedade levou a que o ouro, a prata ou as pedras preciosas deixassem de ser
as únicas reservas de valor, o que tornou possível acrescentar ao cofre valores
das mais variadas proveniências, incluindo, como vimos, reservas de própria
dívida. Isso deu aos banqueiros a possibilidade de criar dinheiro (recibos) a
partir dos empréstimos que faziam. Visto com os olhos do nosso
ourives/banqueiro, o que acontecia é que, de cada vez que um depositante se
apresentasse para levantar ouro que tinha depositado no cofre, tudo o que havia
a fazer era vender hipotecas que aí estavam e transforma-las em ouro para
entregar ao cliente, uma vez que as hipotecas eram mercadoria que podia ser
transformada em outro valor qualquer!
Claro que, para que as hipotecas fossem
realmente uma reserva de valor, era necessário que estivessem bem avaliadas. Evidentemente,
se o banco dizia que tinha uma hipoteca que valia 1000, mas só a conseguia
vender por 100, então ia ter um problema em satisfazer pedidos de levantamento
dos clientes. Para impedir a sobrevalorização das hipotecas e a correspondente
constituição de reservas fictícias foi sendo desenvolvida legislação
regulatória e foram criadas entidades supervisoras cuja missão era zelar para
que não houvesse risco de desvalorização súbita das reservas do sistema bancário.
E durante muito tempo, o sistema permaneceu sólido e robusto porque havia um
equilíbrio conservador entre reservas e empréstimos.
Nos finais do século XX, toda essa
estrutura de regulação começou a ser desmantelada nos EUA, no mandato do presidente
Clinton, porque tornou-se norma uma ideia liberal de que o mercado se
encarregaria de castigar com a falência quem constituísse reservas
insuficientes ou avaliasse por cima as reservas que possuía e isso seria
suficiente para manter o sistema saudável. O processo de desregulação continuou
durante o consolado de Bush filho, numa época que coincidiu com o boom do mercado imobiliário e, por volta
de 2007, já nenhum banqueiro se preocupava verdadeiramente com a fiabilidade da
avaliação das hipotecas que tinha no cofre. Nessa altura, a maioria das
hipotecas provinha, pois, de crédito a avaliação, para casas que valiam x, eram
vendidas por 3x e avaliadas por 5x, aumentando de forma automática as reservas do
banco em 5x tendo por colateral real x (permitindo ao banco fazer novos empréstimos numa espiral verdadeiramente louca e imparável).
Cedo se perceberia que as reservas
estavam inacreditavelmente sobreavaliadas. E o pior foi que todos entraram em
pânico quando compreenderam que não estavam ao abrigo das péssimas reservas dos
todos os outros. No fundo foi como se o ourives tivesse descoberto que tinha armazenado
ouro no cofre que subitamente ganhara ferrugem, ao mesmo tempo que se apercebeu
de que o ouro que ele próprio tinha depositado em cofres de concorrentes também
podia ter sido confundido com ferro!
19.8.16
Histórias de dinheiro
História nº
1 (nona parte)
Apesar de os empréstimos que nós fazemos poderem
ser considerados bens com valor intrínseco, ninguém no seu perfeito juízo vai fazer empréstimos só para ter
mercadoria dentro de loja e poder realizar capital com vendas. É que os
empréstimos implicam que nós abdiquemos de uma parte da nossa riqueza e, apesar
de as dívidas trazerem o bónus dos juros que acordamos, a não ser que
incorramos no pecado da usura, é altamente improvável que uma dívida valorize
ao ponto de a atividade de prestamista ser interessante. No fundo, um
empréstimo é a troca direta de tempo por juros: abdicamos de um bem no
imediato, em troca de um suplemento para o mesmo bem ao fim de algum tempo. No
final, acaba por ser uma espécie de jogo de soma nula.
