Um livro extraordinário de um meu ex-professor de Química na Universidade do Minho. Poções e Paixões alia História, Música e Química de uma forma surpreendente e usando de uma erudição que está ao alcance de poucos. Cheguei a assistir à palestra que deu origem ao livro e fiquei entusiasmada, mas agora o professor João Paulo refinou a abordagem e julgo que até chegarei ao ponto de dar uma oportunidade à Ópera. Não tivemos, nos últimos tempos, leitura melhor, no que toca ao género divulgação científica.
Os russos já nos habituaram a bom cinema, ainda que, infelizmente, sejam muito desconsiderados neste nosso cantinho à beira mar plantado onde para apreciar a sua arte ou temos um cineclube à mão ou estamos condenados a ter que infringir a lei. Felizmente, o clube cá da paróquia passou este Loveless - sem amor outro dia e, ainda que esteja fora de questão atingir o estatuto de obra prima, o trabalho de Andrey Zvyagnintsev é suficientemente contido e ao mesmo tempo tão inquietante que não deixa de valer bem a pena. Trata-se de uma história talvez pouco original, de um divórcio e de um filho que atrapalha os planos dos pais, e que nos coloca perante uma tragédia da existência humana que nada tem de novo, mas que aqui é abordada do ponto de vista deste nosso século XXI com as suas contradições tão vincadas e intrigantes. E, claro, conta muito ao caso que a perspetiva também seja a dos para nós mais enigmáticos russos do que a dos habituais americanos. Vejam que vale a pena:
E, para terminar, duas musiquinhas que temos andado a ouvir:
O artista que passou da representação do real para a necessidade de interpelar é o alvo principal de "O quadrado", talvez o melhor filme que vi da colheita do ano passado.
Com realização e argumento de Marcel Barrena, 100 metros é a uma história comovente
que trata a doença como todas as dificuldades deveriam ser tratadas na vida, ou
seja, sem pena e sem autocomiseração, e, sempre que possível, com humor. Um
filme que recomendo vivamente.
Não sendo uma fã de musicais, reconheço que há algum encanto
no filme La La Land, de Damien
Chazelle, também realizador de Whiplash.
Para quem gosta de jazz, é o filme a ver. Para quem não gosta tanto, terá que acreditar
que os cinco prémios BAFTA e as 14 nomeações para os Óscares, tornando-o no filme
favorito, podem significar algo (desde que se dê crédito a tudo isto, claro).
O filme narra a história de amor em Los Angeles entre dois
jovens, Mia e Sebastian, com um final feliz que, contra todas as expetativas,
não é Casaram e viveram felizes para
sempre, mas antes Não casaram e viveram
felizes para sempre. Também serve.
O melhor de todos os nomeados a levar a peça para melhor filme estrangeiro e um dos melhores que vimos nos últimos tempos é Toni Erdmann da realizadora alemã Maren Ade, que tem no currículo o facto de ter produzido o excelente Tabu do nosso Miguel Gomes. Trata-se do filme que muito provavelmente levaria a Palma de Ouro em Cannes se não estivesse a concurso o Daniel Blake e entre um e outro mon coeur balance.
Já aqui dissemos algures que, para nós, os Óscares enquanto referencial de qualidade cinematográfica acabaram em 1994 quando vimos o tolo do Forrest Gump levar a melhor sobre Pulp Fiction. Foi simplesmente demasiado para o que o nosso estômago sensível podia aguentar e desde então, salvo em raríssimas exceções, passamos a enquadrar a cerimónia da carpete vermelha na tabela dos eventos giros!
Mas houve uma categoria de prémios que conservou intacto um módico de credibilidade que se mantém até hoje e que nos faz ficar atentos quando os nomeados são anunciados. Falamos do prémio para melhor filme estrangeiro, cujo palmarés tem sido normalmente garante de tão bom cinema como o é a seleção de Cannes, de Berlim ou de Veneza.
Este ano, dos filmes nomeados, já conseguimos ver três, todos europeus, e nenhum deles desiludiu.
Na mesma semana em que experimentamos o que é viver com um Donald Trump na Casa Branca, estreou nos cinemas Silêncio, o novo filme de Martin Scorcese. Muitos devem estar já desiludidos com as teorias que profetizavam um amenizar das ideais de trampa quando o homem fosse confrontado com a realidade. E se é verdade que muita da encenação da semana, com assinaturas de decretos presidenciais do cumpridor de promessas em direto na TV, não passaram de puro espetáculo (felizmente a democracia americana tem um sem-número de mecanismos de defesa para evitar cair nas mãos de tresloucados), silêncio foi tudo o que não houve com a passagem à prática das ideias do empreiteiro de Queens.
Eu, Daniel Blake foi vencedor da Palma de Ouro em Cannes, facto que costuma garantir que não daremos por mal empregue o dinheiro investido no bilhete nem o tempo que gastamos a ver o filme.
No prémio de 2016 não temos exceção à regra com esta obra de Ken Loach que nos dá conta do caso de Daniel Blake, um carpinteiro de Newcastle que, devido a um grave ataque cardíaco, se vê numa situação em que não pode trabalhar por estar em convalescência, mas também não consegue assegurar o subsídio de invalidez, a que teria direito, devido à burocracia da máquina gestora do sistema.
