7.8.16

O capital ista - Parte 10

Entretanto, deu com as redes sociais e investiu imenso tempo a arregimentar amigos virtuais para colocarem gostos nas fotos que ia publicando. Criou um blogue onde mandava todo o tipo de larachas sobre viagens, dava conselhos a quem os pedia e encheu a Internet de fotografias onde aparecia em locais emblemáticos. Foi-se tornando famoso, o tuga que correu a América em meia dúzia de dias, um Ulisses homérico dos tempos modernos, um viajante intrépido e destemido, um migrante temporário e voluntário, uma vítima da incapacidade do homem para estar quieto, enfim um profundo conhecedor do mundo e das suas nuances! No ano seguinte lambeu África! Bem, a verdade é que precisou de dois anos, porque no segundo foi para o lado do corno, trepou ao Quilimanjaro e depois veio por aí abaixo e só parou na capital da Austrália. Agora tinha um telemóvel mesmo bom, tirava imensas fotografias e postava tudo em tempo real. Tudo não! Só as que se aproveitavam e não estavam desfocadas pelo movimento perpétuo, mas jamais se esquecia de ser o primeiro a dar “gosto”. No Facebook era um campeão, no Instagram não tinha ninguém à altura e o blogue tinha-se transformado num local de peregrinação virtual. Depois de tantos quilómetros a correr, era o indivíduo mais espadaúdo do país, puro osso e músculo, um grande amigo do ambiente e da mãe-natureza, o primeiro viajante com uma pegada ecológica impercetível. Na Arábia nem de camelo lhe conseguiram deitar a mão e na Índia houve gente a interromper a chafurdice no Ganges para aplaudir a sua passagem. Quanto a capitais, mais umas dezenas para a coleta e, agora sim, estava em velocidade de cruzeiro no que ao conhecimento do mundo diz respeito! A verdade é que sentia uma urgência, porque Ulisses, como cada um de nós, não estava a ficar mais novo e tinha plena consciência da lei suprema da vida: tempo passado, corpo cansado!


Sem comentários:

Enviar um comentário