Mas agora vejam a atividade de prestamista do
ponto de vista da Banca. Quando um banco empresta dinheiro tudo o que faz é
colocar um número, que representa o tal recibo do antigo banqueiro/ourives, na
conta bancária do cliente. Com esse número, o cliente pode fazer os pagamentos
que entender, mas nunca haverá verdadeiro valor a sair do sistema bancário
porque, em princípio, nunca sucederá que todos os possuidores de “recibos”
emitidos pelo banco (números em contas bancárias, notas ou cheques) acudam a
reclamar pelo valor que eles representam. Em troca da escrita do número na
conta bancária do cliente, o banco recebe uma hipoteca que assegura o retorno
do recibo ao banco sob a forma de efetivo valor (porque sairá do trabalho e do
engenho do cliente), acrescentado do juro acertado, com a garantia de que, caso
ocorra incumprimento, passará para a posse do banco um bem de valor fidedigno
que substitui a palavra do cliente.
Portanto, ao contrário do que se passa com cada
um de nós, o banco não tem que abdicar de nada para poder emprestar. E é aqui que
está o toque de Midas da banca. Os empréstimos são verdadeira mercadoria que
acrescentam valor real ao que existe no cofre (uma vez que são feitos sem que
exista saída de valor do cofre, ao contrário do que sucede com cada um de nós).
Na banca, os empréstimos não são de soma nula.
Vamos supor um banco (um banquinho) que tem
valores no cofre correspondentes a 1000€ de capital. Como, em princípio,
ninguém vem reclamar esses valores (porque os clientes passam a vida a trocar
entre si os recibos que o banco emitiu), o banco pode emprestar esses 1000€ e
cobrar juros sobre eles.
Mas não faz exatamente isso.
Em primeiro lugar, é necessário garantir alguma
margem de segurança (reservas), porque é sempre possível que alguns clientes
reclamem os valores depositados! Digamos que é sensato reter 10% do valor do
cofre. Dessa forma, o nosso banquinho pode dispor de 900€. Agora imaginem que
um cliente se apresenta para solicitar um empréstimo nesse valor. O banco
inscreve na conta bancária do cliente os 900€ e recebe em troca uma hipoteca
que, em princípio, terá o mesmo valor, e que é colocada no cofre, passando a
dispor de valores de 1900€. Agora, já pode fazer um novo empréstimo, nos mesmos
moldes, de 810€, que levará o valor no cofre para 2710€ e lhe permitirá fazer
outro empréstimo de 729€ e assim sucessivamente. No final, o valor inicial de
1000€ vai permitir ao banco fazer empréstimos de 10000€ mantendo as reservas de
10%, sendo o valor criado pelas hipotecas que, por sua vez, são cobertas pelo
trabalho do cliente ou pelo bem dado como garantia. O próprio Senhor não faria
milagre maior!
Portanto, quantos mais empréstimos o banco
fizer, mais valoriza o cofre, se estiver cotado em Bolsa mais as suas ações
valorizam e mais dinheiro ganha e dá a ganhar! E ainda é
possível fazer alguns truques como, por exemplo, sobreavaliar as hipotecas: se
o empréstimo de 900€ for avaliado como 1000€, o banco poderá dispor logo de
mais dinheiro para emprestar. No meio disto tudo, é evidente que a taxa de juro
cobrada no empréstimo pode ser bastante inferior ao que seria normal. Se vocês
têm 1000€ e só podem emprestar esses 1000€ a taxa de juro é primordial: entre 5
e 10% há uma diferença relevante (50 ou 100€ por ano). Mas, se com esses 1000€
podem emprestar 10000€, passam a obter o mesmo rendimento com taxas de 0,5 ou
1%. E depois a concorrência encarregar-se-á de baixar ainda mais as taxas
cobradas.
Agora já sabem por que motivo a casa de tanta
gente foi avaliada como se tivesse sanitas de ouro e o vosso spread, se for suficientemente antigo, é
tão baixo. E como é que houve tanta fartura e facilidade e mesmo assim os bancos
tiveram lucros fabulosos.