Tom Ford talvez seja mais conhecido pela sua ligação ao mundo da moda, mas quando se estreou na realização de Um homem singular, filme marcante não só pela densidade do assunto tratado, mas acima de tudo por um muito marcado sentido estético, deixou desde logo tão boa impressão que ficamos ansiosos por uma segunda dose.
Tivemos que esperar 7 anos, mas a espera valeu a pena porque Animais noturnos entra diretamente para o pódio do que vimos este ano. Ford encarregou-se pessoalmente de quase tudo o que importa no filme, desde o argumento (adaptado de uma novela do já falecido Austin Wright) até à realização (nunca tinha visto um genérico de abertura de um filme que fosse uma cartilha de apresentação tão certeira daquilo que o realizador preparou para nós), passando até pela escolha e decoração da mansão onde Susan, a protagonista, passa pelas maiores aflições rodeada do luxo mais estupendo que imaginar se possa. A escolha dos atores também foi certeira e quer Amy Adams (incrível como a moça consegue estar em dois dos momentos mais marcantes do ano cinematográfico), quer Jake Gyllenhaal ou Michael Shannon mantêm o filme sob tão grande tensão emocional que o resultado é um contraste agridoce entre uma obra esteticamente burilada e uma história terrível de arrependimento, tragédia e vingança. Há ali muito de obra de arte, mas é arte de pés bem assentes no chão, numa construção que vai evoluindo de forma firme e que jamais resvala para um consenso, deixando sempre a porta aberta a múltiplas interpretações.
Susan, a personagem de Adams, trocou o marido, professor de liceu com sonhos de se tornar escritor, por um galhardo jovem laroca, ganhador nato e... riquíssimo. Escusado será dizer que chega o dia em que se arrepende e a coisa fica pior ao receber via postal o manuscrito do primeiro romance do ex. A partir daqui a história evolui em três níveis, o passado, o presente e uma situação paralela que tem lugar nos perigosos lugares do Texas ocidental. Tudo cozinhado com o máximo cuidado e um amor pela arte que nos deixa de bem connosco próprios na hora de regressar a casa.
Para quem como eu tem formação em ciências é o mistério do desconhecido o que mais atrai; é o facto de não sabermos e de termos consciência de que não sabemos e que morreremos sem saber que é mais sedutor. E para aqueles que tomaram contacto com a ciência que vai tendo algum sucesso na procura racional de explicações para o universo, agrava-se sempre a frustração perante a possibilidade de conhecer o que não temos ilusões de que estará muito para lá das nossas capacidades cognitivas. E, no entanto, o que nos mantém verdadeiramente entusiasmados e alertas é essa ambição de compreender um pouco mais, a cada dia que passa, nem que seja através da sugestão e do sonho!
No filme O primeiro encontro há essa civilização extraterrestre que, de um dia para o outro, coloca naves a flutuar sobre 12 locais à superfície da Terra. Perante a novidade e a ameaça, nós os humanos agimos da forma habitual, primeiro com medo, depois com irracionalidade e finalmente com agressividade. Mas sempre desunidos e sem que as ferramentas de que dispomos nos sejam úteis: não é útil a luz que os nossos olhos captam porque os ecrãs não tardam a ser por nós desligados, porque a atmosfera permanece sempre envolta em névoa, e porque os nossos pesadelos estão sempre lá para nos distorcer a realidade; não é útil a audição nem os sons que produzimos, porque os problemas de comunicação parecem inconciliáveis (é irónico que acabe por ser mais fácil interagir com uma civilização que não evoluiu no nosso planeta, do que confiarmos naqueles que são da nossa espécie), nem nos vale de nada o nosso cérebro pretensamente tão inteligente se, quando o temos de usar, preferimos atuar por instinto.
O filme recusa em absoluto a fantochada brutal e psicadélica e, ao fazê-lo, abre portas ao sonho que acaba por nos colocar um poucochinho mais perto de compreender o universo. Poesia e arte como já não víamos há muito tempo numa sala de cinema! No final, creio, há uma mensagem de grande otimismo: a nossa inquietude perante o universo avassalador e inexplicável não é solucionável mesmo que possuamos tecnologia que nos permita viajar entre as estrelas (não é, portanto, um defeito nosso). Trata-se sim de uma característica que está imbutida no tecido do espaço-tempo como a força da gravidade ou o valor de pi! No fim, todos estaremos limitados nos nossos sentidos, como o heptápodes que acabaram por aparecer por cá por terem uma ineficiência evolucionária na forma como percepcionam o tempo. Felizmente, há alguém que está uns furos acima do comum mortal e soluciona todos os problemas comunicacionais, permitindo uma transação justa: eles levam o conhecimento do tempo contínuo e nós ficamos com o poder de ver o futuro que nos dá a hipótese de solucionar todos os males do mundo... ou não! Mas mesmo essa heroína da comunicação interestelar (a personagem de Amy Adams) terá que se debater com a mais profunda das nossas angústias: a necessidade de, em última instância, termos que decidir!
Vão ver que, pela parte que me toca, ainda não vi melhor este ano!