2.8.16

O capital ista - Parte 3

No fim do curso, uma porcaria de curso que não servia para nada, era lógico reconhecer que o que acabara por se tornar relevante era a coleção de capitais por onde passara e o homem viajado em que se havia tornado. Quando um conhecido se punha a falar em ir a algum lado não perdia tempo e dizia logo “já lá estive” ou “conheço muito bem” e dava sempre conselhos do género “em Amesterdão tens que ter cuidado com os carteiristas, porque os holandeses andam sempre charrados e são uns larápios dos diabos”, ou “não te aconselho a andar na London Eye porque sai-se de lá com vontade de vomitar”, ou ainda “definitivamente Praga vale muito mais a pena do que Budapeste, mas o que te aconselho a fazer é ires à Croácia porque é um país muito mais autêntico”! Depois contava peripécias como daquela vez em que estava tão bem bebido que se pôs aos berros em português com um polaco em Varsóvia a ver se arranjava trocos para o elétrico, e o rapaz desatou a fugir cheio de medo daquela linguagem estrangeira, ou quando encontrou uma pandeireta num canto do jardim e se pôs a cantarolar na Stephenplatz e os turistas lhe encheram um saco de moedas. Curiosamente, era quando as coisas corriam mal que se ganhavam as melhores histórias para contar: um dia, alugou alhures um quarto numa casa velha e veio um temporal tão grande que o barraco foi pelo ar, e ele teve que se firmar às grades da cama até que a calma voltasse; doutra vez, ia todo lampeiro e chispado a conduzir pela direita do aeroporto para o centro de Dublin e, bem, é fácil imaginar os sustos por que passou! Que lorpa! No momento era um caguefe infernal, mas depois quando podia encher o peito e contar como se tinha desenvencilhado de forma tão heroica, acabava com vontade de se meter em sarilhos.


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