18.8.16
Histórias de dinheiro
História nº 1 (oitava parte)
Claro que no século XX, já ninguém vê nas notas
que leva na carteira recibos que o banco está obrigado a converter em ouro. De
facto, tanto o dinheiro como o metal precioso tornaram-se mercadorias cujo
valor relativo é assegurado pela velhíssima lei da oferta e da procura, como
sucede, aliás, com tudo quanto existe. E isso sucede até com as dívidas, que acabaram por ser transformadas em
mercadoria, já que têm também um valor relativo, podendo ser transacionadas no
mercado através de títulos (titularização das dívidas). Trata-se de uma ideia não tem nada de especial e aplica-se frequentemente no nosso dia-a-dia.
Imaginem que o vosso amigo Amílcar (bem sabemos
que não têm um amigo chamado Amílcar, mas vamos fazer de conta que têm) vos
pede emprestado 1000 €, por um prazo de 5 anos, comprometendo-se a pagar 10% de
juros ao ano: no final de cada ano recebem 100€ do Amílcar, e ao completar o
quinto ano irão receber 1100€.
Acontece que, logo depois de receberem a segunda
prestação de juros, vem a notícia de que o Amílcar tem as contas lá de casa no
vermelho e já nem paga luz, nem água e corre o risco de ser despejado. Vocês
ficam aflitos, a ver a vossa vida andar para trás, com medo de que o Amílcar,
não só deixe de pagar os juros, como renegue o empréstimo.
É nesta altura que entra em cena o Zeferino,
que é um indivíduo que não se importa de arriscar, desde que esteja em causa
uma pechincha. O Zeferino propõe-se comprar-vos a dívida do Amílcar, caso vocês
estejam dispostos a fazer um desconto. No fim, lá chegam a acordo e o Zeferino
entrega-vos 500€, assumindo a titularidade da dívida.
É evidente que para vós, o negócio foi uma
caca. Receberam 200€ de juros mais os 500€ que o Zeferino pagou pela dívida: 700€,
ao fim de 2 anos, em troca de terem dado 1000€. Perderam dinheiro mas, pelo
menos, o negócio de venda da dívida livrou-vos de perdas maiores. A dívida foi
uma mercadoria que puderam transacionar.
Para o Zeferino, se as coisas correrem bem,
pode ser um negócio muito interessante. Paga 500€ à cabeça, mas pode receber 1300€ (300€
de juros mais 1000€ da liquidação). Incrivelmente, uma taxa de juro inicial de
10% transformou-se numa taxa anual de 53%. A desvalorização da dívida do
Amílcar, por ele estar a passar por dificuldades, traduziu-se num aumento da
taxa de juro dos seus títulos. Da próxima vez que o Amílcar tiver que pedir
emprestado, já é bem capaz de não chegar 10% do empréstimo para o serviço de dívida.
Mas é possível que a coisa ainda sofra um outro
volte-face. Imaginem que, ao fim de mais um ano, o Amílcar ganha o euromilhões
e resolve liquidar todas as dívidas de uma só vez. O Zeferino receberá 1100€
para liquidar uma dívida de 500€. A taxa de juro passou para 120% ao ano.
Grande negócio!
Na verdade, pois, a dívida
sempre foi uma mercadoria transacionável e sujeita às regras da convivência em
sociedade. O que acabou por tornar o processo insólito foi a possibilidade de a dívida, por si só, permitir fazer dinheiro. Mas disso falaremos no próximo episódio.
17.8.16
Histórias de dinheiro
História nº
1 (sétima parte)
Vamos voltar ao ponto em que deixamos o nosso
recém-banqueiro que lutava para tornar o negócio mais rentável e teve a
epifania de rentabilizar a própria dívida.
Quando o banco nos empresta dinheiro, digamos
para comprar uma casa, coloca-nos na mão um recibo (notas de banco, cheque ou
simplesmente um número na conta bancária) com o qual nós, em princípio,
poderíamos levantar ouro do cofre do banco, para entregar ao vendedor como
pagamento da casa. Em troca, entregamos ao banco uma hipoteca em que nos
comprometemos a liquidar o capital mais os juros acordados, num prazo definido,
sob pena de sermos executados e entregarmos um bem de uma só vez.
Só que, em vez de procedermos ao levantamento
do ouro do cofre, pegamos no recibo e passamo-lo para as mãos do vendedor que,
muito provavelmente, o voltará a depositar no banco, aumentando o quinhão de
ouro a que teria direito, mas deixando o metal intacto nos cofres do banco. Claro
que o vendedor pode depositar o recibo noutro banco, obrigando o nosso ourives
a transferir ouro para a concorrência. Antigamente, este problema resolvia-se
de espada em punho; hoje em dia, optamos por uma solução menos sangrenta: um
banco central!
Mas a genialidade do nosso banqueiro veio ao de
cima quando ele compreendeu que a hipoteca que nos lhe tínhamos entregado tinha
um valor intrínseco. Embora não fosse metal precioso, quem não gostaria de
possuir hipotecas de outros a nosso favor. Afinal de contas, uma hipoteca
garante o pagamento de uma renda, ao mesmo tempo que assegura que, em caso de
incumprimento, temos direito a uma indeminização. Portanto, é, em si mesmo, um
valor. Os empréstimos que os bancos fazem são património que detêm, ao passo
que os depósitos dos clientes são dívidas. No fundo, as hipotecas acrescentam
valor ao ouro que o banqueiro tem no cofre (porque para as adquirir, o
banqueiro não prescindiu de ouro, mas emitiu notas - dinheiro). E é aqui que a
coisa começa a carburar: ao acrescentar hipotecas ao cofre, sem retirar ouro, o
banqueiro aumenta as suas reservas e pode, dessa forma, fazer novas hipotecas.
Quantas mais hipotecas fizer, mais juros
recebe, mais reservas possui e mais hipotecas pode fazer. Elementar e genial!
No final, se quiser manter a regra de possuir
reservas de 10% do valor que põe a circular, pode operar a magia de multiplicar
por 10 as reservas de capital efetivo.
16.8.16
Histórias de dinheiro
História nº
1 (sexta parte)
O negócio que permitiu ao ourives mudar de vida
começou, se bem se recordam, com a construção de um cofre-forte que caiu no
goto dos vizinhos que começaram a arrendar espaço para guardar os seus valores.
O ourives começou, portanto, por se tornar senhorio.
A atividade de prestamista, o primeiro passo
para se converter num banqueiro, só se pôde iniciar quando o ourives deu conta
de que uma parte do ouro permanecia muito tempo no cofre sem ser levantado
pelos seus donos, e podia ser emprestado a quem dele necessitasse, dando-lhe o
direito a receber juros (com ouro que, no fundo, não possuía). Por isso, a
primeira tarefa do banqueiro foi calcular a probabilidade de uma determinada
quantidade de ouro ser reclamada pelos legítimos donos enquanto decorresse o
prazo de empréstimo a terceiros. Se essa probabilidade fosse, digamos, 50%,
isso significava que o banqueiro só poderia dispor de metade das reservas que
se encontram guardadas no cofre para emprestar e arrecadar os juros, sem correr
o risco de ter de dizer a algum depositante que não possuía o ouro que lhe foi
confiado (o que, evidentemente, seria a desgraça do banco).
Com a introdução do papel-moeda, a quantidade
de ouro que permanecia intocada no banco subiu em flecha, o que deu azo a que o
nosso banqueiro dispusesse de uma percentagem maior para emprestar, aumentando
os proveitos da sua atividade. No limite chegou-se ao ponto em que as reservas
do banco deveriam corresponder a apenas 10% do valor emprestado (atualmente,
são estes rácios de capital que têm vindo, sistematicamente a ter que ser
reforçados).
Para o banqueiro, os problemas começaram quando
as vantagens do negócio atraíram competidores, e obrigaram o banco a distribuir
pelos depositantes parte dos juros que recebia dos devedores, diminuindo o
resultado líquido. No final, o negócio puro da banca acabaria por até nem ser
muito atrativo, porque se tratava de receber juros sobre 90% do capital detido,
contra o pagamento aos depositantes sobre 100% do montante depositado. E mesmo
que houvesse um diferencial significativo entre as taxas cobradas e a taxas
oferecidas, o lucro final nunca seria famoso porque havia todo o conjunto de
despesas de funcionamento e o risco mais ou menos elevado da atividade de
prestamista. Isto, para além do facto já apontado de a riqueza a depositar ser
por natureza finita. Mesmo assim, é evidente que ninguém no seu perfeito juízo
enjeitaria a possibilidade de deter tamanho poder quanto o que estaria ao
dispor dos que dominavam grandes quantidades de capital. Nas mãos certas, a
atividade bancária tinha um potencial que estava muito para além da tarefa de
canalizar o dinheiro de quem o tinha para aqueles que dele precisavam.
E foi neste ponto que o nosso banqueiro
ex-ourives teve a tal ideia epifanense que viria a tornar o negócio dos
banqueiros verdadeiramente fabuloso: criar dinheiro a partir da dívida.
15.8.16
Histórias de dinheiro
História nº 1 (quinta parte)
Se a maior parte do ouro
permanecia no cofre imenso tempo sem ser levantada, com a invenção das notas de
banco, o banqueiro ex-ourives conseguiu fazer com que os levantamentos fossem
ainda mais raros e o ouro ficasse esquecido praticamente ad eternum.
É que, não só os
depositantes não necessitavam de andar com metal pesado nas carteiras, pois
podiam limitar-se a trocar pedaços de papel, como também a atividade de
prestamista podia ser levada a cabo com notas do seu banco.
Claro que, para que isso
fosse possível, era necessário que as pessoas tivessem a certeza de que, sempre
que assim o entendessem, podiam pegar nas notas que possuíam e apresentar-se no
banco para receber o ouro correspondente em troca e que esse ouro seria
entregue sem a mínima hesitação. A isso chamava-se confiança, um ingrediente
sem o qual a actividade bancária estaria arruinada, como o nosso banqueiro não
tardaria a perceber.
O ser humano é, como
sabemos, um animal estranho. Inicialmente, tem medo e mantém-se na defensiva,
mas se o sucesso despontar, vem a confiança que, cedo, se transforma em
ganância.
O banqueiro da nossa
história, que é afinal uma imagem de todos os banqueiros da História, vivia
angustiado com um problema. A quantidade total de ouro na posse dos seus
clientes era, obviamente, bastante limitada. Afinal de contas, o ouro é um
metal precioso, entre outros motivos, porque é bastante raro. De maneira que
chegaria o momento em que, inevitavelmente, o seu negócio estagnaria, porque
não haveria mais ouro para captar e, dessa forma, os empréstimos teriam que
cessar. Tanto matutou sobre o assunto, tanto refletiu, que, a dada altura a
solução apareceu-lhe na forma de epifania. E se…
14.8.16
Histórias de dinheiro
História nº
1 (quinta parte)
Se a maior parte do ouro permanecia no cofre
imenso tempo sem ser levantada, com a invenção das notas de banco, o banqueiro
ex-ourives conseguiu fazer com que os levantamentos fossem ainda mais raros e o
ouro ficasse esquecido praticamente ad eternum. É que, não só os depositantes não necessitavam
de andar com metal pesado nas carteiras, pois podiam limitar-se a trocar
pedaços de papel, como também a atividade de prestamista podia ser levada a
cabo com notas do seu banco.
Claro que, para que isso fosse possível, era
necessário que as pessoas tivessem a certeza de que, sempre que assim o
entendessem, podiam pegar nas notas que possuíam e apresentar-se no banco para
receber o ouro correspondente em troca, e que esse ouro seria entregue sem a mínima
hesitação. A isso chamava-se confiança, um ingrediente sem o qual a atividade
bancária estaria arruinada, como o nosso banqueiro não tardaria a perceber.
O ser-humano é, como sabemos, um animal
estranho. Inicialmente, tem medo e mantém-se na defensiva, mas se o sucesso
despontar, vem a confiança que, cedo, se transforma em ganância.
O banqueiro da nossa história, que é afinal uma
imagem de todos os banqueiros da História, vivia angustiado com um problema. A
quantidade total de ouro na posse dos seus clientes era, obviamente, bastante
limitada. Afinal de contas, o ouro é um metal precioso, entre outros motivos,
porque é bastante raro. De maneira que chegaria o momento em que,
inevitavelmente, o seu negócio estagnaria, porque não haveria mais ouro para
captar e, dessa forma, os empréstimos teriam que cessar. Tanto matutou sobre o
assunto, tanto refletiu, que, a dada altura, a solução apareceu-lhe na forma de
epifania. E se…
13.8.16
Histórias de dinheiro
História nº
1 (quarta parte)
O nosso ourives tinha deixado de existir e com
ele o simples cofre-forte que tinha construído para guardar os materiais do seu
ofício. Em seu lugar, surgiu um florescente banqueiro, cujo negócio corria de-vento-em-popa,
e que contava com toda uma infraestrutura de transações financeiras a que, mais
tarde, se viria a chamar Banca. Desde que houvesse estabilidade económica e a
paz fosse mantida, o trabalho de prestamista do nosso amigo crescia ao ritmo a
que aumentavam os depósitos que era capaz de captar. É que, quanto mais ouro
emprestasse, mais investimentos eram feitos, maiores eram as transações de bens
e matérias-primas, e maiores necessidades de financiamento existiam da parte
empreendedora da sociedade.
A juntar a tudo isto, desde que a rede de
balcões fosse suficientemente grande, até se podia dar o caso de o banqueiro
emprestar ouro que, em última instância acabaria por nem sair do banco. É que
quem pedia emprestado, acabava sempre por comprar alguma coisa e, desde que o
vendedor fosse cliente do banco, o ouro envolvido na compra voltava para o
cofre. E se o banco tivesse estabelecida uma rede internacional, além do lucro
obtido com os juros cobrados, ainda era possível recolher proveitos com a
manipulação das taxas de câmbio.
Por esta altura, o banqueiro ex-ourives
apercebeu-se de que muitos dos seus depositantes procediam a pagamentos mais
avultados entregando o recibo que o banco lhes dera, em vez de virem ao cofre
levantar o ouro que tinham depositado. Isso deu-lhe a ideia de produzir recibos
estandardizados, com valores bem definidos que permitissem aos depositantes
proceder a pagamentos de qualquer montante, sem terem a necessidade de
levantarem o ouro que estava depositado. Desde que houvesse confiança no
mercado de que o valor marcado no recibo correspondia efetivamente a ouro
depositado no cofre, os recibos eram transacionados como se de ouro se
tratasse, deixando intacta a riqueza para que o banco procedesse a empréstimos.
Mais tarde, os recibos do banqueiro viriam a receber o nome de notas de banco e
estariam a caminho tempos em que as notas de banco nada mais teriam do que um valor
fiduciário.
No tempo do ourives as pessoas só confiavam no
ouro e davam por adquirido que os recibos em circulação correspondiam a metal
físico, mas na banca moderna, o valor fiduciário de uma nota de banco chega ao
ponto de ser assegurado pelo próprio Deus em pessoa (que religiosos nos tornamos!)
que, evidentemente, tem o poder de engendrar in actum toda a riqueza que lhe corresponde.
12.8.16
Histórias de dinheiro
História nº 1 (terceira parte)
À medida que o tempo passava, o ourives foi-se apercebendo de que, desde
que fizesse um estudo prévio dos clientes que lhe vinham pedir empréstimos e
afinasse a taxa de juro com o risco de cada transação, podia reduzir a
sinistralidade ao ponto de garantir um negócio bastante seguro e muito
lucrativo.
Claro que, quanto mais emprestasse, maiores seriam os lucros, mas para
emprestar com segurança, necessitava de captar a maior quantidade de depósitos
possível. Por esse motivo, o ourives, que nesta altura do campeonato já se
havia transformado naquilo a que mais tarde se viria a chamar um banqueiro,
acabou com a cobrança de renda pelo espaço que os aforradores usavam no seu
cofre, o que, evidentemente, convenceu mais gente a entregar-lhe as respetivas economias.
Mais tarde, quando todos perceberem que o negócio é bom, e o ourives está a
enriquecer, outros construírem cofres e a concorrência apertar, o nosso homem
ver-se-á obrigado a partilhar parte dos lucros que obtiver com quem o escolher
e passará igualmente a pagar juros. Mas por ora, tal ainda não é necessário.
Entretanto, com a riqueza que for acumulando, o ourives/banqueiro pode,
não só construir outros cofres e expandir o negócio para outras cidades, mas
também diversificar os produtos que comercializa, investindo em outros tipos de
matérias-primas, financiando e tornando-se acionista de empreendimentos, ou
criando redes de distribuição e transporte de dinheiro que lhe permitissem
lucrar com taxas de câmbio. Quando chegar ao ponto de financiar o próprio rei
e, por inerência, o estado, estará em condições de influenciar a situação
política e terá caminho aberto para se tornar num magnata.
11.8.16
Histórias de dinheiro
História nº 1 (segunda parte)
Com o tempo, a fama de solidez e fiabilidade do cofre do ourives e a sua
honestidade pessoal foram crescendo e mais e mais gente foi ganhando confiança
para se decidir a confiar-lhe a guarda dos seus bens mais preciosos.
O nosso ourives, por outro lado, foi-se apercebendo de que havia sempre
gente que vinha depositar ouro ou prata, ao mesmo tempo que outros vinham fazer
levantamentos, mas, a maior parte das pessoas deixava o ouro e a prata no cofre
por muito tempo, pois o que iam ganhando no trabalho do dia-a-dia chegava para
fazer face às despesas correntes. De maneira que havia uma grande porção de
ouro e prata que ficava pura e simplesmente guardada no cofre sem uso nem
serventia.
Claro que o ourives não podia usar esse ouro para produzir produtos para
vender, como fazia com o seu próprio fornecimento, e com o lucro comprar mais
ouro, repondo o stock inicial, mas havia uma forma alternativa de rentabilizar
toda aquela riqueza e que, ainda por cima, implicava muito menos esforço do que
o necessário para produzir peças de ourivesaria: o ourives podia emprestar
aquela parte dos metais precisos que ficava sempre imobilizada a quem necessitava
de capital para avançar com compras ou proceder a investimentos, por um prazo
pré-estabelecido, contra o pagamento de um juro previamente acordado. Desde que
o ouro fosse devolvido no prazo acordado, ninguém daria pela falta dele e todos
ficariam a ganhar!
10.8.16
Histórias de dinheiro
Em tempo de férias, repomos uma das nossas histórias didáticas, publicada pela primeira vez faz agora 2 anos.
História nº 1 (primeira parte)
Era uma vez um ourives que vivia numa cidade distante, há muito, muito
tempo atrás. Nesse tempo, o mister do ourives era converter o ouro e a prata em
adornos que lhe acrescentassem valor, de modo a que pudessem ser trocados, com
lucro, por mais metais e pedras preciosas. Mas como lidava com produtos que
toda a gente desejava ter, o ourives vivia numa permanente aflição, com medo de
salteadores que lhe descobrissem o buraco onde escondia os bens que produzia e
as matérias-primas que ia comprando. Foi por isso que, a dada altura, se decidiu
a canalizar parte dos lucros que obtivera para a construção de um cofre sólido
o suficiente para desanimar os ladrões.
Quando, finalmente, deu por finalizada a empreitada, o nosso ourives não
se coibiu de fazer saber a todos os habitantes da cidade e arredores o quão
inviolável era o cofre que tinha construído, de modo a que, chegando a notícia
aos bandidos, estes desanimassem de o tentar assaltar.
Mas a publicidade teve um outro efeito que o ourives não antecipou: os bons
cidadãos que tinham algumas economias guardadas em casa debaixo do colchão,
também tinham medo de ser assaltados e perceberam que era ótimo se pudessem
arrendar um espaço no cofre do ourives para lá as colocar em segurança. Foi
assim que o ourives passou a receber as economias dos seus vizinhos, a quem
passava um recibo sobre o peso do ouro e da prata que guardava e de quem
recebia uma pequena renda pelo aluguer do espaço. Quando alguém precisava dos
bens que o ourives guardava, para fechar um negócio, só tinha que se dirigir ao
cofre e recebia a mercadoria contra a apresentação do recibo.
16.1.15
A minha história do dia de ontem
Grande semana nas bolsas europeias com um tímido máximo histórico no Dax, justamente ao cair do pano.
Mas para quem a semana correu mesmo bem foi para a esmagadora maioria dos suiços, que vão ficar varados com a descida de preços, nos países à volta, quando agora forem às compras com os seus francos atestados de viagra. Já agora os nossos compatriotas portugueses que estão na Suiça e são pagos em francos também devem andar todos contentes, a não ser que tenham tido a fraca ideia de terem trocado os francos por ações da bolsa de Zurique. Enfim, o jogo do costume, ainda que a jogada do banco central helvético tenha sido tão inesperada que provocou sorrisos rasgados e tristezas de falidos a uma taxa que é pouco habitual.
E agora conto-vos a minha história de ontem, porque vem a propósito, é engraçada e tem um caráter didático.
De manhã, estava todo filado na ida do Dax a máximos históricos e acabei por cometer a excentricidade de reforçar a posição longa no índice, ficando com uma exposição que, se fosse à noite, já não me deixaria dormir como eu gosto, quentinho, sossegadinho e de um sono só. Nessas condições, só um louco deixaria a roda rodar sem um stop loss e eu meti-o lá, a um valor que me parecia suficientemente confortável num dia que tinha tudo para ser de subida limpa - ficou pouco abaixo dos 9850. Digo-vos já que não costumo usar stops automáticos, porque dói-me de mais ser stopado sem ter uma palavra a dizer, mas quando os afazeres profissionais nos impedem de acompanhar a jogatana e o risco está ao nível do tudo ou nada, ficarmos ressabiados por sermos stopados de forma indecente deve ser encarado como enfeite no risco total.
E lá fui ganhar o pão para pôr na mesa.
Já no final da manhã há um amigo que me diz que o BCP já está a levar no lombo 4% por causa de uma tramóia qualquer que os suiços armaram. Má onda, pensei! Talvez o BCP não seja o Dax e o stop ainda não tenha entrado. Mas não! Vou ao smartphone e vejo que o caldo entornou feio e o índice alemão está nos 9820. Carai! Mais valia pegarmos numa marreta e irmos partir pedra, que nos cansávamos menos. Ainda por cima, o animal torrou-me o stop por pouco, num típico caso de asnus/casus.
Sem tempo para ver o que tinha aprontado aquela gente rica e cheia de coisas boas (mas sem mar), que tem uma bandeira que faz lembrar uma equipa de socorristas, lá me compus como pude e voltei aos meus afazeres profissionais.
Mais um intervalo e retomo o Dax para ver se o stop tinha valido a pena. Nada! Dax acima dos 9900, outra vez a caminho de máximo histórico. Malapata! Que fazer?
Olhem, fui a jogo outra vez, um homem tem este vício no corpo e, ainda que saiba que a perda provoca dor, deixa-se inebriar pelo doce sabor de ganhar dinheiro sem trabalhar. E fui sem stops, atirei-me para a frente do bicho, numa de, ou isto faz o que eu acho que deve ser feito, ou escangalho-me todo. Mesmo à tuga: ou é para ganhar ou é para aleijar (lembro-me de ter lido na História trágico-marítima que os navegadores portugueses da carreira da Índia traziam o barco tão cheio de especiarias que só por milagre não naufragava: se chegassem cá ficavam ricos; se não... Era tudo ou nada!). E lá fui dar mais uma aula cheio da genica que só o medo nos consegue injetar.
Só vi em que deu a minha aventura ao final da tarde quando cheguei a casa. Surtiu efeito e cá vou eu embalado em ganhos engraçados com o Dax no coração!
Mas a história não acaba aqui. É que o Dax ontem não caiu pouco abaixo dos 9850, onde eu tinha o stop. De facto, caiu, numa questão de minutos, até aos 9580 pontos, uma perda de cerca de 250 pontos em relação ao preço médio da minha posição. Só ao fim do dia soube disso e foi quando verifiquei que, se não tivesse colocado o stop, tinha visto a minha posição fechada automaticamente quando o rapaz estava nos 9600. E então, sem fundos na corretora, já não teria tido possibilidade de recuperar, a não ser que reforçasse o capital! Daaaax!
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